Cap. 3 - Art. 3o.Cap.3 - Art. 5o.

ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

SANTA CATARINA COLONIAL 
ART. 4o.
RELIGIÃO E OUTRAS IDEOLOGIAS AO TEMPO DA CAPITANIA DE SC.
91sc0598.

CAP. 3 - HISTÓRIA DA CAPITANIA DE SC. -
 
 
 
 
 599. Introdução. O progresso marcado pela criação da Capitania ofereceu também oportunidades para a emulação religiosa, e ideológica em geral. Ao lado do predomínio católico oficial, ocorreram também os primeiros sinais da presença do protestantismo, da maçonaria, do positivismo.
 Didaticamente convém primeiramente tratar da fisionomia geral da igreja da época e que influía de fora para dentro sobre o que acontecia na Capitania, no que concerne à religião (vd 91sc0600).
 Neste quadro geral também se mencionarão, ainda que de trânsito, os bispos e visitadores apostólicos, que, a partir de fora atuaram em Santa Catarina.
 
 E depois, sob este fundo, se há de tratar mais em particular das freguesias (ou paróquias), algumas já criadas anteriormente à Capitania:
 
Outras foram criadas ao tempo da Capitania:
 Freguesia de Lages, no Planalto (vd 91sc0660),
 Freguesias decorrentes imigração açoriana (vd 91sc0663);
 Freguesias de criação recente (vd 91sc0689).

 

 

§ 1. Fisionomia geral da Igreja em SC durante a Capitania.
91sc0600.
 
 
 
 601 Numa consideração generalizante sobre a religião em SC não se pode obedecer rigorosamente a divisão política decorrente dos dois estágios políticos denominados Capitania e Província.
 O quadro geral da Igreja Católica não obedece quase ao esquema que divide o espaço cronológico em Capitania e Província.
 A Igreja cristã se dividira em católica e protestante no século 16. Apesar de sua pomposidade, a Igreja católica entrou em um ligeiro declínio ao ingressar nos tempos modernos. Este fenômeno ocorreu já de início naqueles países em que de imediato se estabeleceu o protestantismo, o qual foi ali também favorecido pelo fato de suas populações serem mais alfabetizadas.
 
 O fenômeno protestante foi contido nos países que se mantiveram oficialmente católicos, pelo acordo denominado Padroado, em função do qual os governos mantinham o clero e reprimiam as demais religiões.
 Mas o recuo passou a ocorrer com o desenvolvimento das idéias liberais, peculiares ao século 18, marcado sobretudo pela Revolução Francesa e desenvolvimento do liberalismo maçônico.
 Apesar das medidas oficiais tomadas pela Igreja Católica no curso do Concílio de Trento (1545-1563) e apesar de algum sucesso durante o colonialismo dos reinos católicos da Espanha e Portugal, -  o fenômeno do declínio passou a ocorrer, com sinais aqui e ali, até mesmo no curso da Capitania de Santa Catarina.
 Também a Igreja Católica foi se liberalizando internamente.
 O Concílio Vaticano I (1869-1870) representa uma reação à liberalização. Pela retomada do espírito do Concílio de Trento, marca-se agora um novo período de relativa prosperidade da Igreja Católica. Este novo período foi sentido em Santa Catarina sobretudo através do operoso clero vindo por influência da imigração européia.
 Finalmente este novo período também passou ao declínio,  talvez tenha terminado com a abertura do Concílio Vaticano II, quase um século depois, ao serem tentados mais uma vez novos caminhos, com avanços e recuos nas diretrizes.
 É possível determinar duas fases de desenvolvimento da Igreja em SC, a que vai até  o final do século do século 18, tempo da Capitania, e a que segue pelo século 19, fim da Capitania e perdurando durante a Província. Nesta segunda fase religiosa da Capitania ocorre já a presença protestante, a maçonaria, o positivismo.

 
 

 
 I -  Fisionomia da igreja em SC. até o fim do séc. 18.
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 603. O clima decorrente do progressivo povoamento de Santa Catarina, combinado com a criação dos primeiros municípios e sobretudo do Governo Regional da Capitania, deu oportunidade à multiplicação das igrejas e paróquias (ditas então freguesias).
 Atuam as ordens religiosas e sobretudo o clero secular. Por trás deste se encontram os bispos e os visitadores apostólicos. Também se estabeleceram associações chamadas Ordens Terceiras e Irmandades.
 Aparentemente tudo é progresso. Este progresso aparente decorre do fato do povoamento, pelo qual tudo se fazia a primeira vez. De fato porém ocorria um declínio generalizado da Igreja no curso dos tempos modernos.
 O ensino em Santa Catarina contou por algum tempo  com um colégio administrado pelos jesuítas. Criado este colégio em 1750, e implantado em 1751, era ele fechado em 1759, em decorrência da expulsão da Ordem dos Jesuítas, sinal dos tempos! (vd 706).
 
 Deu-se também incentivo às obras assistenciais, através das irmandades dos brancos e dos pretos.


 
 
604 Bispados do Rio de Janeiro e São Paulo. A emulação se ordenou superiormente, pelo melhor estabelecimento da hierarquia eclesiástica, pois entrou a funcionar normalmente a vigaria da Vara, ao mesmo tempo que as relações com o bispo do Rio de Janeiro se processaram com regularidade.
 Ao tempo, já funcionavam as Constituições do Arcebispado da Bahia, ditadas em 1709. Elas regulavam todo o Brasil colônia, porquanto seus bispados se coordenavam em uma única província eclesiástica, de que o Arcebispo era o titular de Salvador, da Bahia.
 No Centro-Sul onde havia apenas o bispado do Rio Janeiro. As ações religiosas partiam pois unicamente do Rio de Janeiro para um espaço muito vasto, em que se incluía a costa catarinense.
 Criava-se em 22 de abril de 1745 o bispado de São Paulo, com jurisdição até Colônia Sacramento, às margens do Rio da Prata. Foi primeiro bispo de São Paulo D. Bernardo Rodrigues Nogueira. Sagrado em 13-3-1745, em Lisboa. Chegado ao Rio de Janeiro, tomou posse por procuração. Por intermédio do vigário da Vara, Pe. Manoel José Vaz, em 6-8-1846. Entrementes, a partir do Rio de Janeiro, foi tendo contatos com o extremo Sul. Foi recebido em São Paulo em 8 de dezembro de 1746. Faleceu em 7 de novembro de 1748. Seu substituto viria apenas em 1751.
 Entretanto, em 20 de novembro de 1749 retornou à Diocese do Rio de Janeiro o Sul, a partir do Rio de São Francisco, conforme ordenava o Rei de Portugal:   "Atendendo a muitas razões que mim representaram, para dever ficar sujeito à jurisdição do Bispado do Rio de Janeiro todo o distrito do Sul, desde o Rio de São Francisco, até a Colônia do Sacramento, em virtude da faculdade apostólica, que para esse efeito me foi concedida".
 De qualquer sorte já era uma vantagem haver dois bispados no Sul, de sorte que o bispo do Rio Janeiro, a quem ficaram pertencendo as capitanias de Espírito Santo e Santa Catarina, já podia atender melhor às mesmas.
 Por causa desta presença do novo bispado de São Paulo é que os primeiros relacionamentos a respeito da colonização açoriana em Santa Catarina se fizeram com o bispado de São Paulo.
 Além disto, o bispado de São Paulo conservou sua jurisdição sobre o Planalto de Lages durante todo o tempo restante da Capitania, adentrando mesmo os anos da Independência (vd ).
  Seguem, como bispos do Rio de Janeiro, Dom Frei Antônio do Desterro, que já o era em 1749, sucedido em 1774 por D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas, por sua vez sucedido em 1805 por D. José Caetano da Silva Coutinho, que entrará o tempo do Brasil independente.


 
 
605. Visitadores apostólicos. Na época enviados trienalmente, ou em espaços maiores, os Visitadores apostólicos atuavam em nome do Ordinário (o bispo diocesano), crismando e controlando a disciplina eclesiástica.
 Relação de Visitadores Apostólicos conhecidos:
 1655 - Pe. João da Rocha Ferraz, vigário de Cananéia, para São Francisco.
 1700 - Pe. João de Sousa Fonseca, para a "Costa do Sul".
 1724 - Pe. Luiz Mendonça e Silva, de Paranaguá, havendo estado na Ilha de SC.
 1727 - Pe. Cristóvão da Costa e Oliveira, de Santos à Laguna.
 1737 - Pe. Paulo Fausto do Prado, esteve em Desterro.
 1740 - Pe. Antônio Pestana Coimbra, visitou Desterro.
 1751 - Pe. Domingos Pereira Telles (vd 670), nas freguesias vizinhas de Lagoa.
 1765 - Pe. Dr. Inácio José Galvão, em crismou em Lagoa.
 1781 - Pe. Dr. Vicente José da Gama Leal, em todo o Sul.
 1790 - Pe. Agostinho José Mendes dos Reis (vd), em todo o Sul.
 1798 - Pe. Bento Cortes de Toledo, em todo o Sul.
 1811 - Pe. Agostinho José Mendes dos Reis (2-a vez).
 
 1815 - Finalmente ocorreu a visita pastoral do mesmo bispo do Rio de Janeiro, D. José Caetano da Silva Coutinho.
 Penetrou a Capitania a cavalo, procedente de Guaratuba, visitando em julho de 1814 a freguesia de São Francisco, a partir de onde foi passando todas as freguesias, até janeiro de 1816.
Depois se fizeram conhecidos visitadores no decorrer da Província:
1842 - Pe. Tomás Francisco da Costa.
1845 - Visita do mesmo Bispo, Dom Manoel do Monte Rodrigues, ao mesmo tempo  que fazia parte da comitiva do jovem Imperador D. Pedro I.
1855 - Cônego Lourenço Vieira de Sousa Meirelles.
1861 - Pe. Pedro Celestino d'Alcântara Pacheco.
1863 - Pe. Joaquim Gomes de Oliveira Paiva (Arcipreste Paiva).
 Dos Relatórios de alguns dos visitadores se coletam informações cujos detalhes servem à história das freguesias (vd).
 Geralmente os visitadores eram bem recebidos pela população que ia crismar seus filhos, com o pagamento de um óbolo.
 Entretanto foram referidos alguns casos de escândalo, como foi o episódio do Visitador Pe. Bento Cortes de Toledo, de 1798, que comprou uma tropa de gado vindo do Sul e mandou negociar em São Paulo.
 Contra ele fez uma Representação Sebastião Xavier da Veiga Cabral da Câmara (ex-Governador do Rio Grande de São Pedro), em que aparecem os seguintes termos:
 "... ficarão daqui banidos os escandalosos excessos de alguns Visitadores".
E no final:
 "... como acaba de fazer o Visitador do ano de 1799, o qual, por fins de sua apostólica visita, se acha com tal número de mil cruzados, que, equivalento à compra de uma grande tropa de bestas muares e cavalares, saiu daqui a comerciar com estas para São Paulo, deixando após si um tal escândalo" (Câmara, Representação, 348).

 
 
606. Ainda o espírito do Concílio de Trento. Vistas as coisas em plano eminentemente geral, do ponto do vista do período histórico eclesiástico, que então se está vivendo no mundo católico, - implanta-se, ainda que precariamente, em Santa Catarina a igreja do Concílio Trento (1545-1563).
 A paróquia de N. Sra. do Desterro foi progressivamente instalando uma estrutura típica de sua época.
 Esta estrutura não é popular, como a dos protestantes que haviam adotado a língua do respectivo país.
 Dizer concílio tridentino significa contra-reforma. É negar a modernidade para a qual se havia encaminhado o fim da Idade Média, com as peculiaridades humanizantes do Renascimento, as vezes paradoxal.
 É um quase fixismo, que não se altera com o tempo e nem com o país. É ainda uma retomada da rigidez do celibato e a criação de seminários para a formação do clero diocesano, dito sobretudo anteriormente clero secular (oposto de religioso). É uma exaltação do latim, à título de tradição.  Enquanto os alfabetizados protestantes praticavam a liturgia em língua nacional, os missionários católicos fizeram aos índios cantar a missa solene em latim.
 Fugiu todavia a colônia a alguns aspectos, em que o Concílio não funcionou inteiramente. Este declínio com referência ao Concílio Tridentino se acentuará no mundo todo no curso do século 18.
 O caráter periférico de Portugal em relação à Europa em geral fez com que nele se conservassem até mesmo aspectos obsoletos, que vinham do centro da Idade Média.
 A devoção ao Espírito Santo, peculiar à Igreja Católica, manteve formas medievais de caráter herético. Os discípulos do monge italiano Joaquim de Flora acreditavam de uma nova era viria, na qual o Reino de Jesus Cristo seria substituído pelo Reino do Espírito Santo, o qual teria pois a coroa.
 Ainda fugiu a Igreja do Brasil Colônia ao rigorismo formalista, quando se acomodou humanamente aqui e ali. Apesar do rigorismo das Leis, o povo se isentou até mesmo da prática de obrigações dominicais e quaresmais. Também o clero oficialmente celibatário conservou as suas tolerâncias, que vinham do final da Idade Média, sem que o Concílio de Trento conseguisse pôr fim a esta humanização.
 A Capitania de Santa Catarina e a Província jamais foram integralmente tridentinas, sendo neste particular, como o Brasil e Portugal, apenas uma periferia da Europa.


 
 
607. Quando em 1759 o governo português expulsava os jesuítas, não pensava em um combate à religião, apesar de haver atingido importantes instituições de ensino, mesmo em Santa Catarina (vd ). Apenas acreditava em uma outra modalidade de estrutura educacional, à qual os jesuítas se recusavam.
 Na verdade, os tempos se encaminhavam para uma nova revisão, porque novas situações sociológicas passaram a atuar e que tiveram, - como já advertimos, - no liberalismo republicano da revolução francesa (1789) um marco bem conhecido e avançado.
 As mudanças que se estavam dando não eram abruptas em Santa Catarina. Ainda que a anulação do colégio jesuítico de Desterro (vd 706) fosse algo abrupto, a atuação dos jesuítas não era tradicional na Ilha de Santa Catarina, de sorte que não houve sensação de grande mudança.
 As alterações de mentalidade principiam a ocorrer em Santa Catarina somente na passagem do século, quando já surgem idéias liberais e se ouve falar em maçonaria, bem como em protestantismo.
 Não obstante continua normalmente a ação de grades vigários e a prosperidade das associações religiosas, como a Ordem Terceira, a Irmandade do Rosário e sobretudo do Senhor dos Passos.
 Ainda que insensível à diferença, começa a se delinear uma fase religiosa dos dos primeiros anos da Capitania, diferente da que vem vindo já no final da Capitania e se acentuará no decorrer da Província.


