Cap. 3 - Art. 2o.Cap.3 - Art. 4.o

ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

SANTA CATARINA COLONIAL 
ART. 3o.
HISTÓRIA ECONÔMICA DA CAPITANIA DE SC. 91sc0571.

CAP. 3 - HISTÓRIA DA CAPITANIA DE SC. -
 
 
 
 
572. Introdução. Nitidamente reduzida, a economia catarinense ao tempo da Capitania, era contudo existente e progressiva. Marcava-se primeiramente pelo seu caráter de economia em implantação, instalados que haviam sido de pouco os núcleos bandeirantes e açorianos.
 Há nesta economia uma ascensão, ainda que vagarosa, e que se revela sobretudo na fase da pesca da baleia.
 Didaticamente, importam:

 - uma consideração geral sobre o desenvolvimento econômico da Capitania (vd 91sc0573).
 - Uma consideração especial sobre a agricultura e pecuária (vd 91sc0581).
 - Outra sobre a pesca, com destaque a da baleia (vd 91sc0585).
 - Finalmente sobre a pequena indústria e o artesanato (vd 91sc0589).
 
 
 
 

§ 1. Do Desenvolvimento Econômico
da Capitania de SC em geral.
91sc0573
 
 
 
 574. A economia da Capitania esteve sob fortes limitações, algumas em decorrência do estágio do povoamento ainda relativamente novo. Outras consequentes da precariedade dos métodos agrícolas e pecuários (vd 579). Além disto, a indústria incipiente era obsoleta, havendo sido mesmo, por algum tempo, entravada por restrições vindas da Metrópole portuguesa.
 Eis vários itens a examinar e que constituem a história econômica da Capitania de Santa Catarina ao tempo do regime colonial, quando a população estava ainda bem abaixo de cincoenta mil habitantes, distribuída em quatro municípios (São Francisco, Desterro, Laguna, Lages).


 
 
575. Dificuldades iniciais. A expansão demográfica para o sul, estimulada embora pelo interesse da ocupação do solo e garanti-lo contra o espanhol, se dava ainda com o desejo de enriquecer. Havia certamente aspiração nas empresas de Manoel Lourenço de Andrade na fundação de São Francisco (1658), de Francisco Dias Velho na póvoa de Nossa Senhora do Desterro (1673), de Domingos de Brito Peixoto no empreendimento de Laguna (1676).
 Além do móvel agro-pecuário, acreditava-se na existência de ouro. Efetivamente ele existia, embora em pequena escala, sobretudo nos aluviões de Paranaguá.
 Mal o gramaram-se as esperanças de riqueza. À isto se juntou ainda o desastre pelo qual foi morto Dias Velho em 1687.
Por cem anos a economia catarinense terá uma progressão muito lenta, embora firme. Nem mesmo a instituição da Capitania em 1738 e o estabelecimento da colonização açoriana em 1748 lhe deram impulso agressivo. Combinando a pesca artesanal e a agricultura, o homem do litoral nada criou de grandioso em uma e outra atividade. O algodão produzido não alcançava a rentabilidade do mesmo produto em outras regiões do País. O mesmo sucedia com a cana de açúcar. Além disto freqüentes convocações para as forças militares tumultuaram as iniciativas familiares.


 
 
576. A primeira curva ascensional da economia catarinense. Atentos ao que ocorria no plano geral da economia brasileira pergunta-se como ela se desenvolvia mais particularmente   no plano regional da Capitania da Santa Catarina.
 Não obstante os percalços de sua situação distante e isolada no extremo Sul, apesar dos tumultos criados pelas guerras com os espanhóis confinantes, em que se destaca o episódio da invasão de 1777, a Capitania de Santa Catarina se integra finalmente no mesmo processo do normal desenvolvimento do País. Passa às influencias Inglesa deflagra a revolução comercial, em que dominam os produtos tropicais. Apenas recuperada dos efeitos da invasão de 1777, a situação econômica de Santa Catarina é nitidamente ascensional, conservando-se assim até a independência em 1822.
 No decurso do governo do Cel. Francisco Antônio da Veiga Cabral da Câmara (1779-1786), que se seguiu imediatamente ao poder espanhol na Ilha de Santa Catarina, destacaram-se diversas iniciativas de melhora na agricultura. É quando se introduz a cochinilha e se estimula o anil. Também se principia o cultivo do linho e do cânhamo. O corte de madeira da Costa Catarinense já se exercia, sendo carregado cerca de um bergantim ao ano para o Rio de Janeiro.

 
 
 
577. Os excedentes exportáveis da produção eram remetidos geralmente para o Rio de Janeiro. Dali  seguiam, - ao menos assim se tem dito, - também para a Bahia, Pernambuco e outras bandas. Consistiam em farinha de mandioca, arroz, milho, azeite de baleia, peixe salgado, tecidos rústicos.
 Dentre os produtos agrícolas a farinha era dominante. Sabe-se que os comerciantes açambarcavam o produto, ao ponto de deixarem em falta a praça local, sobretudo de Desterro. Em consequência, tanto faziam boa exportação, como conseguiam altos preços para os minguados lotes vendidos ao mercado interno. Dali a contínua interferência dos governadores da Capitania e em especial da Câmara. Depois de 1800 as exportações de farinha passaram a se fazer sobretudo para o Rio Grande do Sul (Cf. O. Cabral, em Rev. do Instituto Histórico e G. de S. C., 1943, 2 sem. P. 19-20).

 
 
 
578. O progresso per capita da produção ofereceu oportunidade ao comércio, sobretudo da vila de Desterro. Uma comunidade relativamente rica se criava na Ilha de Santa Catarina. O fenômeno foi a notado Saint-Hilaire, naturalista, naturalista francês e foi dos primeiros a anotar este desenvolvimento e o posterior declínio. Havendo transitado por esta costa em 1820 e publicado seu livro em 1851, declara surpreso.

"A partir do Rio de Janeiro, em nenhum outra parte excetuando S. Paulo, vi lojas tão bem sortidas e em tão grande número como em Santa Catarina" (Saint-Hilaire, Viagem à província de S.C.).
 Compara Saint-Hilare as observações de visitantes anteriores, que também escreveram sobre Desterro.
 Bougainville, em 1763, anota 150 casas na vila, com muito pouco casas de negócio, com pouco desbravamento do solo, continuando a ilha uma vasta floresta, vivendo os homens brancos na maior ociosidade e umas poucas famílias do lado do continente.
 Em 1783, La Perouse anota que o desmatamento tomara maior extensão, continuando a vila, de 1000 habitantes, a ser muito pobre, com falta absoluta de objetos manufaturados. Já ocorrera, então, o acontecimento de 1777, do qual se ia recuperando Desterro.
 E já em 1803, quando da visita de Krusenstern, tudo era diferente. O numero de casas, - conforme vai comparando Saint- Hilare, elevara-se de 150 para algumas centenas, a sua população triplicara e nas casas de negócio já se encontravam mercearias de procedência européia. As mulheres trajavam-se mais ou menos como as de Portugal, muito embora com mais simplicidade (Saint-Hilaire, Ibidem, 13).
 Também Paulo José Miguel de Brito, que aqui circulara na passagem dos séculos 18 e 19, elogia a sociedade desterrense (P. J. M. de Brito, Memória política da Capitania de Santa Catarina.

 
 "Evidência-se, pelo exposto, que no espaço de 73 anos, 1712 a 1785, a província de Santa Catarina pouco se desenvolvera, operando-se, entretanto, uma transformação muito notável entre esse último ano e o de 1803, devia ao considerável aumento da população e ao desflorestamento intensivo" (Ibidem, p. 35).

 
 