 
 
608 O modelo de Igreja que não chegou a haver. Pertence ainda ao caráter geral da história religiosa dos primeiros anos da Capitania de Santa Catarina, o haver sido integrada, em alguns aspectos, ao espírito do tempo que estava em curso e que vinha desde o Concílio Tridentino (1545-1563).
 Desterro colonial não chegou a realizar todo o tipo religioso que então ocorria no resto do País e do mundo, onde, a par do clero secular, se estabeleciam também as ordens religiosas. Nas cidades de um certo porte havia uma igreja dos jesuítas, uma igreja dos Franciscanos (em geral ao lado de uma igreja da Ordem Terceira), uma igreja dos Carmelitas.
 Quando a multiplicação era maior, aparece também uma igreja dos Dominicanos, uma Igreja dos Beneditinos (S. Bento), uma Igreja Agostiniana. Este aspecto curioso, típico do tempo imediato após o Concílio de Trindade, embora continue a haver, cedeu contudo lugar ao crescimento do clero diocesano, - dos padres seculares, diretamente subordinados aos bispos.
 Ora, esta particularidade deve ser examinada, porque ela tipifica o primeiro período eclesiástico brasileiro, com sobras que vão penetrando pelo segundo. Não fossem já avançados os anos e já não estivessem atuando as novas causas históricas, a velha Desterro teria teria visto aparecer algumas das mencionadas Igrejas, como as há tantas no Rio de Janeiro, Bahia, Recife.
 O começo já havia sido dado. Os carmelitas foram os primeiros a paroquiar, na freguesia de N. Sra. do Desterro, com Frei Agostinho da Trindade e Frei Tomé Bueno.
 O pouco desenvolvimento do Sul não dera tempo para os agostinianos se fixarem. Frei Agostinho da Trindade, primeiro vigário de Desterro, foi um cidadão eminente, havendo ido mesmo à Lisboa tratar dos interesses do povoamento do Sul. Ele mesmo deixou descendente.
 Os jesuítas, chegados em 1748, estabeleciam-se com bastante solidez no Hospício, na praça principal da cidade, onde logo criaram sua capela.
 Não houvessem sido expulsos em 1759, teria nascido neste local (ao lado da Câmara Municipal), uma Igreja dos jesuítas, em pomposo estilo barroco.
 
 Os Franciscanos mantiveram um comissário, desde 1745, junto à Ordem Terceira.
 A precariedade da pequenina cidade de Desterro não lhes sugeriu a criação de mais uma igreja dos Franciscanos, ao lado da Ordem Terceira, como aconteceu no Rio de Janeiro (largo da Carioca) ou em São Paulo (Largo de São Francisco).
 Também na Ilha de São Francisco mantiveram por muito tempo os franciscanos um comissário.
 O feitio espiritual das Ordens, como elas atuavam, data do século 16 e se desenvolveu com muito triunfo pelos séculos 17 e 18. Propagaram uma espiritualidade nos termos que lhe deram os grandes místicos, em geral os seus fundadores.
 Ocorreu assim um certo desligamento da Bíblia, em favor de uma segunda Bíblia: as Regras, ou Exercícios espirituais, do fundador e da Ordem. Nesta escolinha espiritual procuraram formar os grupos associados e o povo que frequentavam as igrejas em que pregavam.
 Ao mesmo tempo as ordens religiosas se distanciaram da organização diocesana, porque tinham seus próprios organismos superiores. Dali ser mui significativa a denominação de Ordens isentas, isto é, desligadas da autoridade do bispo. São comandadas por um Geral, em Roma, o qual obedece ao Papa (quando este possui poder para convencer).
 O tipo de igreja de após o concílio tridentino resultou, na prática, em uma coleção de escolas de espiritualidade.
 O povo não chegou a aderir plenamente às Ordens. Não se moveu para defesa dos jesuítas expulsos. Nem converteu as igrejas das Ordens em centros de romaria popular, ainda que a eficiência intelectual das Ordens atraísse para a religião. O frade é considerado pregador! Ao passo que o clérigo secular é considerado do povo. Os ressentimentos de Pombal, não eram sem realidade.


 
 
610. Tem inicio as associações religiosas dos leigos (1745). É do caráter novo, - e característica da fase religiosa em que ingressava a Capitania de Santa Catarina, - a instituição de organizações dos leigos. Na forma em que se estabeleceram, criaram tradição, particularmente na região litorânea.
 
 As associações têm início em Desterro, com a fundação da Venerável Ordem Terceira da Penitência, em 1745, na pequena Matriz. Neste período inicial coube-lhe a capela lateral à direita, tendo pelo outro lado a capela do SS. Sacramento.
 Passou a Ordem Terceira a ter em 1815 igreja própria, dedicada a São Francisco, no centro urbano. Liberada a capela lateral, passou esta a ser de N. Sra. das Dores.
 Sobretudo se desenvolveram as Irmandades, com a finalidade de abrilhantar o culto, sempre completando-se com algum iniciativa de benemerência:
 - Irmandade de N. Sra. Do Rosário, dos pretos, fundada em 1750, com igrejinha própria;
 - irmandade do Senhor dos Passos, em 1765, instalada na igreja do Menino de Deus;
 - Irmandade do Espirito Santo, estabelecida na Matriz, em 1773 migrada depois para a igreja própria;
 - Irmandade do SS. Sacramento, de que se tem notícia, em 1784, também na Matriz, nesta ainda se conservando hoje.
 Iniciativas semelhantes ocorreram no interior da Capitania:
 - em Laguna, irmandade do SS. Sacramento e Santo Antônio (1753;
 - em São Francisco,  Ordem Terceira da Penitência (1751) e Irmandade do SS. Sacramento e da Graça (1754).
 Por derivação as igrejas em torno de Desterro, como também de em torno de São Francisco e de Laguna, foram criando suas irmandades, de acordo com o estilo das velhas matrizes dos núcleos geradores.
 Menos formalizadas, não se conhece quase a história destas outras irmandades.
 Uma evolução peculiar terão as associações denominadas Irmandades, caracterizadas pelas suas finalidades de culto e de festas. Novos tipos associativos, de natural mais pastoral, se desenvolverão sobretudo a partir do final do século 19, como Apostolado da Oração (vd) e Congregação Mariana (vd ).


 
 
611. As Irmandades do Espírito Santo tiveram bastante resistência ao tempo. Trouxe do seu longo passado, que remonta ao Sacro Império Germânico, a idéia de uma festa de amor aos pobres, expressada numa comilança generalizada; também remonta à Idade Média a imagem exaltada do reino do Espírito Santo, como então a pregava o italiano Joaquim de Flora.
  A primeira de que se tem notícia é a da Igreja Matriz de N. Sra. do Desterro, criada em 1773. Por imitação, difundiu-se para as igrejas matrizes da região. Seu aspecto fora similar à Irmandade do Santíssimo Sacramento, qual seja a de abrilhantar o culto, tendo por objetivo principal promover a festa anual do Espírito Santo.
 Evoluirá futuramente a Irmandade do Espírito Santo da Igreja Matriz de N. Sra. do Desterro para um significado mais pastoral, vindo a criar mesmo um asilo (vd).
 Algo similar aconteceu também com a irmandade do Sr. Bom Jesus dos Passos, mantenedora do Hospital de Caridade (vd).
 Com referência à atividade pastoral das Irmandades de N. Sra. do Rosário, foram muito ativas no tempo em se propunha a liberação dos escravos. Declinaram depois, por haver cessado o um dos seus principais motivos, como também porque diminuiu a relação numérica dos pretos, sobretudo por quando acontecia a valorização das propriedades nos centros urbanos onde se encontravam ditas igrejas.
 Mantiveram-se as velhas tradições da festa do Espírito Santo sobretudo nos bolsões mais primitivos da população, vindo a dar a posterior impressão que eram tradição específica somente destes grupos.


 
 
612.  Estabiliza-se a presença dos clérigos seculares, estes mais diretamente ligados ao sistema diocesano.
 Em decorrência foram perdendo importância as antigas irmandades, por vezes até entrando em conflito com os novos modelos de vida religiosa e com os párocos de novo modelo.
 Na história religiosa dos tempos da capitania e adentrando nos da Província é significativo atender aos modelos então existentes, independente de que depois tenham vindo a desaparecer.
 Sobretudo Ordens terceiras e Irmandades comparecem no interesse do historiador, como os instrumentos que vieram completar a organização paroquial, da Santa Catarina Colonial, conferindo-lhes núcleos de iniciativa e racionalização das atividades de então.


 
 
614  Ordem Terceira.  Ocorreu a criação da Venerável Ordem Terceira da Penitência por iniciativa da Câmara municipal de Desterro, que a solicita ao Provincial da Província Franciscana Frei Francisco das chagas, residente no Rio de Janeiro.
 O provincial passou, em 10 de Janeiro de 1744, função a Frei alexandre de Santa Cruz, para que a preparasse e instalasse. Em fins de janeiro de de 1744 já se encontra pregando em Desterro, instruindo os candidatos, homens e mulheres. No dia da comemoração das Chagas de São Francisco, 17 de novembro, professam vinte irmãos, na Matriz de N. Sr. do Desterro.
 Na época fora vigário, Pe. Manoel de Araújo Miranda (1742-1746). O governador Silva Pais encontra-se ausente, a Serviço da Colônia Sacramento, substituindo o Mestre deCampo Pedro de Azambuja Ribeiro. O governador interino passa a ser ministro, da Mesa da Ordem. Secretário e primeiro definidor, o capitão Luiz Manoel de Azevedo Carneiro e Cunha. Pelo visto, a Ordem agregara as mais altas figuras. Em outros termos, a estruturação da elite em associação religiosa.


 
 
615. Destaque-se também o Padre Franciscano. Acredita-se que Frei Alexandre de Santa Cruz houvesse permanecido em Desterro, como comissário da Ordem. Seguem-se outros comissários.
 A presença quase constante de um padre franciscano em Desterro, explica o progresso da então Ordem Terceira, que chegou a construir Igreja própria, a ainda existente Igreja de São Francisco.
 De outra parte não há acontecimentos importantes que destaquem aos frades e que tenham feito chamar sobre si a atenção.


 
 
616. O clero dos primeiros anos da Capitania. Criadas as freguesias, também se estabilizou a presença do clero secular, que vive de uma côngrua oficial.
 Uma informação de 1765 ao governador nomeado T-te Francisco de Sousa Menezes, ao terminar de informar sobre uma série de "canalhas" a respeito dos quais se devia prevenir, acrescenta ainda informe sobre os vigários das sete freguesias (vd) então existentes nesta Capitania.
  "Resta falar a Vossa Senhoria de alguns eclesiásticos das freguesias do governo... " (vd). Depois de dizer o que deles tinha a informar, concluiu:
  "Deus livre Vossa Senhoria dessa gente e cujos riscos passa quem governa povos, pois há os bons e os outros, de quem Vossa Senhoria deve sempre se benzer" (Notícia de 1765).
 Instituiu-se o Seminário Diocesano do Rio de Janeiro, em 1739. Mais tarde será conhecido também como Seminário da Corte. E mesmo como Seminário de Rio Comprido, referência ao bairro em que se encontrava situado e ainda hoje continua.   Neste seminário estudarão os primeiros catarinenses que seguiram a carreira eclesiástica.
 Mas uma parte do clero aproveitado em Santa Catarina pela volta de 1750 a 1770 não era do seminário do Rio de Janeiro, havendo sido transportado sobretudo de Açores.
 Com referência ao Seminário da Corte, criado em 1739, parece que fora bastante fácil em promover pessoal para o serviço eclesiástico, porquanto de maneira geral não houve falta de clero durante o Brasil Colônia. Havia também a porta aberta facilitando a vinda de clérigos portugueses.
 A melhoria do ensino no Seminário do Rio de Janeiro foi pleiteada pelo bispo D. Manoel Joaquim Justiniano Castelo Branco, empossado em 1774. Já em 1775 cobrou do clero, secular e regular na ativa, exames de teologia moral. Instituiu também novas cátedras de ensino no seminário..
 Com a independência do País começará o problema, porque as fontes brasileiras de vocações, não puderam sustentar a independência no campo religioso.
 Em Santa Catarina Colonial as dificuldades de obter vigários advinha também da precariedade de subsistência, porquanto a implantação do povoamento no Sul ainda era recente.
 O pouco desenvolvimento econômico de várias das novas freguesias, sobretudo as dos núcleos de origem açoriana, não permitia sustentação de párocos. As igrejas matrizes, além de construídas pelo Governo, deviam ser ainda sustentadas por este, e se não o fizesse poderiam ruir, como aconteceu com algumas delas (vd).


 
 
617. O clero dos anos de 1700, não é o mesmo de depois de 1800, como ainda este não é o mesmo de depois de 1900, apesar da linha comum da função.
 Nem são os mesmos os valores apreciados pelo clero e pelo povo cristão em cada época.
 Diante desta consideração cabe ver as diferenças e apreciá-las com os critérios de cada tempo, consequentemente não com juízos absolutos, mas relativos.
 Voltando-nos para o clero que operava em Santa Catarina nos primeiros dias da remota Capitania de Santa Catarina, podemos lembrar deveria ser dotado de abnegação, visto que seus integrantes eram vindos de centros maiores, para uma região considerada pobre e difícil .
 Esta opinião se apóia no dizer do Bispo do Rio de Janeiro, D. Frei Antônio do Desterro, ao responder aos reclamos da Câmara de Desterro, por mais clérigos, para as freguesias do interior da Ilha de Santa Catarina e da costa continental.
 Afirmava textualmente:
 "É essa terra tão pobre e os seus moradores tão remissos em concorrerem ainda com o que têm obrigação para os párocos, que estou em termos de não ter clérigos que queiram ir servir de párocos nessas Igrejas" (citado por O.  Cabral, Os jesuítas e o ensino de humanidades na Província, p. 18-21).
 Implicitamente, a afirmação do prelado contém a verdade de que os clérigos que aqui de fato vinham, eram abnegados. Por paralelismo, lembre-se que ainda depois de 1900 era difícil manter vigários nas freguesias do interior da Ilha de Santa Catarina e outras de velhos núcleos litorâneos do Continente e que remontavam aos tempos da Capitania.
 Somente com sacrifício e percalços se manteve o serviço religioso e a reforma das igrejas se fez à custa de favores do poder público. Desterro, portanto, no passado, era, o que, dois séculos depois, continuavam sendo ainda algumas freguesias.


 
 
618. Quanto ao clero importa ainda examinar uma Notícia de 1765  guardada no Conselho Ultramarino, escrito por alguém que tomou ao seu encargo de informar os aspectos negativos sobre os mais variados assuntos da Capitania, particularmente políticos, ao Governador nomeado em 30 de janeiro de 1765,- Francisco de Sousa e Menezes, - para que viesse prevenido para o seu cargo.
 Diz dos clérigos, de todas as modalidades, ou "de diversa jurisdição", pelo que revela a experiência, "que todos no Brasil são régulos e levantados, sem conhecer rei nem porque" (publicado em Arquivo Catarinense, outubro de 1908).
 O documento elogia a alguns, mas fustiga a muitos.  Aliás, o seu autor queria mesmo era alertar ao jovem governador nomeado.

 
 

 
II - Na passagem para o séc. 19, fisionomia da igreja em SC,
protestantismo, maçonaria. 91sc0619.
 
 
 
 620. Mudam os conceitos e as atitudes no final do século 18, pela liberalização progressiva dos espíritos, entrando assim a se desenvolver no século 19 adentro. Na dialética das oposições, uns afirmam enfaticamente a novidade, enquanto outros enfatizam reacionariamente o passado. Os novos são liberais, os reacionários mais absolutistas, quer se trate de eclesiásticos, quer de políticos.
 Do ponto de vista da Igreja, as causas atuantes na sua nova situação podem denominar-se extrínsecas (adversas) e intrínsecas (algumas atuantes, outras degenerescentes).
 Além dessas considerações de ordem interpretativa, importam ainda arrolar os acontecimentos religiosos peculiares ao período, em especial do final da Capitania de Santa Catarina.


 

 
 622. Dentre as adversidades que atuam sobre a Igreja, algumas são remanescentes e que já atuavam desde o período anterior; tal sucede com o protestantismo.
 Outras são específicas do tempo, pelo menos na sua importância. Agora temos a mencionar as conceituações, especialmente do deísmo, que inspirou a maçonaria. Análogas são as novas interpretações da exegese racionalista, renovadoras da base sobrenaturalista da Bíblia.
 Hão de ser citadas também as recentes modalidades absolutistas do tempo, especialmente de Pombal e na forma semi-liberal que assumem ao tempo da Colônia e passam a prosperar no curso do Império.


 
 
623. Os primeiros protestantes entre nós. Os tempos novos favorecem as regiões protestantes do mundo que somam em seu favor a prosperidade dos países em que são maior número.
 A decadência paulatina destruiu a importância do reino católico da Espanha. Ainda que revigorado diante das ambições espanholas, também Portugal declinou, em relação ao resto do mundo europeu.
 A Igreja Católica, por sua vez, participa das consequências do subdesenvolvimento, notadamente das populações hispano-lusitanas. Cria-se o mito das vantagens do protestantismo para o progresso. Ainda que a interpretação possa ser superficial, o mito em si mesmo é a prova da existência de uma situação efetivamente diferenciada de umas populações e outras.
 O conceito se divulgou também em relação ao Vale do Itajaí, onde em Santa Catarina se instalaram por primeiro grupos maiores de protestantes.


 
 
624. A situação protestante, no decorrer do novo período, é também outra no que se refere às lutas fanáticas. Reina a paz. Em consequência, o protestantismo, obtém crédito para penetrações paulatinas no mundo ocupado pelos católicos.
 O crescente liberalismo e valorização da liberdade de consciência também lhe são favoráveis nos mesmos países. Aliás, pela inversa, foi ocorrendo a penetração católica nos países protestantes notadamente nos mais democráticos e liberais em assuntos de religião.
 Os chamados hereges ao tempo da invasão holandesa, passam agora a poder imigrar pacificamente. Os núcleos de imigração alemã se estabelecem no Brasil, com fortes contingentes luteranos: No Rio de Janeiro, iniciando em Nova Friburgo (1817), no Rio Grande do Sul, em São Leopoldo (1824), em Santa Catarina, em São Pedro de Alcântara (1829). Ainda antes da independência do país era construído um templo anglicano, em Tijuca, cidade do Rio de Janeiro.
 Ainda que os protestantes de São Pedro de Alcântara se tenham assimilado quase todos pela maioria católica,  outros núcleos permaneceram fortemente luteranos.
 Não muito depois se farão as primeiras penetrações do protestantismo americano. Os presbiterianos por exemplo, enviam um primeiro missionário em 1859. Em Santa Catarina, porém, estas outras confissões ganham espaço apenas na República.


 
 
625. Novos conceitos filosóficos e religiosos. Maçonaria. As maiores novidades adversas a Igreja católica aparecem no mundo intelectual, com suas novas conceituações filosóficas, religiosas, exegéticas.
 A maçonaria, como formulação prática do que ocorria, é portanto um fenômeno mui específico do tempo.
 Na filosofia e no pensamento em geral as modificações já vinham de Descartes (1596-1650), fundador da filosofia moderna racionalista, e de Francisco Bacon (1561- 1626), por sua vez da filosofia moderna empirista. Agora entram para as radicalizações, ao ingressarem no segundo período, com Emanuel Kant (1723-1804), autor da Preleção de 1770 e da Critica da Razão Pura (1781).
 Do ponto de vista religioso, importa mencionar o Deísmo, formado no iluminismo inglês. Seus autores remotos são Toland (1670- 1722) Tindal (1656-1733). Entra a ganhar importância, sob variadas transformações, de natureza agnóstica. O empirismo inglês influencia o racionalismo alemão, especialmente o de Kant. Em 1741 já se traduzia para o alemão, a obra de Tindal, - O cristianismo tão antigo como a criação. Frederico II, na Alemanha, Voltaire e Rouseau, na França, dão prestígio às naturalistas do Deísmo. Uma plêiade de livres-pensadores criou um novo mundo intelectual, adverso à Igreja.
 Basicamente, não haveria o sobrenatural. Apenas o natural, que Deus teria criado sem necessidade de novas interferências. A palavra sobrenatural, da Bíblia, interpretada simbolicamente. Em tais condições o Cristianismo se reinterpreta como religião natural.


 
 
626. A maçonaria é a organização dos homens que pensam segundo as idéias do deísmo. E, por haver nascido na Inglaterra, levou sua marca, a saber a de ser constituída, ao menos no início, só para homens. Estes por sua vez, mui bem selecionados.
 Em tese, a maçonaria é uma instituição de alto gabarito intelectual e moral, com uma doutrina de elevação espiritual.
 Como significação, para o período eclesiástico ou seja no século 19 em questão, é uma das mais significativas adversidades da Igreja católica. No tempo, exerce mais significação comparável ao do protestantismo.
 Na sua organização exterior, a maçonaria assume os símbolos das associações profissionais dos pedreiros medievais e se coordena em lojas (do francês loge = alojamento, abrigo, pouso, sede, loja), equivale a templos, ou Igrejas. No século 16 estas associações profissionais medievais evoluíram na direção do social, político, ideológico. Finalmente se federaram as lojas, começando esta fase com a criação da Grande loja de Londres em 1717. Seguiram-se as da França em 1725, da Espanha em 1726, de Portugal em 1727, do Brasil em 1801.
 A primeira loja se instalou em Desterro em 1830, mas desde antes já havia maçons em Santa Catarina, e que atuaram em favor da independência do País em 1822 (vd).
 
 Sob Marquês de Pombal (1699 - 1782) se desenvolveu amplamente a maçonaria, chegando mesmo ao Brasil, onde ocorrem sociedades secretas já no século 18, antes portanto da loja regularmente formalizada de 1801, do Rio de Janeiro.
 Enquanto as lojas inglesas se limitavam aos três graus, - aprendiz, companheiro e mestre, - as lojas acresceram novos graus, com ritos secretos e doutrinações mais rijamente anti-católicas, anti-absolutistas.
 Na formulação prática, que já é fornecida pelo Lorde Bolingbroke (1715) os deístas deixaram ao povo a religião tradicional, porque só nos espíritos mais adiantados o livre pensamento funciona sem prejuízo da ordem social.
 Depois de amplamente difundida, foi a Maçonaria condenada pela Igreja, em 1738. A condenação se reitera mais de 15 vezes. De começo não houve conflitos de natureza mais grave. Aconteceram as acomodações. E houve mesmo os estrategistas
 "que o clero marche sob o vosso estandarte, crendo estar marchando sob o dos chefes apostólicos; atirai as vossas redes até o fundo das sacristias, do seminário e dos conventos "(Carta a Volpe, com as instruções secretas de Nubius, chefe da alta venda Romana, de 13 de Abril de 1844).
 O panorama entrou a se convulsionar na segunda metade do século 19, marcando fase nova, no período em questão. Também em Santa Catarina se observará tal mudança de clima no final da Província.


 
 
627. O positivismo, eis outro sinal dos tempos e que surge mais para o final do período.
 O manso empirismo inglês fora o clima do deísmo. Este acomodava-se também com o racionalismo, Filosofia sempre dominante até 1850.
 Com o desprestígio súbito de Hegel, uma forte ventania moveu as inteligências inglesas na direção do positivismo de Augusto Comte (1798-1857), do evolucionismo de Spencer e Darwin, mesmo do esquerdismo materialista de Marx.


 
 
628. Liberalismo, de um lado, paternalismo de outro. Um dos fenômenos sociológicos mais expressivos e mesmo de saldo positivo, do tempo, é a progressiva conscientização da liberdade de consciência. Conduzida ao máximo, deu lugar ao liberalismo, com suas variadas formas de enriquecimento da personalidade do indivíduo.
 Ainda que a moral católica estabeleça a liberdade de consciência, como primeira luz a que o indivíduo deva atender, não frisou este aspecto. Tratou ao cristão segundo a velha pedagogia paternalista do pastor de cajado frente à ovelha, atuando com meios extrínsecos.
 Tal foi o feitio mental do Concílio de Trento, e que ia ruindo sob o impacto do movimento do liberalismo, comandado pela maçonaria e pelo positivismo.
 A conscientização moderna da liberdade de consciência foi uma adversidade para os moldes tradicionais de religião.
 Também não favoreceu à Igreja tradicional o clima por ela criado no decorrer dos séculos 18 e 19 em favor da monarquia, em desfavor da república democrática.
 O mesmo aconteceu com o modo de conceber a união entre a Igreja e o Estado. Os termos eram sempre o do paternalismo e não da iniciativa das consciências.
 Os governadores da Capitania e da Província de Santa Catarina a se concentrarem em construir igrejas matrizes para as comunidades de imigração açoriana, - que as deixavam depois deteriorar e as vezes até cair, - é um exemplo peculiar dos efeitos paralisantes do paternalismo religioso instalado aqui no decurso dos séculos 18 e 19.


 
 
629. O Padroado obsoleto. A antiga forma portuguesa de união da Igreja e do Estado, conferindo a iniciativa a este, em troca do padroado material, passou a torna- se obsoleta. Quando a iniciativa encontrou condições para se desenvolver, - dada a conscientização do homem moderno, - a religião continuou função do Estado. E assim permaneceu por todo o tempo do Império brasileiro.
 O concílio de Trento, consagrando o conceito da religião oficial, dava agora oportunidades não previstas, ao absolutismo crescente dos regimes.
 Os problemas sociais e econômicos das nações em declínio, levaram os soberanos a medidas fortes, para a proteção de estruturas arcaicas e defesa de privilégios.
 Na França, em agravamentos sucessivos, foi-se enfim para a arrebentação anárquica da Revolução de 1789.
 Em Portugal e Espanha os esquemas absolutistas conseguiram manter-se, por muito tempo mais, através de reformas, que foram nada mais que paliativos.
 Doutrinariamente, o absolutismo se alimentava em doutrinas protestantes e jansenistas. No que se referia ao poder real, ensinou-se que ele baixava diretamente de Deus, de sorte a desligá-lo do povo. Desta maneira se justificava também a jurisdição por sobre a religião.
 As causas profundas da situação de decadência em que entrou a Igreja no Brasil e também em Santa Catarina, sobretudo na última fase do século 19, se associam à absolutista do Marquês de Pombal, ministro de D. José o reformador. Seu trato dos negócios eclesiásticos, representou uma interferência profunda nos destinos do catolicismo brasileiro.


 
 
630. A oficialização do ensino, com a marginalização da iniciativa privada, veio ferir amplamente os colégios jesuíticos.
  Mas a queda se apresentava um pouco mais complexa, no que diz respeito aos jesuítas; eram estes opositores tradicionais do protestantismo e do jansenismo, particularmente da doutrina absolutista do poder.
 Francisco Suarez (1548-1617), príncipe entre os mestres jesuítas, que lecionou em Coimbra, em seu tratado de Legibus dera combate incisivo ao Rei Jaime I, da Inglaterra, defensor do direito divino dos reis.
 De outra parte, o jansenismo católico de Pascal, com as célebres Cartas a um Provincial (1656), feriu profundamente aos jesuítas,
 Da expulsão dos jesuítas, em 1769, resultou a destruição do Colégio que mantinham em Desterro, desde 1751.


 
 
631. Importa ainda a data de 1772, quando Pombal reformou a Universidade de Coimbra. O caráter dos novos estatutos, favoreceu a mentalidade jansenista e absolutista em geral.
 Consequentemente, através de Coimbra se deu nova formação à intelectualidade brasileira do Clero.
 Acontecimento apenas negativo, a data da expulsão dos jesuítas em 1759, não teve tantas consequências, quando a da reformulação do ensino, sobretudo o da universidade de Coimbra, instituição basilar.
 Não temos acontecimentos abruptos, como a revolução francesa (1789) para delinear uma data para início da nova situação; por isso, a da reforma dos estatutos da Universidade de Coimbra, se apresenta expressiva, apesar dos seus efeitos mui paulatinos sobre a mentalidade geral do conceito de Igreja no século 19 brasileiro e catarinense.
 
 Ponderou um defensor da causa católica, Alceu Amoroso Lima:
 "Mais grave talvez, porém, do que esta ação direta pela expulsão dos educadores primários, moralistas e catequistas, foi a ação indireta pela reforma dos estudos em Coimbra. Problema central para o estudo da forma e do problema espiritual do Brasil é o dessa introdução do jansenismo e do galicanismo na Universidade de Coimbra nos fins do século 18.
 Data desta protestantização de Coimbra por Pombal a preparação de todos os venenos que vieram envenenar a história do Catolicismo no Brasil e impedir que a ação da Igreja em nossa formação social se operasse normalmente" (Política, Rio de Janeiro, 1932, pg. 275).
 