 579. Apesar do progresso, as limitações. Um desenvolvimento pleno da economia catarinense era impossível dadas limitações várias, dentre as quais uma era o subdesenvolvimento generalizado, manifesto nas práticas defeituosas de produção, falta de habilitação, artesanato obsoleto. E a isto ainda se acrescentavam algumas proibições (vd 580).
  Um dos objetivos do governo com a colonização açoriana fora a agricultura e a agropecuária. Limitada esta população ao estágio da economia meramente predatória, e não preparada para a economia produtiva, a tendência foi a pesca e a extração de madeira, o pequeno comércio. Ficou a agricultura apenas ao nível da sobrevivência e a indústria ao nível do artesanato obsoleto.
 Apesar das lições que davam as construções militares, o conhecimento profissional era muito limitado, razão porque o Governador Manuel Escudeiro, envolvido com a construção das primeiras igrejas, ter-se limitado a construir oratórios muitos simples. Em carta ao Conselho Ultramarino de 4 de março de 1751, diz claramente, depois de haver dito que inaugurara a Igreja de Lagoa e a da Fortaleza de São José, de Ponta Grossa, no Norte da Ilha:
 "e como pela penúria que há de artífices e serventes se retardam as mais igrejas, tomei o expediente de que se fizessem casinhas pequenas de pau a pique para oratórios". Considere-se que a Igreja da Fortaleza terá sido construída pelos militares. Quando à igreja de Lagoa, sabe-se que, apesar de haver sido considerada verdadeiro edifício, teve seu risco traçado por um militar, e fora de pau a pique, tendo finalmente ruído (vd ) e em seu lugar foi construída também uma simples barraca.
 O informe de 1765 ao Governador recém nomeado, já o advertia, sobre o caráter dos açorianos:
 "Estas pessoas são sumamente laboriosas, mas como se tem comprovado, não possuem habilitação" (Notícia de 1765).
 "A cultura das terras nesta Capitania, - observa Paulo José Miguel de Brito, - é semelhante à que se pratica em todo o Brasil: as primeiras sementeiras são feitas nas cinzas dos matos queimados, e produzem muito, porém as seguintes produzem menos; as terras são preparadas com a enxada; com esta se fazem covas pouco profundas, onde se lançam as sementes, que depois se cobrem com pouca terra, que o semeador empurra com o pé, de maneira que não se usa de arado, nem de outros instrumentos de lavoura, de que se faz uso em Portugal.
 A debulha e a colheita dos cereais e dos legumes, geralmente falando, é pouco perfeita; naquela usam mais do mangual que dos gados; nesta não sacodem nem joeiram bem o grão; e o ensacam com grande quantidade de casulos, e de grama;
 na preparação da farinha de mandioca também há pouca perfeição, do que resulta ordinariamente ser grossa, e pouco torrada;
e o mesmo se observa na preparação do arroz, que todo é descascado à força de trabalho braçal.
 No que respeita ao açúcar, também no país não o preparam bem, é pouco batido, e mal barreado, e por isso umedecido facilmente; fabricava-se pouco, e pela maior parte reduzem o sumo da cana a aguardente, que em geral é boa, e tem exportação;
 não há na Capitania engenhos, mas sim pequenas engenhocas" (Memória política de Santa Catarina, 1816, ed. 1932, p.59).
 Com a futura imigração alemã e italiana serão melhorados muitos dos métodos de trabalho e dos aparatos dos engenhos depois vigentes em Santa Catarina.


 
 
580. Sobre as proibições oficiais. Administrando problemas internos de Portugal e desejando reorientar a economia da Colônia, praticou o Governo Português a política das proibições.
 Pelo Alvará de 5 de janeiro de 1785 o rei proibia as fábricas e manufaturas de ouro, prata, seda, algodão, linho e lã (vd 590).
 Mas não se pode dar muita importância a estas restrições, porque à economia restavam outros caminhos.
 A baixa produtividade da economia catarinense ao tempo da Capitania tinha seus principais motivos na deficiência dos métodos de trabalho e no mesmo pouco exercício do trabalho. Esta baixa produtividade das populações de beira mar já acontecia antes das proibições e continuará também depois que elas cessaram em 1808 com o estabelecimento do Reino Unido Brasil-Portugal. Não obstante algum recuo aconteceu com as proibições.
 Saint-Hilaire observava:
"Não havia gente rica. As proibições impostas pelo governo tornavam o comércio quase nulo e muito dificilmente se encontrariam em toda a ilha e costa vizinha gêneros para carregar um navio de 400 toneladas" (Saint Hilaire, Viagem, 34).
 Com referência às restrições da Metrópole portuguesa à economia brasileira bem se sabe que elas diminuíram a começar de 1807, quando da transferência da Corte para o Rio de Janeiro. Além disto, D. João VI abriu os portos ao comércio internacional. Permitiu esta abertura a melhoria dos produtos em circulação, dada a superioridade industrial da Inglaterra e outros países em relação à Portugal.

 
 

 
§ 2.o. Agricultura e pecuária da Capitania. 91sc0581.
 
 
 
 
582. A mandioca e a respectiva farinha foi uma agricultura herdada diretamente do índio carijó e logo melhorada por influência dos primeiros navegadores espanhóis interessados em adquirir o produto (vd 86). Os povoadores portugueses lhe deram continuidade, ao fundarem os povoados da Ilha de São Francisco (1642), Ilha de Santa Catarina (1673) e Laguna (1684).
 Criada a Capitania de Santa Catarina em 1738, a farinha se firmou ainda mais como produto básico da região litorânea, por causa da adequação das terras arenosas para desenvolver os tubérculos da mandioca. Além disto complementava- se a farinha como alimento combinado com o feijão, igualmente cultivável, e com a carne, quer do peixe, quer do gado.