 Introduzindo novos estatutos, abria Pombal, de par em par, a porta aos galicanos e jansenistas, entregando as cátedras à professores estrangeiros, que tinha mandado vir. A reforma, em si mesma uma necessidade, tinha todavia uma direção marcada.
 Tanto em Coimbra, como nos seminários de Olinda e do Rio de Janeiro (1739), poderiam ter sido profundas as ciências eclesiásticas. Houve, aliás, nas fileiras do clero, homens ilustres.
 Na pacata Santa Catarina começam já a aparecer alguns sacerdotes de melhor  preparo intelectual.


 
 
632. Do ponto de vista liberal,  melhoram muito os conceitos da Constituição do Império, de 1824. Apesar de alguns princípios liberais, retém o poder majestático do imperador sobre a Igreja. Ainda que o Papa oferecesse privilégios , com a Bula Praeclarae Portugalliae, a Bula foi declarada inútil pela Câmara e Senado, em vista do poder majestático incluir tais prerrogativas.
 Mudam bastante os conceitos durante a Regência. O Regente, Pe. Diogo Feijó (1835-1937) agitou a questão do celibato do clero, tendo proposto sua anulação no Brasil.
 O governo brasileiro procurou interpor-se entre os religiosos e seus Superiores Gerais de Roma. Não o aceitando o Papa, proibiu-se às Ordens receberem noviços. A proibição deixou, contudo, de vigorar, depois de algum tempo. Estas e outras questões tumultuaram as relações entre o Império e a Igreja, contribuindo para o declínio do vigor desta no curso do século 19 no Brasil, mesmo nas províncias.

 
 
 
633. Quanto à Família real e logo depois à Imperial suas intenções para com a Igreja no País, -  deve-se admitir que foram boas, apesar de toda a extravagância do obsoleto regime do padroado. Sem poderes absolutos, mas apenas moderadores, - num regime que era parlamentarista, - não se podem imputar a Dom Pedro II (1840- 1889) a responsabilidade total de atos agressivos, uns, e omissos, outros, que têm havido na sua longa gestão dos negócios eclesiásticos, já que estavam na atribuições do governo.
 O mesmo se diga de alguns governadores da Capitania e Província de Santa Catarina. Com dedicação se ocupam dos interesses das igrejas matrizes. Em meados do século 19, cuidam mesmo de formar um bom clero.
 O Pe. Joaquim Gomes de Oliveira Paiva, depois Arcipreste, consta neste clero, estudando sob os auspício da Província. Mas, note-se, que Jerônimo Coelho, fundador da maçonaria catarinense, era examinador do mesmo, em nome da Província. De outra parte, o esclarecido Padre Paiva, se converterá em adversário de Jerônimo Coelho.

 

 

§ 2. Da paróquia de N. Sra. do Desterro no curso da Capitania.
91sc0635.
 
 

 

 636. Em decorrência da criação da Capitania (1738), paulatinamente foi prevalecendo em importância a paróquia de Desterro sobre suas vizinhas de Laguna e São Francisco.
 Criadas em torno as freguesias dos núcleos açorianos, ainda que muito frágeis, converteu-se, por mais uma razão a Capital em centro de convergência micro- regional.
 O Brigadeiro Silva Pais, primeiro Governador da Capitania, e que o foi de 1739 a 1749, já tomou iniciativas no plano religioso, no elenco de suas determinações administrativas, consta o relato de 1748 ao Rei:
 "Enquanto aos índios, repetidas vezes fiz presente a V. Majestade, o quanto seria conveniente se mandasse vir para a Ilha [de Santa Catarina] a aldeia de Itanhaém na Vila da Conceição, da Capitania de São Paulo, que está governada por um Capucho, não tendo naquele sítio em que se acham terras de lavor, passando grandes misérias, podendo aldear-se na Ilha e dela tirarem-se os índios que forem necessários para o serviço das fortalezas, e das obras.
 Desde o ano de 1742 comecei a pedir capelães para as 3 fortalezas da barra [Norte] daquela Ilha, que todas já têm as suas ermidas... e apontei para facilitar mais esta providência devia haver na mesma Ilha um Hospício de 6 Capuchos, para deles aos meses saírem para cada fortaleza um a servir de capelão" (Carta de José da Silva Paes, de 15-1-1748, em Eduardo de Castro e Almeida, Inventário dos documentos relativos ao Brasil existentes no Arquivo de Marinha e Ultramar, Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, 1936. V.8).
 
 Construiu-se o Hospício (vd 641), havendo exercido variadas funções, e atuaram alguns capelães nas fortalezas.
 Todavia não há notícias sobre se vieram os índios de Itanhaém, ainda que se tenha conhecimento de índios então na Ilha de Santa Catarina. Dentre eles, um foi posto a serviço dos jesuítas, quando estes chegavam em março de 1748.
  Num mapa estatístico de 1750 o Governador seguinte, Manoel Escudeiro, diz haver, como população 30 índios.

 

 À começar em 1749 a freguesia de N. Sra. do Desterro começou a ter Vigário Coadjutor. O primeiro foi Pe. José Dias dos Santos. O número de ministros, já estava reforçado desde 1745, com o Comissário Franciscano. Em 1749 chegavam dois jesuítas para atender aos imigrantes açorianos; de fato, porém, se encontram instalados no centro urbano, à praça da Matriz, no então chamado "Hospício", com o sentido equivalente à hospedaria.

 
 

 
I - Relação de Vigários de Desterro e de seus Coadjutores.
91sc0636
 
 
 
 
 637. Ao estabelecer-se a Capitania em 11 de agosto de 1738, a paróquia de Desterro já estava com o sexto vigário, na pessoa do Pe. Francisco Pereira Cardoso; vigário encomendado, paroquiou do mês de abril de 1736 até agosto de 1742 (Cf. Livro do Tombo, fl.4)
 Continuemos a relação, mantendo o número de ordem:
 7) Pe. Manoel de Araújo Miranda, vigário de setembro de 1742 a agosto de 1746.

 8) Pe. Francisco Gonçalves Pereira, no cargo pela 2 vez, de agosto de 1746 até março de 1748.
 
 9) Pe. João Gonçalves Chaves, do mês de abril de 1748 a março de 1749. Principia a migração açoriana. Não no cargo ao chegarem os dois jesuítas, em 18 de março, padre Francisco de Faria e Bento Nogueira, que não encontram pároco em Desterro.

 10) Pe. José Dias dos Santos, de março de 1749 a fevereiro de 1751, inicialmente como coadjutor, depois como vigário. Desta data em diante sempre há vigário coadjutor.

11) Pe. Domingos Pereira Telles, foi também vigários da vara, de fevereiro de 1751 até janeiro de 1752. Foi visitador Apostólico em 1751. É coadjutor Pe. Francisco Coelho, por provisão de 1751. Será vigário da Freguesia de N. Sra. da Conceição de Lagoa (vd ).

12) Pe. Domingues José da Silva , outro coadjutor, que provido vigário em 1752 governa a paróquia até agosto.

13) Pe. Dr. Inácio José Galvão, de setembro de 1752 até junho de 1755. Ilustrado sacerdote. Natural do Rio de Janeiro. Deu-se então início às obras da nova Matriz. Em 1754 era provido o coadjutor Pe. Luiz Magalhães de Queiroz.

14) Pe. Luiz Magalhães de Queiroz, em julho passa a vigário encomendado, regendo a paróquia até novembro de 1757.

15) Pe. Antônio Correia de Mello, vigário de dezembro de 1757 até junho de 1759.

 
 
618. Após a expulsão dos jesuítas, ocorrem os seguintes vigários da freguesia de N. Sra. do Desterro:
 16) Pe. José Antônio Borges de Castro vigário da paróquia e da comarca de N. Sra. Do Desterro de agosto de 1759 até abril 1761. O Pe. Francisco de Lima Pinto é provindo coadjutor em 1759.
 
17) Pe. Dr. José Inácio Galvão, paroquia pela 2 vez, a começar de abril de 1761 até fevereiro de 1777 (vd 638).
Neste meio tempo foram providos várias coadjuvantes: Pe. Manoel Cabral de Bittencourt, em 1762. O Pe. Marcelino de Sousa e Abreu, em 1764; Pe. Silvestre Machado de Teixeira, em 1766; Pe. Manuel de Sousa Meneses, em 1769; Pe. Manoel Coelho Furtado, em 1772; Pe. Manoel de Souza Meneses em 1773 (pela 2 vez).
 18) D. Francisco Manoel de Andrade, vigário geral dos exércitos espanhóis, apossou-se da Igreja do Desterro por ocasião da ocupação da Ilha, em fevereiro de 1777, pelas forças espanholas.
 
19) Retoma a administração Paroquial Pe. Dr. Ignácio José Galvão, em fins de julho de 1778, até 31 de janeiro de 1786, quando faleceu. Foi também vigário da comarca. Neste meio tempo eram coadjuvantes do Desterro Pe. Francisco Borges Corrêa Leme, em 1778, Pe. Manoel L. De Madre de Deus Teixeira, 1751; Pe. Agostinho Mendes dos Reis 1782; Pe. Francisco das Chagas, 1 coadj. Em 1785; Pe. Joaquim José Jaques Nicoz 2 coadj. Em 1785.
 
20. Pe. Francisco das Chagas (Fev. 1786 a 6 de janeiro de 1787).
 
21. Pe. Agostinho José Mendes dos Reis (6-1-1787 a 1790). Foi Visitador apostólico duas vezes (vd 604).
 Conhecem-se ainda os nomes dos coadjutores Pe. Domingues F. De S. Coutinho 2 coadj. Em 1791. Pe. Joaquim de Santana Campos 2 coadj. Em 1794, Pe. Francisco José ramos, 2 coadj. Em 1794, Pe Joaquim de Santana Campos 2, em 1794. Pe Tomás Francisco de Costa, em 1797 (Cf. Resembra Eclesiástica, 1914).
 22. Seguem os vigários do fim da Capitania, a que os dois últimos mencionados também pertencem, alternando-se eles mesmos com outros mais (vd ).
 
José Maria de Sá Rebelo, vigário da Freguesia de N. Sra. do Desterro, que batizou em 2-8-1813 aquele que depois seria D. Jacinto Vera, primeiro bispo de Montevidéu, o qual nascera de trânsito em águas do Atlântico "há trinta dias" (Livro 12 de batismo, fls. 185 v., paróquia N. Sra. do Desterro).
 Joaquim de Sta. Ana Campos. Era vigário quando ocorreu a visita pastoral de 1815, promovida pelo bispo do Rio de Janeiro.


 
 
638. Vigários mais destacados. Adverte-se imediatamente para o nome de Pe. Dr. José Inácio Galvão, titular da Matriz de Desterro, de 1761 a 1777. Mas diz a informação dada em 1765, ao governador nomeado T-te Francisco de Sousa Menezes:
 "Resta somente falar a Vossa Senhoria de alguns eclesiásticos das freguesias do governo.
 Principiarei pelo Vigário da Igreja Matriz, que é também da Vara e da Justiça. É um simples sacerdote e bom clérigo. Melhor clérigo do que pároco.
 É muito mau Vigário da Vara e nada sabe de Direito. Faltam-lhe termos e palavras e é uma negação total para semelhante ministério.
 Todavia, debaixo dessa ignorância e bondade, é desconfiadíssimo e sumamente vaidoso, parecendo que é o cardeal Nepote.
 Tem como coadjutor o Padre Manoel Cabral de Bittencourt, bom clérigo e que foi bom pároco" (Notícia de 1765).

 
 
639. Dois padres jesuítas em Desterro, antes do Colégio. Quando em 1748 o início da imigração açoriana veio reforçar o povoamento de Desterro e criar uma série de povoados na Ilha e no Continente fronteiriço, também os jesuítas voltaram a estar presentes.
 Os primeiros dois vieram como missionários, e que seriam depois substituídos pelos que instalariam o Colégio (vd 705).
 Na provisão Régia de 9 de agosto de 1747, em que se regulamentava processamento da imigração açoriana, vem prevista pelo próprio rei uma função para os sacerdotes jesuítas:
 "ao provincial da Companhia de Jesus mandei escrever a carta que vai inclusa, para que envie àquelas terras dois missionários conforme ficareis instruídos com cópia anexa".
 A missão foi cumprida, tendo chegado para este fim a Desterro em 18 de março de 1748, os padres Franciscanos de Faria e Bento Nogueira.
 Pregaram por um ano na Matriz, em uma igreja de Lagoa e nas fortalezas.
 Partiram temporariamente a 4 de abril de 1749 para o Rio Grande do Sul, estando de volta em junho de 1751, desta vez para atender ao colégio ao qual El Rei criara pela provisão de 6 de Dezembro de 1750 para Desterro.


 
 
640. Do primeiro ano de atividades, restou-nos uma narrativa em italiano, que Pe. Serafim Leite supõe feita provavelmente pelo próprio P. Bento Nogueira, que em 1767 ainda vivia em Roma (Bras. 10 (2), 451 - 451 v).
 A narrativa do Pe. Bento Nogueira tem valor em si mesma pelos episódios narrados, e ainda orienta ainda complementa a história de outros fatos destes prístinos anos da Capitania.
 Por ela se depreende também que a ida ao Rio Grande do Sul estava incluída na missão originária dos dois jesuítas, pois na crônica dos mesmos se diz devessem cuidar da Costa até o Serro de São Miguel, na fronteira com o Uruguai, e mesmo aldear os índios que ainda houvesse.
 
 "Sendo servida a Majestade D. João V, de felicíssima memória, mandar algumas famílias das Ilhas dos Açores para ajudar a povoar a Ilha de Santa Catarina e o Rio Grande de São Pedro, foi também servida Sua Majestade ordenar que o Provincial do Brasil, que então era o Pe. Simão Marques, fizesse eleição de dois Religiosos aptos em instruir e em doutrinar os habitantes daquelas novas colônias, e ao mesmo tempo fazer aldeias de todos aqueles homens selvagens que se encontrassem;
 assinando aos dois Padres por distrito de suas missões todo o espaço de terras que medeia entre o Rio Francisco ao Norte e um lugar, a que chamam Cêrro de São Miguel, e dando a cada um, para seu sustento, 40 escudos por ano, além de outra quantidade, que se lhes consignou de 80 escudos, para a despesa de sua viagem.
 Os nomeados para esta empresa foram os padres Francisco de Faria e Bento de Nogueira, que partiram do Rio de Janeiro aos 2 de Março de 1748, e aos 18 do mesmo mês lançaram ferro junto da Ilha de Anhatomirim, que era a fortaleza onde se revezavam os abastecimentos por ser a ordinária residência do Governador, que era o senhor José da Silva Pais; e como este então se achava fora da Fortaleza, por haver ido fundar a nova Vila da Lagoa (vd 666), dentro da mesma Ilha, os Padres tomaram terra na Vila chamada do Desterro, onde foram muito bem recebidos pelo governador Paes, logo que aqui voltou da sua viagem, ordenando que as casas que primeiro pertenceram ao tesoureiro antigo e agora estavam em poder da Coroa, se aplicassem aos Padres para sua habitação.
 Não sabia então o Governador o estado em que se encontravam, e por isso não deixaram os padres de padecer alguns incômodos, sendo-lhes necessário durante algumas semanas valer-se do chão para se sentarem e deitar;
 chegando porém ao governador a notícia das que os Padres padeciam, mandou logo, fazer algumas divisões nas casas, à maneira de quartos para que pudessem mais comodamente viver, ordenando além disso que cada dia se desse aos Padres uma não pequena porção de peixe e cada sábado 21 libras de carne, azeite e toda a farinha de que necessitassem para seu sustento, que era a da melhor, além de um escravo, que para servi-los haviam trazido do Rio de Janeiro, e lhes assinou um índio, aos quais ordenou se lhes desse dez dias a mesma farinha, que costumava dar-se aos soldados.
 O que tudo se executou não somente no tempo do dito governador Paes, mais ainda no governo do Tenente-Coronel Manuel Escudeiro Ferreira de Souza.
Logo que os padres tomaram terra, o governador lhes fez saber que estando a perder-se quase todo o segundo transporte de famílias, que das Ilhas Açores vinham a povoar esta de Santa Catarina, por estar a maior parte atingida de escorbuto, que o grave incômodo da navegação lhes causou, desejava que os Padres tomassem a seu cuidado aquela pobre gente, assim no espiritual como no temporal, não faltando ele da sua parte em dar-lhes servidores e dinheiro para toda e qualquer despesa, que se fizesse.
 Além disso lhes deu a entender que a palavra de Deus naquela terra já há muito tempo se não ouvia por falta de obreiros evangélicos. E assim queria que fizessem ao menos quatro-pregações na semana Santa, para a qual faltavam só 15 dias. Tudo se fez não obstante estavam os Padres ainda naquele tempo com os incômodos de que acima falamos, e assistirem além disso aos doentes no Hospital Público.
 Passada a Dominga in Albis, começaram a missão nesta vila do Desterro, e depois, por ordem do governador, a fizeram em toda as fortalezas e ouviram as confissões de toda gente, que então queria cumprir o preceito Pascal.
 No mês de outubro seguinte, partiram em missão para a vila da Lagoa. E concluída ela, logo voltaram para a sua ordinária residência.
 E sendo já governador de Santa Catarina o tenente Coronel Manuel Escudeiro Ferreira de Souza, a pedido do governador do Rio Grande de São Pedro, o Coronel Diogo Osório Cardoso, participaram os dois Padres a princípio de Abril de 1749 a fazer a missão naquela Praça. " (documento publicado por Serafim Leite in História da Companhia de Jesus no Brasil, vol. 6, 1. V. c. 2, § 4 pag. 471, Rio de J., 1945).

 
 
 641. A primeira atividade dos Padres, como informa o autor, fora promover as pregações quaresmais e da Semana Santa de 1748.
 Uma semana após a páscoa, tiveram início as missões populares em Desterro.
Por ordem do governador elas foram a seguir pregadas também nas fortalezas, ainda em outubro de 1749 no primeiro povoado da Lagoa, fundado naquele mesmo ano.
 Para compreensão total dos fatos, atenda-se que, enquanto missionavam os jesuítas, um vigário exercia na igreja de Desterro, suas funções, Pe. Francisco Gonçalves Pereira, de abril de 1746 a março de 1748; a seguir, Pe. João Gonçalves Chaves , de abril de 1748 a março de 1749; depois, Pe. José Dias dos Santos, de março de de 1749 a fevereiro de 1751.
 A começar de então recebe a Matriz um coadjutor. Não demora a haver vigário nos núcleos açorianos de Lagoa e São Miguel; com eles ocorrem ainda os dois jesuítas. Desta sorte, pois se estabelece, subitamente, um clero relativamente numerosos na capital e arredores, para uma população que talvez não alcançasse a cifra de 5.000 habitantes.

 
 
 
642. Quanto a afirmação do governador de que a de Deus naquela terra já há muito tempo não se ouvia por falta de obreiros, pode ser entendido como informação insegura do cronista, que generalizou uma curta vacância ocorrida em 1748, entre a saída de um vigário e a chegada de outro.
 Pela sequência das nomeações de vigários, que se obtém do livro de Tombo de Desterro, vê-se que poderia ter ocorrido uma vacância no mês de Março 1748, exatamente quando chegavam os padres jesuítas, pois o Pe. Francisco Pereira Cardoso deixa em 1748 e o Pe. João Gonçalves Chagas atua a começar de abril de 1748. Entende-se então ainda porque o governador faz aos padres jesuítas pregar a semana Santa na Matriz.
 A Ânua Jesuítica refere-se também ao fato e à situação religiosa da Ilha de Santa Catarina. Serafim Leite resumiu-a, neste particular, assim:
  "Os moradores da Ilha já há muito não tinham pároco, e por tanto não era lisonjeiro o seu conhecimento e prática das virtudes cristãs; juntaram-se-lhes depois de alguns soldados presidiários, entre os quais grassavam vícios impunes; por fim, chegaram as famílias açorianas, gente cujos bons costumes era preciso apoiar contra o mau exemplo dos soldados. E foi este, precisamente um dos fins da ida dos Padres" (Bras. 10 (2) 429; (Hist. da Comp. de Jesus, 6, pag, 470 nota 1).
 É claro que também Serafim Leite podia ter desconhecido pormenores, supondo não haver pároco e dali caminhando para especulações.
 A ausência dos Jesuítas provoca pedidos de novos clérigos, por parte da Câmara da Vila de Desterro, ao Bispo Diocesano, então Frei Antônio de Desterro. Explica-se este, declarando não dispor de meios.


 
 
643. Sobre as irmandades e a vida paroquial em geral. Foi criada a Irmandade do Espírito Santo em 1773 (vd 610). Havendo sido a primeira deste título a ser constituí e dado caráter principal da Igreja de N. Sra. do Desterro, sua irmandade do Espírito Santo terá inspirado às demais da região. Promovia a festa do Espírito Santo na praça dianteira, até que na década de 1890 emigrou para a Praça, depois denominada Getúlio Vargas.
 Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, em seu Livro de Visita, quando operou segunda vez como Visitador Apostólico, por nomeação de 9 de novembro de 1811, deixou o seguinte informe sobre a freguesia de N. Sra. do Desterro:
"Tem nove centos e cincoenta e quatro fogos, com cinco mil e setenta e quatro almas de Sacramentos.
Há na mesma Matriz as Irmandades do Santíssimo Sacramento. A de São Miguel e Almas, a do Divino Espírito Santo. A Ordem Terceira de São Francisco. A do Sr. Bom Jesus na sua Capela, as quais sendo em outro tempo eretas por Jurisdição do Senhor Ordinário, hoje são da jurisdição Régia".
 Mas somente em 16 de agosto de 1815 era aprovado o compromisso da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Igreja Matriz de N. Sra. do Desterro, quando da presença do bispo do Rio de Janeiro, D. José Caetano da Silva Coutinho, em visita pastoral.
Na mesma oportunidade aprovava os compromissos nas capelas filiais, a saber: Irmandade do Senhor dos Passos da Igreja do Menino-Deus, e Irmandade de Nossa Senhora do Rosário, da igreja do mesmo nome.
 
 
 
644. Casa paroquial de Desterro. Terão os vigários da antiga Desterro residido no Largo do Palácio (hoje Praça 15 de Novembro) ou em ruas de acesso.
 A atual rua Fernando Machado, que dá acesso pelo lado leste, por algum tempo se chamava Rua do Vigário, por haverem nela residido por algum tempo.
A residência inicial terá sido modesta.
 O Hospício, situado entre a Câmara Municipal e o (atual) Correio, onde operavam os jesuítas de 1749 a 1759, quando da expulsão, foi oferecido para ser a residência paroquial.
 
"Se o pároco tem dele necessidade para a sua residência e do seu coadjutor, que lhe pode declarar que o mesmo senhor (Sua Majestade) faz mercê dele à Igreja Matriz".
 
A determinação foi executada apenas em 1794, quando no livro do Tombo de Desterro se vê uma cópia do ato de entrega.
 Por 50 anos serviu o prédio para o fim a que destinado. Entrando a declinar, pedia, em ofício de 4 de dezembro de 1854, o vigário Pe. Joaquim Gomes de Oliveira Paiva solicitava um auxílio do governo para a restauração do prédio.
Não tendo sido atendido, o velho edifício desapareceu. Prova este fato também a pobreza da comunidade para fazer frente aos seus próprios interesses, ficando sempre a depender do poder público.


 
 
645. Por longos decênios residiram os vigários da Matriz de N. Sra. Do Desterro à rua Vidal Ramos, então no n-o 24, em casa relativamente espaçosa e com pequeno salão para reuniões. Chamou-se também Rua 28 de Setembro, durante a primeira República. Na voz popular era a Rua do Padre Topp, referência ao vigário de alta estima e mérito.
 Fez-se venda desta casa em 1941, vindo mais tarde a ser construído no mesmo local o alto edifício em que se instalou Móveis Linear. Com os recursos da venda da casa paroquial à rua Vidal Ramos foi construída a dependência colada aos fundos da catedral, onde passou a residir o vigário. Antes havia ali pequena casa recuada por sobre um barranco, resto do local do antigo cemitério.
 Deu-se esta inversão de bens ao tempo em que o arcebispo era D. Joaquim Domingues de Oliveira, cura da catedral mons. Harry Bauer, os quais foram criticados como tendo feito mau negócio ao se desfazerem da antiga propriedade da casa paroquial.


 
 
646. A nova Igreja Matriz de N. Sra. do Desterro. Para construir por conta do erário da Capitania uma nova igreja matriz fora necessário que o Brigadeiro Silva Paes fizesse o pedido ao Rei de Portugal, havendo ocorrido o cruzamento de várias correspondências. Depois de obtida a permissão, duraram ainda as obras mais de 20 anos.
 Neste sentido o Governador remeteu à Metrópole carta datada de 4 de agosto de 1547, acompanhada de plantas da construção. Indicou também que a obra iria custar cerca de 8 mil cruzados, sem contar a pedra e cal.
 
Provisão de 19 de janeiro de 1748, autorizando a construção da nova Matriz:
 "Dom João etc., faço saber a vós, Brigadeiro José da Silva Paes, que se examinou a vossa carta de 25 de setembro do ano passado (1747) dizendo que, como nessa Ilha de Santa Catarina há apenas a Igreja Matriz, feita pelo seu primeiro povoador, de pedra e barro, com muito pouca capacidade e simetria, tem-se preciso acudi-la nos seus reparos. Para não ruir de uma vez, vindes a minha real presença para que se faça outra, com tamanho compatível de toda população nos seus dias festivos e à celebração dos ofícios divinos.
 Querem todos os moradores que se conceda essa graça, pois já pagam seus dízimos no triano de um conto e setecentos mil reis.
Ordeno-vos, se receberdes o auxilio de todos e se a Câmara concorrer com contribuição de pedra e cal, representando as maiores despesas, que seja erguida com economia, para que essa obra tenha custo em vinte mil cruzados, mais ou menos.
 Seja ouvido sobre essa matéria o Provedor da minha Fazenda Real.
Devo dizer-vos que, tendo em vista as novas providências às povoações que se estabelecem em nossa Ilha de Santa Catarina, deveis me informar, com o vosso parecer em que local será mais conveniente para se formar a Vila, de modo que se possa aumentá-la com o comércio e o porto de mar para o desembarque.
Por isso, deveis informar onde será o local mais próprio para se fazer a construção da Igreja Matriz e, por enquanto, podeis ir executando as ordens que seguem a essa localidade".
 
 A Provisão que manda construir a nova Igreja Matriz é do Conselho Ultramarino de 17 de julho de 1748. Em 1769 ainda não estavam concluídas as obras.
 Atribui-se a planta da nova Matriz ao próprio Silva Paes; assim o afirma a Notícia de 1765, quando a obra ainda não estava concluída. Encontra-se uma cópia do risco na secção latino-americana da Biblioteca do Congresso, em Washington, Estados Unidos da América. Esta cópia foi tomada de um original do Arquivo da Marinha e Ultramarino de Lisboa.
 Uma cópia fotostática foi publicada a primeira vez em Florianópolis por Osvaldo Cabral, que a trouxe em 1943 de Washington e a divulgou pelo seu livro A venerável Ordem Terceira, 1945. Consiste em uma fachada dianteira, outra lateral e uma planta baixa.

 
 
647. Demolida a pequena ermida de N. Sra. do Desterro, passaram a ser conduzidas  para o local as pedras brutas com que então se construíam as grossas paredes.
 Enquanto demorou a construção a capela do Hospício, situado no outro lado do largo do Palácio, serviu de Matriz.
 A praça era mais acidentada do que a atual, havendo sido submetida a um aplainamento.
 As obras caminharam com protelações, como já se adiantou. Iniciadas pelo Brigadeiro Silva Pais, depois se alongaram sob os governos de Manoel Escudeiro, José de Melo Manoel, Francisco Antônio Cardoso de Menezes e Sousa.
 Antes que este chegasse em 1765, foi-lhe encaminhado o informe de 1765:
"Há na Ilha 3 freguesias: a da Matriz, com a invocação de Nossa Senhora do Desterro, possui um templo nobre, erigido na própria vila e que o governador atual não quis acabar e nem aperfeiçoar, pois está necessitando apenas de um mês de trabalho. Isto por mera oposição ao governador a quem sucedeu, que o erigiu cumprindo expressas ordens de sua Majestade.
 As plantas do templo foram feitas pelo General de Batalha José da Silva Paes. Ao mesmo tempo que se está oficiando, realiza-se o culto a Deus Nosso Senhor e o sagrado ministério numa casa das mais indignas que já se viu, cujo sacrilégio e escândalo é tremendo [referência ao Hospício, deixado pelos jesuítas em 1759].
 Quando Vossa Senhoria chegar, testemunhará o escândalo e espero que, por suma cristandade e por piedade, Vossa Senhoria repare logo e mande acabar a igreja, por decência, honra e glória a Deus, que não deixará de pagar, abençoando as suas ações para que todas sejam acertadas e no serviço de Sua Majestade" (Notícia de 1765 ).
 