 
 
583. A criação do gado foi em Santa Catarina sobretudo a vocação do Planalto.  Veio aliás do Planalto de Curitiba o primeiro gado para a Ilha de Santa Catarina.
 Foi o gado também uma opção para toda a costa catarinense. Talvez sua criação não houvesse sido suficientemente implementada ao tempo da capitania. Em consequência as necessidades eram supridas por aquisição no Rio Grande do Sul. Passou a haver aquisição de gado no Planalto, depois que no fim do século foi aberto o caminho da Capital em direção a Lages.

 
 "A agricultura, - escreveu Paulo José Miguel de Brito, em 1816, - tem um grande obstáculo nesta Capitania, o qual consiste na falta de fazendas de criação de gado vacum, cavalar e lanígero; o que é devido ao desmazelo ou ignorância daqueles, a quem cumpre prover e vigiar sobre tais objetos de administração pública.
 Semelhante falta em um país, que até 1808 era puramente agrícola, é na verdade bem notável! A consequência dela é, que todos os lavradores vão ou mandam comprar os seus gados à Capitania do Rio Grande, não só os que são necessários para os trabalhos da lavoura, mas até os que são precisos para o sustento dos habitantes, pois que todo o gado, que se mata e corta nos açougues, se vai comprar à referida Capitania.
 Contudo os lavradores conservam sempre allgumas rezes para os seus serviços e trabalhos campestres, e da propagação destas rezes destinam as que podem dispensar para as vender aos navegantes, que aportam na Ilha de S. Catarina" (Memória Política da Capitania de SC, P. 2, art. 6).
 
Sobre o efeito negativo da situação descrita sobre o gado adquirido, escreveu ainda Paulo José Miguel de Brito em Nota:
 "Em consequência deste péssimo sistema de regime sai anualmente grande quantidade de dinheiro, que se ficasse girando dentro dela, lhe seria muito útil. Fazendo abstração do grande número de rezes que os lavradores vão comprar no Rio Grande para os seus trabalhos, e tratando somente dos gados que também lá vão buscar os arrematantes dos açougues, direi que durante os anos que residi em Santa Catarina, não se mataram menos de mil rezes por ano somente no açougue da Vila Capital, cujas rezes, ainda quando não custassem no Rio Grande mais que 3$600 cada um, importam na quantia de 3:600$000 réis que, com as despesas do custeamento na condução para a Ilha de Santa Catarina, que hoje não importa em menos de 1:200$000, faz um total de 4:800$000 réis por ano. Esta despesa já no ano de 1794, em que somente se mataram 700 rezes, subiu a 2:090 réis" (Ibidem).
 
 Entre os consumidores se encontravam, certamente, também os soldados do Regimento de Linha da Ilha de Santa Catarina, então mais de 1000 praças.


 
 
584. A principal produção, pela ordem, era, sem contar o óleo de baleia, a farinha, seguida de longe pelo arroz, aguardente, mais longinquamente pelo café, cebola, alho, peixe. É o que se infere de um mapa de 1810, do Governo, e divulgado também por Paulo José Miguel de Brito, aduzido ainda de um comentário.
 No seu comentário, Paulo José Miguel de Brito tentou mostrar quanto a produção catarinense, então praticamente realizada apenas nas propriedades da Costa Marítima, é menor que a da Ilha de Martinica, das Antilhas, a qual, embora descoberta por Cristóvão Colombo, estava agora sob eficiente administração francesa.
 Diz o comentário que a referida Ilha de Martinica tem 128 léguas quadradas, não totalmente cultivadas, produzindo contudo cerca de cinco vezes mais, do que a Capitania de Santa Catarina, não obstante apresentar então esta extensão cultivada maior, ou seja, 139 léguas quadradas:
 "... o que claramente manifesta quão pouco a Capitania produziu, e exportou relativamente à fertilidade de seu solo, à sua total extensão, e até mesmo às 139 léguas quadradas que somente se cultivam" (Ibidem).
 Pelo visto o reforço que se dera no povoamento pela imigração açoriana, ainda não se fizer refletir em reais resultado na economia agrícola e pecuária, depois de já passados três quartos de século.

 

 
§ 3o. Da pesca em especial, inclusive do óleo de baleia.
91sc0585.
 
 
 
 586. Dada a fase predatória do desenvolvimento econômico das populações que iniciaram a ocupação do Sul, a pesca foi um caminho natural de suas iniciativas.   Ela foi praticada pelos paisanos e logo também pelos imigrantes açorianos. E foi porque em São Pedro do Rio Grande do Rio Grande do Sul houvesse melhores oportunidades, sobretudo no canal de abertura da Lagoa dos Patos para o Oceano, que se estabeleceu uma secular migração das populações pesqueiras de Santa Catarina para a costa marítima daquela Capitania, depois Província e Estado.
 