 648. A capela lateral, oposta à do Santíssimo, foi construída pela Ordem Terceira, todavia ambas estão previstas na planta inicial. Pode-se mesmo aventar que Irmandade houvesse sido criada por sugestão da existência de uma , e que o mesmo acontecera em relação à Ordem Terceira, a qual teria logo assumido o compromisso de construí-la.
 Em 1815 a Ordem Terceira se retirou para Igreja Própria, a de São Francisco, também especialmente construída (vd).
 O estilo arquitetônico da nova Matriz de N. Sra. do Desterro é de transição do colonial barroco para o neo-clássico, então em formação na Europa.
Entretanto, os altares continuam pronunciadamente coloniais, isto é, de estilo barroco, mas singelo.

 
649. De futuro, em 1922, o edifício da Igreja Matriz de N. Sra. do Desterro sofrerá duas notáveis alterações, numa tentativa para satisfazer às condições de Igreja Catedral. A planta da reforma é do arquiteto Dr. Seuber, do Rio Grande do Sul.
 Com vistas a criar as naves laterais, foram abertas vastamente as maciças paredes, situando em uma o altar de São José, em outra o de Santa Ana.
 Os espaços laterais externos davam anteriormente lugar às sepulturas do antigo cemitério, que contornava a velha Matriz de N. Sra. do Desterro.
 As baixas antigas torres laterais, que emergem das quinas da nave central, foram elevadas, e ligadas entre si no alto. Deu o arco de ligação espaço para sustentar o sino maior do carrilhão, que se adquiriu da Alemanha, por ocasião da reforma.
 A face externa do referido arco deu ainda lugar para ostentar um grande relógio.
 
 Quanto ao estilo, o modesto primitivo barroco de transição para o neoclássico passou a ser uma transição para um neo clássico mais puro e acadêmico. Em vista de sua grandeza, o efeito atual certamente supera o do estilo antigo, ainda que tenha desgostado aos nostálgicos.
 O Governo do Estado, então em mãos de Hercílio Luz, se empenhou nas obras de reforma da Catedral, bem como de sua escadaria.
 Com idêntico espírito neoclássico ou neoacadêmico, o mesmo governador Hercílio Luz houvera, duas décadas antes, reformado o Palácio do Governo (dito depois Palácio Cruz e Sousa).


 
 
650. A Capela do Menino Deus, e que hoje marca o centro do conjunto do Hospital de Caridade, na encosta de um monte chamado então Bela Vista, foi construída, - iniciadas as obras em 1762, - com os recursos esmolados por Joana de Gusmão.
 Veio depois a ser embelezada pela torre dianteira e pelos edifícios hospitalares à direita e à esquerda, realizados em diferentes épocas.
 Filha de um Cirugião-mor, nascera Joana de Gusmão em Santos, 1688, e era irmã do Pe. Bartolomeu Lourenço de Gusmão, inventor da máquina aerostática, e de Alexandre de Gusmão, Secretário Particular de D. João V.
 Casada primeiramente com um rico lavrador, ao viuvar, revestiu-se Joana do hábito da Ordem Terceira da Penitência. Saiu então a peregrinar, servindo a Deus e praticando a caridade. O hábito lhe deu o apelido de beata. Em uma caixinha, pendurada ao peito, levava uma pequena imagem vestida do Menino-Deus, vestida de pano, e que ainda hoje se conserva. Em 1748 encontrava-se em Paranaguá.
 Consta sua presença em Santa Catarina em 1756, quando se inscreveu na Ordem Terceira, que então ainda funcionava na Igreja de N. Sra. do Desterro.  Instalou-se inicialmente em Lagoa da Conceição, passando depois para a Vila. Faleceu aos 92 anos de idade, em 16 de novembro de 1780.
 A construção da capela do Menino-Deus passou a ser efetivada com Provisão do Bispo do Rio de Janeiro, com data de 13 de maio de 1760. Uma Provisão anterior, do tempo em que residia em Lagoa, perdeu-se.
 Mudava a nova Provisão o local da construção para o centro urbano. Possuía a benemérita a soma suficiente de 200.000 réis, que dizia esmolada até o Rio Grande do Sul e a Colônia de Sacramento no Uruguai.
 Não possuindo o terreno, ajustou construir a Igreja em local pertencente à Ordem Terceira, para a qual doou a soma. A demora, por parte da Ordem, em obter licença do bispado do Rio de Janeiro, dera tempo a um outro plano, nascido de um terreno no Morro da Boa Vista, de dez braças em quadro (444 metros quadrados), doação de André Vieira da Rosa e sua mulher Ana de Sousa Furtado.
 Feito o distrato com a Ordem Terceira em 25 de abril de 1762, já possuindo agora 250.000 réis, deu inicio às obras em 2 de maio imediato na encosta do morro da Boa Vista.
 Fora inicialmente construída primeiramente a capela-mor, dispondo-se assim de lugar para a imagem do Menino-Deus, havendo sido logo prosseguidas as obras com vistas ao corpo da Igreja.


 
 
651. Iniciado o pequenino empreendimento de Joana de Gusmão em 1762, ensejou a criação da Irmandade do Senhor dos Passos em 1764.
 A capela lateral, à maneira de braço de cruzeiro, foi construída pela Irmandade do Senhor dos Passos, com Provisão de 3 de julho de 1767, emitida pelo bispo do Rio de Janeiro. Concluiu-se dita capela do Senhor dos Passos em 1769.
 Ao tempo, a primeira capela ainda não estava concluída, porém no ponto suficiente de já poder possuir o altar e a imagem do Menino-Deus. Ingressou também Beata Joana na referida Irmandade do Sr. dos Passos.
 Junto ao templo, construiu Joana ainda sua pequena moradia, onde dava exemplos de virtude e educava meninas. Ao iniciar as obras da capela em 1762, já tinha ela a idade de 76 anos.
 Teve Joana de Gusmão duas companheiras, as beatas Jacinta Clara da Vitória e Josefa Maria da Vitória, que lhe sobreviveram. Falecida Joana em 1780, passaram elas a cuidar da capela. Falecidas também estas, foi feito o inventário da capela, e tudo passou à Irmandade do Senhor dos Passos, assim se encontrando ainda hoje.
 Finalmente em 1787 se iniciaram as obras do primeiro edifício do Hospital de Caridade, por iniciativa da Irmandade do Senhor dos Passos.
 Neste trabalho se destacou o então jovem Joaquim Francisco do Livramento, conhecido também por Irmão Joaquim.  Nasceu nesta vila em 20-3-1761, filho de Tomás Francisco da Costa e de Mariana Jacinta da Vitória, havendo adotado um novo nome por devoção.

 
 

 
§ 3o. Paróquia (freguesia)
de N. Sra. das Graças, de São Francisco,
durante a Capitania. 91sc0652.
 
 
 
 653. Povoada a Ilha a partir de 1642 (vd 205), fora imediatamente criada a freguesia em data não bem conhecida, mas que se supõe existente em 18-12-1656 (vd 210).
 Os Visitadores apostólicos, ao se referirem em seus Relatórios ao ano 1670, se fundam em que não havia documentos mais antigos de assentamentos de batizados e outros atos paroquiais.
 No curso da Capitania teve a freguesia de São Francisco uma vida religiosa mais ou menos regular.
 A Ordem Terceira de São Francisco fora organizada em 1751 (vd 214) na capela de São José, em cujas dependências vivia o Pe. Comissário. E assim foi até 1799, quando se retirou o último comissário residente, talvez por não dispor a ordem de pessoal suficiente para manter este serviço.

 
 
654.  A paróquia, durante o tempo da Capitania, não parece ter sido sempre provisionada. Houve inclusive frades franciscanos que, sendo comissários, também serviram como vigários da freguesia (vd 212).
Informação de 1765 ao Governador eleito T-te Meneses, diz:
"Na Laguna está o padre Caetano Dias, que foi da Companhia de Jesus, e na Vila de Nossa Senhora da Graça, um clérigo muito petulante" (Notícia de 1765 ).
 O Visitador apostólico, Pe. Bento Cortes de Toledo, nomeado em em 5 de Novembro de 1798, mo seu Relatório, disse da Freguesia de N. Sra. das Graças:
 "Ereta em 1670, tem 890 fogos, com 3731 almas de confissão e comunhão, tem a Irmandade do SS. Sacramento. Unida à Padroeira, tem uma capela filial. Dentro da Vila de São José, a qual está situada em um monte, tem mais uma outra de São João Batista na Armação de Itapocorói distante da Vila 13 léguas" (Arquivo da Arquidiocese do RJ).
 Quase sessenta anos depois, o Visitador apostólico, Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, quando de sua segunda nomeação em 9 de novembro de 1911, diz em seu Livro de visita, sobre São Francisco:
 "Freguesia ereta no ano 1670, segundo os monumentos, que se encontram do Livro dos Batizados mais antigos.
 Tem a Irmandade do Santíssimo Sacramento, e a Padroeira unidas; compromisso confirmado por Autoridade Régia.
 Tem mil e quatrocentos fogos; com cinco mil trezentos e sete almas de sacramentos".
 
 Nos apontamentos do bispo D. José Coutinho, quando de sua visita pastoral de 1815, diz:
 
"N. Sra. da Graça do Rio de São Francisco, Vila, vigário Bento José de Sá Freire".

 

 Esteve o bispo também na Armação de Itapocorói, numa ponta que pertence atualmente ao município de Penha), onde fez o termo de visita em 30 de julho de 1815. Passou então também Provisão, com data de 1-o de agosto de 1815, para "ereção e edificação da nova capela no Distrito de Itapocorói".
 Na mesma data ainda passou provisão de capelão cura da mesma, ao Pe.  José Antônio Martins.

 
 

 
§ 4o. Freguesia de Sto. Antônio, de Laguna,
durante a Capitania. 091sc0656.
 
 
 
 657. Povoada a partir de 1684 (vd 421) e criada sua freguesia, conforme se admite, em 1697 (vd 430), teve uma vida paroquial mais ou menos estável, sobretudo ao tempo da capitania, de quando sua lista de vigários se manteve bem conhecida.
 A igreja Matriz teve seu corpo principal construído antes do tempo da Capitania, e concluído em 1735 (vd 429). Mas teve de construir nova capela mor, iniciando estas obras em 1798, para substituir a anterior, que ameaçava ruir.
 Também a capela lateral do Santíssimo, fora iniciada em 1787. Todo o conjunto continuou sem torres, as quais seriam construídas apenas em 1894, ao tempo da República.
 Diante deste quadro de Igreja Matriz sem torres, Paulo José Miguel de Brito haveria de escrever sem entusiasmo:
 "Esta Vila... é suficientemente populosa, tem poucas ruas, uma praça com um chafariz, casa da Câmara, e Igreja Matriz sofrível, dedicada a Santo Antônio dos Anjos" (Memória política de SC, P.2, art.2, escrita em 1816).
 A Irmandade do Santíssimo Sacramento data de 1753.
 Informação de 1765 diz ao Governador nomeado para a Capitania:
 "Na Laguna está o padre Caetano Dias, que foi da Companhia de Jesus" (Notícia de 1765).
 No Relatório do Visitador Apostólico Pe. Bento Cortes de Toledo, nomeado em 5 de novembro de 1798:
 "Foi ereta em 1725. Fogos, 642, com 2880 pessoas de confissão e comunhão. As Irmandades são do Santíssimo, do Padroeiro, São Miguel e Almas".
 Compare-se com o texto sobre Laguna, do Livro da visita, de Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, de quando em 9 de novembro de 1811 fora nomeado pela segunda vez Visitador apostólico:
 "Foi ereta, há monumentos [documentos] do ano de 1725. Tem 804 fogos, com 3740 pessoas de sacramentos. Tem Irmandade do Santíssimo Sacramento, e padroeiro unidas, ereta com autoridade Regia e compromisso aprovado. A Irmandade de N. Sra. do Rosário dos Pretos... Irmandade de São Miguel e almas... Irmandade de N. Sra. das Dores..." (Arquivo da Arquidiocese do RJ).
 
 Quando da visita em 1815 do bispo do Rio de Janeiro, D. José Caetano da Silva Coutinho, este confirmou a 1-o de setembro daquele ano o compromisso da Irmandade das Dores; no dia seguinte, 2 de setembro, os compromissos das Irmandades do Divino Espírito Santo e do Santíssimo Sacramento.

 
 
658. Tem-se que a freguesia de N. Sra. do Desterro se tenha desdobrado da de Laguna, em 1714.
 No curso da Capitania desdobraram-se de Laguna as freguesias de São Pedro do Rio Grande, 1736; Viamão, 1741; Vila Nova (1735?). Já no tempo da Província, Imaruí, 1835; Tubarão, 1836.

 


 

§ 5o. Paróquia (freguesia) de Lages,
durante a Capitania. 91sc0660
 
 
 
 661. Igreja. Ao mesmo tempo que o Governador de São Paulo, Morgado de Mateus, determinou em 1766, que se criasse no Planalto a Vila de Lages (vd ), cuidou logo também de estabelecer uma Igreja que fosse a Matriz de uma freguesia, a qual se chamou N. Sra. dos Prazeres, tudo havendo acontecido no curso da Capitania, já em meio curso de sua existência.
 Tudo foi tão previsto, que até os paramentos litúrgicos foram levados já naquela primeira viagem do fundador. Além disto, tudo estava de acordo com o figurino exigente da igreja eminentemente ritualista da época. Todavia os paramentos haviam sido tomados aos restos deixados pelos jesuítas expulsos poucos anos antes:
 ".... uma vestimenta de damasco vermelho com seus pertences, digo de damasco vermelho e branco, com seus pertences, uma alva de pano de linho liso, uma toalha de altar de pano de linho liso com renda estreita, uma dita lisa que serve de forro ao altar, uma guarda, um corporal, um amito, um frontal de Damasco branco, e vermelho, um purificador, três sanguineos, cujos ornamentos são todos velhos, e já com seus remendos, pertencentes ao Colégio dos Jesuítas da cidade de São Paulo".
 A primeira capela, imediatamente Igreja Matriz, já não subsiste. Foi substituída de futuro por um templo de estilo gótico germânico.

 
 

 662. Freguesia. Construída logo a primeira Igreja e já dotada de paramentos, não demorara a chegar dois frades franciscanos, Frei Manoel da Natividade e Frei Tomé Bueno, este destinado a ser o primeiro pároco.
 Tem-se a data de 30 de julho de 1767, como da instalação da Freguesia de N. Sra. dos Prazeres, sete meses após o início do povoado. Não muito depois se instalava o município (ou Termo) de Lages, em 22 de maio de 1771.

 
 

 
§ 6o. Freguesias dos núcleos açorianos e respectivas matrizes.
91sc0663.
 
 

 

  664. Introdução. Promovida a imigração intensiva de casais vindos dos Açores, cuidou imediatamente o Governo de amparar os núcleos em que eram estabelecidos, ainda que estes fossem em lugares nos quais já havia alguns poucos moradores e não ficassem muito distantes das igrejas matrizes de Desterro ou de Laguna.
Didaticamente o aspecto religioso da freguesia se trata em separado daqueles outros, os civis, os quais incluem também o povoamento.
 Considere-se que no Brasil colônia se criavam com facilidade as freguesias (vd), e geralmente não se teve o cuidado de guardar suas datas. Por isso com frequência toma a data do primeiro ato conhecido, - seja um registro de batizado, seja uma ata de casamento, -  como sendo a fundação da mesma freguesia. Também alguns dos Relatórios dos Visitadores Apostólicos se referem à datas, sem dizerem a fonte. As vezes não coerem com outras fontes e monumentos.
 Foram estabelecidas prontamente, para os núcleos da colonização açoriana, as freguesias:
-  na Ilha de Santa Catarina, com igrejas matrizes em Lagoa (vd 666) e Santo Antônio (vd 669);
-  no continente fronteiriço, com matrizes em São Miguel (vd 672), São José (vd 677), Enseada de Brito (vd 681).
- No então município de Laguna com matriz em Vila Nova (    ), junto de Imbituba.
 Nesta lista de freguesias estão apenas aquelas que foram criadas inicialmente sob o impulso das primeiras medidas em favor desta imigração.
Ainda que os açorianos trouxessem usos religiosos peculiares, aqui se adataram aos preexistentes, tomando sobretudo como modelo a a freguesia de N. Senhora do Desterro. As Irmandades desta freguesia passam a se erigir também nas freguesias.


 
 
665. O cuidado no atendimento religioso das populações açorianas, já principia desde os próprios termos da lei especial, - a Provisão de 9 de agosto de 1747 que regulamentava a migração, desde o recrutamento, transporte e localização. Transcrevermos alguns itens. Dispositivos sobre a viagem:
 "9. Dentro da Câmara das mulheres não entrará homem algum, salvo em caso de doença o cirurgião ou o capelão quando for preciso administrar os sacramentos a alguma enferma".
 "13. O capelão dirá missa ao mesmo em todos os dias santos e só nestes dias as mulheres subirão a ouvi-la, para o que se porão em ala nas passagens todos os guardas e então se abrirão às mulheres as portas, que depois delas saírem se tornarão a fechar; as mesmas mulheres ficarão no lugar mais vizinho ao altar".
 "15. O capitão ou Me. do navio terá cuidado de distribuir os melhores cômodos aos sacerdotes e às pessoas mais distintas" (Encontra-se este regulamento à fls. 9v. Do livro de Provisões, Alvarás e Cartas Régias. De 1715 e 1807, conforme o cita Jacinto de Matos em Colonização de SC.  pag.12, Fpolis 1917).
 Embora em cada lugar devesse levantar-se uma companhia de ordenanças, ordena-se que o "primeiro cuidado" a ter-se fosse que "todos os colonos sejam assistidos da parte espiritual e sacramentos, em cada um dos ditos lugares fará logo o brigadeiro levantar uma Igreja da estrutura que basta para este primeiro estabelecimento e para o seu fornecimento, e exercício do culto divino, se remete em cada navio o preciso, calculando cada sessenta casais o que toca para uma Igreja".
Providenciam-se padres do clero secular junto aos bispos de Funchal e Angra, bem como de São Paulo:
"Ao Bispo de São Paulo e a quem presentemente pertence aquele território, mando a este respeito avisar pela Mesa da Consciência, que se há de constituir em cada Igreja destas um vigário, ao qual no primeiro ano se dará o sustento e mais cômodo, como aos outros colonos, e terá sessenta mil reais ao ano a fábrica e guizamentos, uma e outra que não suceda no princípio, como é fácil de experimentar falta de sacerdotes para vigarias, manda pela dita mesa avisar aos bispos de Funchal e de Angra que convidem alguns clérigos daquelas Ilhas, para irem em companhia dos mesmos casais, tudo entendereis pelas cópias que com esta se vos remete do que se avisa aos bispos.
A este sacerdote se darão a chegada dez mil reis cada um de ajuda de custo e terá o dito Brigadeiro particular cuidado que se não apartem das igrejas em que forem postos para outras terras do Brasil nos termos expressados ao Bispo de São Paulo, e quando isto faltem escreva ao Ordinário a cuja diocese houverem passado, para que obrigue por todos os meios e demonstrações convenientes a tornarem para suas Igrejas.
A cada um dos ditos vigários se dará também uma porção de uma quarto de léguas em quarta para passais de sua igreja".
 
Faz-se mister examinar a procedência dos primeiros vigários de Lagoa, Santo Antônio, São Miguel, São José, Enseada de Brito para apurar que relação têm com as ordens do Rei.
Também se pedem jesuítas:
Sabemos que de imediato em março de 1748, chegavam dois padres jesuítas do Rio de Janeiro (vd ).
Os relatórios dos Visitadores Apostólicos informam também sobre a existência de Irmandades. Com frequência dizem da existência da Irmandade do Santíssimo Sacramento, que era prevista pelas normas da Igreja. As vezes a Irmandade do Santíssimo Sacramento vem combinada com a denominação do orago da Igreja Matriz.
As primeiras informações não se referem à Irmandades do Espírito Santo. Mas já aparecem no Livro da Visita do visitador Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, quando nomeado a segunda vez, em 9 de novembro de 1811. Refere-se então a esta denominação, como existente na Freguesia de N. Sra. do Desterro e na de Santa Ana de Vila Nova.

 


 

I - Freguesia de N. Sra. da Conceição,
de Lagoa, Ilha de SC.
91sc0666.
 
 
 
667. A Igreja.  Já consta o nome da localidade de Lagoa nos requerimentos de sesmaria de Francisco Dias Velho (vd ) e desde logo terá recebido alguns moradores.
O povoamento intensivo de Lagoa aconteceu ao partir de março de 1748 quando ali se instalava o primeiro grupo de imigrantes açorianos (vd 542), acompanhado pelo mesmo Governador Brigadeiro Silva Paes, como se faz menção na notícia dos dois padres jesuítas que então chegavam à Vila de Desterro (vd 640).
Então logo se construiu, já sob o Governo de Manoel Escudeiro de Sousa (1749-1753) uma primeira precária igreja, de pau à pique, para ser sem demora erigida em Matriz de freguesia.
Quanto à referida primeira igreja foi inaugurada em 8 de dezembro de 1750, no dia de N. Sra. da Conceição. O evento consta em documento:
Fora a planta da primeira igreja de Lagoa traçada por um cabo de esquadra, de nome Antônio Gonçalves Loureiro, e que foi enviada à Metrópole, conforme também consta de outra carta do Governador Manoel Escudeiro, de 22-4-1851, ao Rei de Portugal.
Mas a primeira Igreja de Lagoa ruiu, e foi substituída por um barraco ainda mais simples.
A Notícia de 1765, ao 16-o ano da instalação dos açorianos, refere o seguinte:
"Há na Ilha a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Lagoa, distante 2 léguas da Vila, e que tem uma igreja construída pelo governador Manoel Escudeiro.
Foi feita com grande despesa e superou 9.000 cruzados. Ela ruiu inteiramente, não ficando nem as telhas, e por ter sido construída de madeira e pau a pique, coberta de cal, está hoje reduzida a uma barraca, socorrida pelo governador anterior" (Notícia de 1765).
O referido governador anterior foi José de Melo Manoel, o qual sucedera a Manuel Escudeiro em 1753, e que agora em 1765 vai ser substituído pelo T-te Menezes, a quem fora enviada a informação citada.
 
Finalmente se construirá uma terceira pequena capela, de pedra e cal, a qual ainda subsiste, mas apenas como capela mor, de um corpo maior, que no futuro o governo construiu em frente. As pequenas torres laterais são mais recentes.

 
 

668. A freguesia. A elevação do povoado de Lagoa ao nível de freguesia se realizou dentro do plano da Metrópole de ajuda imediata aos núcleos açorianos a serem estabelecidos. Representava isto um pároco, ao qual o erário público sustentava com uma côngrua.
Tem-se como data da criação da freguesia o dia 19 de junho de 1750, que efetivamente é da provisão do primeiro vigário Pe. Manoel Cabral Bittencourt.
Entretanto, o Relatório do Visitador Apostólico Pe. Bento Cortes de Toledo, nomeado em 5 de Novembro de 1798, diz da freguesia de Lagoa:
O nome de Freguesia de N. Sra. da Conceição da Lagoa resultou no hábito de dar ao acidente geográfico a denominação de Lagoa da Conceição.
Foi primeiro pároco de Lagoa, Pe. Manuel Cabral Bittencourt.
Sobre o vigário de Lagoa, a Notícia de 1765 diz apenas o seguinte ao recém nomeado Governador:
"Do vigário da Igreja da Lagoa não poderei dar informações, pois não o conheço". Isto pode significar, fosse um cidadão sem problemas, porquanto dos demais o informante costuma dizer dos seus defeitos, e em alguns casos de suas boas qualidades.
Em seu Livro de visita, o Visitador apostólico, Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, de quando fora nomeado pela segunda vez, em 9 de novembro de 1811, informa:
"Vigararia ereta por autoridade e Ordem Régia no ano de 1750.
Tem a Irmandade do Santíssimo Sacramento; a da Padroeira Nossa Senhora da Conceição. A de São Miguel e Almas sem compromisso nem aprovação de Sua Alteza Real e se conservam com a primitiva Autoridade do Ser. Ordinário.
Tem quatrocentos e vinte fogos, com duas mil e vinte e seis almas de Sacramento".
 

 
II - Freg. de N. Sra. das Necessidades,
de S. Antônio, Ilha de SC.
91sc0669.
 
 
 
 
670. A Igreja. Dada sua excelente posição à meio caminho da Barra Norte e proximidade da Ilha de Ratones, a enseada de Santo Antônio foi cedo atingida pelos primeiros moradores da Ilha de Santa Catarina. Foram estes que lhe deram o nome de Santo Antônio e fizeram doação do terreno onde estabeleceu a Igreja e o quadro da praça dianteira.
A localidade recebeu mais população com a vinda dos imigrantes açorianos, com os quais se povoou intensivamente o Norte da Ilha de Santa Catarina.
A proximidade com as fortalezas, as quais foram logo bem servidas de capelães, facilitou também o atendimento regional das demais localidades do Norte da Ilha. Carta de 4 de março de 1751, do Governador Manoel Escudeiro, se refere ao Norte da Ilha de Santa Catarina.
Depois de dizer  que se "benzeu a nova da povoação da Lagoa" (vd 666), em 1750, que o mesmo se fez no Norte da Ilha no dia de São José, o que significa 19 de março, o que somente poderia ser em 1750:  "e a da Fortaleza de São José [Ponta Grossa], que interinamente serve de Freguesia, ao muito povo de sua vizinhança, também benzeu-se no dia do mesmo Santo".
Entrementes se foi construindo a Igreja de N. Senhora das Necessidades, e que é elogiada no informe de 1765 ao governador recém-eleito, T-te Menezes:
"Há na Ilha a Freguesia de Nossa Senhora das Necessidades, distante, por terra, 4 léguas. Tem estas freguesia uma igreja nobre, erigida, com permissão de Sua Majestade, pelo Governador Dom José de Mello Manoel. Tanto essa Igreja como a de Nossa Senhora do Desterro, na Capital da Ilha, são os dois únicos edifícios dedicados a Deus Nosso Senhor em forma de templos e de suas casas" (Notícia de 1765).
 
671. A freguesia. Foi a freguesia de Santo Antônio criada sob o título de N. Sra. das Necessidades, em 27 de abril de 1750. Citada as vezes simplesmente pelo nome de Necessidades, prevaleceu o de Santo Antônio.
Destacou-se como fundadora da capela, depois matriz de N. Sra. das Necessidades, de Santo Antônio, Clara Manço de Avelar, filha do Sargento-Mor da Ilha de Santa Catarina, Manoel Manço de Avelar. Tendo sido longeva, faleceu apenas em 22-10-1790.
 
Foi seu primeiro vigário, Pe. Domingos Pereira Telles.
 
Diz o informe de 1765: "Do vigário da Igreja da Lagoa não poderei dar informações pois não o conheço. Do das Necessidades, a quem chamam por Padre Domingos Pereira Telles, sim. Este clérigo, já na sua terra de origem, que é a Ilha do Pico [Açores], sempre foi um revoltado. Não tem religião nenhuma e nem a conhece. É soberbíssimo, sacrílego, blasfemo e de péssima consciência. Jamais se viu em homem daquele estado algum temor a Deus e de suas leis humanas e a todas as luzes tão escandaloso e atrevido".
 
O Visitador apostólico Pe. Bento Cortes de Toledo, nomeado em 5-11-1798, deixou no seu Relatório, a informação seguinte:
"Tem esta freguesia de N. Sra. das Necessidades 2.392 almas de confissão e comunhão. Foi ereta em 1755. Tem esta Matriz 3 Irmandades: do Santíssimo, de N. Senhora e Almas sem compromissos" (Arquivo da Arquidiocese do RJ).
Fora em 1651 o Pe. Domingos Pereira Teles designado também  Visitador Apostólico (vd 604), com vistas a batizar e exercer funções como representante do Bispo diocesano do Rio de Janeiro.
No Livro de Visita, do Visitador apostólico, Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, de quando nomeado segunda vez, em 9 de novembro de 1811, se lê a respeito da freguesia de N. Sra. das Necessidades, de Santo Antônio:
"Vigararia ereta por Ordem Régia no ano de 1755.
Tem Irmandade do Santíssimo Sacramento. A de Nossa Senhora Padroeira.  A de São Miguel e Almas, eretas por autoridade ordinária, e hoje da Jurisdição Real.
Tem quinhentos e cincoenta e sete fogos, com duas mil trezentas e oitenta e quatro almas de Sacramentos".
Por ocasião da visita do bispo diocesano do Rio de Janeiro D. José Caetano da Silva Coutinho, este aprovará o compromisso da Irmandade do Santíssimo Sacramento, a 16 de agosto de 1815.
No futuro se desmembrarão de Santo Antônio as freguesias do extremo Norte da Ilha de Santa Catarina, - Canasvieiras e Rio Vermelho.

 

 

III - Freguesia de São Miguel, em São Miguel, junto de Biguaçú.
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673. A Igreja. Tudo principia muito simples, de acordo com as ponderações gerais do Governador Manuel Escudeiro, que em Carta de 3 de março de 1751 ao Conselho Ultramarino, - depois de se referir às igrejas, também simples, da Lagoa (vd ) e da Fortaleza de São José, ao norte de Santo Antônio (vd), - dizia "e como pela penúria que há de artífices e serventes se retardam as mais igrejas, tomei o expediente de que se fizessem casinhas pequenas de pau a pique para oratórios".
14 anos depois, é descrita:
"Margeando o continente para o sul e para dentro da barra norte, se encontra a freguesia de São Miguel, numa distância de 4 léguas.
Esta Freguesia tem somente uma pequena barraca de palha, em que se oficia e se fazem as demais funções" (Notícia de 1765).
De futuro se construirá pequena capela de pedra e cal. A ela se referiu Paulo José Miguel de Brito:
 O governo da Província acrescentará o corpo principal. Assim se conserva ainda hoje.

 
 

674. A freguesia. Em decorrência da decisão de criar imediatamente as freguesias dos núcleos em que foram estabelecidos os imigrantes açorianos, São Miguel teve estas condição já em 8 de fevereiro de 1752.
Estendia-se a freguesia vastamente pelo lado norte, até os confins do então município de N. Sra. do Desterro:
"Freguesias na terra firme - São Miguel, povoação medíocre, situada a beira- mar para dentro da barra do Norte da Ilha... A sua distância para o norte estende-se a nove léguas, até ao rio Cambarigú-assú [Camboriú]" (Paulo José Miguel de Brito, Memória política da Capitania de SC, 1816, P. 2, art. 2).
Em consequência desta extensão, a freguesia incluía, conforme o autor mencionado:
 "São fregueses das Paróquia os moradores da enseada das Garoupas [Itapema], da ponte e praia das Bombas, e dos Zimbros, da enseada das Tijucas, da praia das Palmas, da armação grande das Baleias estabelecida na ponta da terra firme [Ganchos], que fica quase leste-oeste com a ponta setentrional da Ilha de Santa Catarina" (Ibidem).
A respeito do vigário de São Miguel informava a Notícia de 1765:
"Passando ao da terra firme, o da Freguesia de São Miguel, por nome de Domingos Pereira Machado, é um selvagem quadrado. É tão ignorante, que ofende a consciência consentir que ministre missa sem que entenda nada e saiba o que contém tão sagrado mistér. Maior é o encargo de se consentir que confesse. Depois de ter neste ministério, alguns lúcidos intervalos, além destes defeitos tem o de ser brusco, mal-intencionado, de má consciência e atrevido com o Governo".
O Visitador apostólico Pe. Bento Cortes de Toledo, nomeado em 5 de novembro de 1798, no seu Relatório, deixou dito de São Miguel:
"Ereta em 1752, fogos 476, com 2513 almas de comunhão e confissão. Esta Matriz não tem Irmandade. Tem a capelania de N. Sra. da Piedade da Armação distante duas léguas" (Arquivo Arquidiocesano do RJ).
Acrescenta o Visitador apostólico Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, quando de sua segunda nomeação em 9 de novembro de 1811, em seu Livro de visita:
Quando da visita do bispo em 1815, as notas do mesmo dizem do nome do vigário e da população:
"São Miguel da Terra-firme, José Dias de Siqueira, 2845 almas". Na mesma oportunidade o bispo aprovou o Compromisso da preexistente Irmandade do Santíssimo Sacramento da freguesia de São Miguel, em data de 4 de agosto de 1815.

 
 

 
IV - Freguesia de São José [da Terra Firme].
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677. A Igreja.  O primeiro oratório foi o mais simples possível, e terá sido construído conforme se escusa o Governador Manoel Escudeiro, em carta de 4 de março de 1751 ao Conselho Ultramarino em que se refere às igrejas recém inauguradas de Lagoa e Fortaleza de Ponta Grossa (Norte da Ilha): "e como pela penúria que há de artífices e serventes se retardam as mais igrejas, tomei o expediente de que se fizessem casinhas pequenas de pau a pique".
Na informação de 1765 se reflete ainda a imagem da situação inicial:
"Adiante [em relação a São Miguel] segue a Freguesia de São José, que já está dentro do estreito, a duas léguas da Vila [de Nossa Senhora do Desterro].
Numa pequena barraca de pau a pique, coberta de telha e já assoalhada, em cujo lugar o Governador Manoel Escudeiro construiu uma igreja de pedra e cal, e para a obra se chegou a tirar pedra do próprio local, se oficiam as funções religiosas" (Notícia de 1765).
Na informação de Paulo José Miguel de Brito:
"São José; lugar situado à beira-mar em formosa posição na terra firme; a paróquia é dedicada ao santo que dá o nome ao lugar; é pequena e boa, e tem vigário" (Memória política da Capitania de SC, P.2, art.2, escrita em 1816). Ao dizer "paróquia pequena" talvez queira ter dito "igreja pequena".
 
678. Freguesia. Resultou também São José como mais uma do elenco das freguesias sistematicamente criadas para os núcleos em que se estabeleceram os imigrantes açorianos. E assim se sabe que em 26 de outubro de 1751 era freguesia.
O rigoroso informante sobre os vigários ao Governador, em 1765, elogia ao vigário de São José: "O da freguesia de São José, por nome de Antônio José Borges de Castro, é bom pároco e bom clérigo, atento, civil e inteligente" (Ibidem).
O Visitador Apostólico, Pe. Bento Cortes de Toledo, nomeado em 5 de novembro de 1798, diz em seu Relatório, sobre a freguesia de São José:
"Ereta em 1751. Fogos 417, com 1229 almas de confissão e comunhão" (Arquivo da Arquidiocese do RJ).
O Visitador Apostólico Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, no Livro de visita, de quando de sua segunda nomeação em em 9 de novembro de 1811, diz de São José:
"Vigararia ereta no ano de 1751 por Ordem Régia.
Tem a Irmandade do Santíssimo Sacramento; e a do Divino Espírito Santo, com seus compromissos por Autoridade Régia.
Tem quatrocentos e cincoenta fogos, com duas mil trezentas e oitenta almas de Sacramentos".

 

 
V - Freguesia de Enseada de Brito. 91sc0680.
 
 
 
 
681. Igreja. Inicialmente recebeu Enseada de Brito uma igrejinha de pau a pique, executada conforme o plano do governador Manuel Escudeiro, por falta de quem soubesse construir melhor (Carta de 4-3-1751).
No fim do século, o Visitador Apostólico, em seu Relatório, diz que a igreja estava vindo abaixo (vd 682). Depois o governo construirá Igreja Matriz, que ainda hoje se conserva.

 

682. Freguesia. Afirmou-se que já era freguesia em 8 de julho de 1751. Diferem entretanto as datas fornecidas pelos Visitadores Apostólicos.
Notícia de 1765 diz apenas o seguinte, usando todavia a expressão freguesia:
"Correndo a costa para o sul está a Freguesia de Nossa Senhora do Rosário, chamada de Enseada de Brito e que fica 4 léguas de distância da Vila [de Nossa Senhora do Desterro] " (Notícia de 1765).
Diz em seu Relatório o Visitador apostólico Pe. Bento Cortes de Toledo, nomeado em 5 de novembro de 1798:
"Ereta em 1675, com 208 fogos, com 1021 almas de confissão e comunhão. Esta Igreja só tem a Irmandade do Santíssimo sem compromisso. Tem a capela de Armação de Garopaba de invocação de São Joaquim distante de 4 léguas. Esta Igreja é a mais pobre que há na Comarca, não tem paramentos e a mesma Igreja está vindo abaixo" (Arquivo da Arquidiocese do RJ).
 
Ao se ocupar dos vigários das freguesias, continua a Notícia de 1765 laconicamente: "O [vigário] da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário, da Enseada de Brito, ignoro quem seja".
" Vigararia ereta por Ordem Régia no ano de 1750" dirá o Visitador José Mendes dos Reis, em relatório de 1811..
No decorrer da ocupação espanhola de 1777 (vd ), em meio aos tumultos ocorridos, ficaram prejudicados os livros paroquiais. Recorreu-se ao bispo do Rio de Janeiro para efeito de se reordenar a escrita. Ao mesmo tempo ficou clara a pobreza desta freguesia. Lê-se em um ordem episcopal de 16 de janeiro de 1782:
"Dom José Joaquim Justiniano Mascarenhas Castelo Branco, por Misericórdia Divina Bispo do Rio de Janeiro do Consôo. De Sua Majestade Fidelíssima.
Desejando atender à justa representação dos moradores da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário da Enseada de Brito, Comarca da Ilha de Santa Catarina, que nos propuseram o detrimento, que experimentarão na falta de Livros de Fábrica, em que se façam os assentos dos batizados e obtidos da mesma Freguesia, por se haver desencaminhado com a invasão dos Castelhanos do ano de 1777, e indiscretamente dilacerado e queimado pelos invasores o Livro,
que servia para os mesmos assentos que de então para cá apenas se fazem memórias de assentos tão importantes em Cadernos avulsos, por não ter recursos suficientes a mesma Fábrica, nem ainda o mesmo Reverendo Pároco da Freguesia. E outrossim achar-se quase findo e dilacerado o Livro, que serve atualmente, na mesma Freguesia, para se lançarem os termos e assentos dos casamentos, e que tudo para o futuro pode ser prejuízo considerável para os paroquianos,
que por serem poucos, pobre e miseráveis não se consideram em estado de concorrer com a despesa necessária para a feitura dos mesmos livros: houvemos por bem mandar formar pelo N. R. Tesoureiro das Obras pias quatro Livros, que depois de rubricados serão remetidos com esta Nossa Portaria..." (Livro 3-o de Portarias e Ordens Episcopais, anos 1779-1830, fls. 56-57).
No Livro de visita, do Visitador apostólico Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, de quando foi nomeado segunda vez, em em 9 de novembro de 1811, se informa sobre a freguesia de Enseada de Brito:
Em 1815, quando o bispo visitante em suas anotações sempre se refere ao nome do vigário, não o faz em relação à Enseada de Brito, de certo vacante, limitando-se, neste passo, a dizer:
"Nossa Senhora do Rosário da Enseada de Brito, com 1432 almas".
 Paulo José Miguel de Brito:
"Enseada de Brito; povoação pequena situada na terra firme à beira-mar sobre a costa que borda a sobredita enseada, fronteira à ponta de Caiacanga-assú, na ilha, e quase leste-oeste com  a mesma ponta. A Igreja é pequena e antiga, dedicada a N. Sra. do Rosário, e tem um vigário" (Memória política de SC, P.2, art.2).
 

 
VI - Freguesia de Vila Nova de Sant'Ana... 91sc0684.
 
 
 
 
 685. Igreja. Junto de Imbituba, frente para o mar, em Vila Nova se construiu um primeira igreja nesta região, naquele tempo ainda parte do município de Laguna.
Informe de 1765 se refere a esta primeira primeira igreja de Vila Nova:
Mais tarde o governo construirá um edifício maior, que ainda hoje subsiste.

 
 

686. Freguesia. Sobre esta freguesia de Vila Nova situada mais ao Sul, informou em o Livro da visita, o Visitador apostólico, Pe. Agostinho Mendes dos Reis, quando de sua segunda nomeação em 9 de novembro de 1811:
"Foi esta vigararia ereta no ano 1752. Tem 320 fogos, com 1336 almas de Sacramentos. Tem Irmandade, das almas ereta, e confirmada por Autoridade Régia, A Irmandade do Santíssimo Sacramento, Santa Ana e Espírito Santo anexas, tem recorrido a Autoridade, Régia" (Arquivo da Arquidiocese do RJ).
Sobre o vigário: "O da Freguesia de Nossa Senhora do Rosário, da Enseada de Brito, ignoro quem seja. Porém o da Freguesia de Sant'Ana conheço-o bem. É o Padre Francisco José de Araújo Bernardes, perfeitíssimo clérigo, exemplar e excelente pároco" (Ibidem).
 
As notas do bispo visitante, em 1815, dizem da população e do nome do vigário:
"Santa Ana da Vila Nova, João Francisco Viana, 1602 almas".
 
Paulo José Miguel de Brito é lacônico:
 

 
§ 7o. Freguesias de criação recente,
do tempo da Capitania. 91sc0689.
 
 
 
 
690. Igreja. Ainda houvesse o Sul da Ilha de Santa Catarina bastante cedo recebido povoadores não foi alcançado por nenhum estabelecimento intensivo.
Estabelecidos a partir de 1748 imigrantes açorianos, em outras partes da Ilha de Santa Catarina, ocorreu uma derivação paulatina deles para o Sul da mesma Ilha. O mesmo processo também se deu a partir do continente.  E assim ainda influenciou o povoamento do Sul a pesca da baleia, operada em Armação da Lagoinha (vd ).
Finalmente se construíram, ainda durante a Capitania, duas pequenas igrejas, uma em Ribeirão da Ilha e outra em Armação.
Com referência à capela de Ribeirão da Ilha, foi ela construída algumas centenas de metros ao norte da atual Igreja Matriz, em localidade denominada Barro vermelho. A ela se referiu Paulo José Miguel de Brito:
 
691. Freguesia.  Separada da Freguesia de N. Senhora do Desterro, o limite norte da que se criava em Ribeirão se fez por uma linha reta, sobre uma planície, a partir da Baía Sul, tomando a direção do Oceano Atlântico, e é indicada por Paulo José Miguel de Brito:
"O limite desta Freguesia pelo norte é uma linha reta tirada da ponta de Caiacanga-merim a rumo de leste até a costa oriental da Ilha, pela qual linha extrema com a Matriz da Vila, de que foi desmembrada há alguns anos " (Memória política da Capitania de SC. P. 2, art. 2).
O Livro de visita do Visitador apostólico, Pe. Agostinho José Mendes dos Reis, de quando nomeado segunda vez em 9 de novembro de 1811, refere o seguinte:
"Vigararia ereta por autoridade Régia no ano de 1809, tendo sido primeiro capela filial [da Matriz de N. Sra. do Desterro] , depois curada por Autoridade do Senhor Ordinário.
Têm... duzentas e trinta fogos, com mil e quinhentas almas de Sacramentos. Não tem Irmandade".
 
Quando da visita do bispo em 1815, suas notas dizem o nome do vigário e a população:
"Nossa Senhora da Lapa do Ribeirão, o Pe. Tomás Francisco da Costa, Encomendado".

 
 
 


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