  A pesca artesanal praticada desde os tempos da capitania como uma das principais atividades das população da costa marítima, a qual era combinada com uma pequena agricultura de subsistência, passou a declinar após os anos de 1950.
 Depois disto esta população optou progressivamente pelo crescente emprego nas cidades. Em parte também se ligou às pequenas atividades ligadas ao turismo, inclusive do comércio.
 Já desde o tempo da Província muitas propriedades foram vendidas aos teutos do grande Florianópolis. A valorização do solo, paulatinamente loteado para a venda aos turistas e outros que desejavam se estabelecer próximo ao mar, deu a muitos dos antigos proprietários o capital para novos empreendimentos, ou mesmo oportunidade para se deslocar para outros centros.
 Aconteceu, pois, uma restruturação demográfica, que não permite hoje reconhecer o panorama populacional dos tempos da capitania e de sua estrutura econômica.


 
 
587. Pesca da Baleia. Antes que os ingleses se dedicassem à pesca no extremo sul do Atlântico, a partir das Ilhas Falkland (ou Malvinas) eram mais numerosas as baleias vindas para a costa de Santa Catarina. Esta circunstância permitiu ao Governo Português o estabelecimento do seu monopólio pesqueiro, arrematado pelos negociantes de Lisboa. Também aproveitava o fisco, possibilitando ao governo manter as tropas militares, os funcionários públicos e o clero.
 Várias armações foram estabelecidas ao tempo da Capitania ao longo da Costa, como Imbituba, Garopaba, Lagoinha (no sul da Ilha de Santa Catarina), Piedade (hoje na município Governador Celso Ramos), Itapocorói e em São Francisco, trabalhando combinadas entre si.
A Armação da Lagoinha foi instalada com licença emitida pela Provisão do Governo Português de 9-7-1771.
 O pessoal da pesca da baleia era em parte escravo. Dali resultou haver-se formado uma população negra no Sul da Ilha de Santa Catarina, onde em parte se miscigenou. No decorrer do tempo  esta população negra das armações derivou quase toda para outras partes do país.


 
 
588. Vantagens das Armações. Os proventos para a Coroa Portuguesa eram recolhidos diretamente por ela. Mas uma parte retornava à Capitania, que recebia recursos para pagamento de seu pessoal, desde o Governador até os últimos oficiais (vd 452).
 Quando da independência do País já se encontrava em decadência a pesca da baleia. Todavia ela continua, e por muitas décadas a Capital de Santa Catarina fora iluminada mediante óleo de baleia.
 As consequências do declínio das Armações, sobretudo sobre o comércio, foi logo compensado pela produtividade da colônia alemã logo estabelecida.
 Geralmente as armações geravam um povoado suficientemente grande para terem uma capela, e as vezes mesmo um capelão. O potencial turístico das áreas em que situavam as antigas armações, ocasionou, sobretudo após 1950, povoados de nova estrutura demográfica.
 Na Ilha de Santa Catarina resta ainda a capela de Armação da Lagoinha. Ao reduzido templo se acresceu uma pequena torre em 1953, por iniciativa Quinto Distrito Naval, então sediado em Florianópolis.
 O lugar dos tanques foi tomado pelo mar. Quando em 1828 terminava a Guerra Cisplatina, foram seus barracos aproveitados para aquartelar um batalhão de soldados alemães, que então haviam sido desativados, para serem integrados  no grupo de imigrantes que havia chegado para a Colônia de São Pedro de Alcântara, esta instalada em 1829. Muitos deles todavia permaneceram na Capital da Província.

 
 

 
§ 4o. Da Indústria e dos Artesanatos obsoletos.
91sc0589.
 
 
 
 590. Procurou a Metrópole Portuguesa aglutinar a produção industrial portuguesa com os produtos agrícolas e extrativos das colônias. Neste planejamento, queria provocar um comércio de trocas, no qual a função das colônia seria o de geração da matéria prima e produtos agrícolas.
 Foi assim que, pelo Alvará de 5 de janeiro de 1785 ficaram proibidas nas colônias todas as fábricas e manufaturas de ouro, prata, seda, algodão, linho e lã.
Este ato lesivo à indústria brasileira, já muito frágil, simplesmente foi impedida de evoluir.
 Ao tempo da proibição, em 1785, era governador da Capitania de Santa Catarina, em fim de mandato, o Brigadeiro Francisco de Barros Morais (1779-1786) (vd 469). Sucedeu-o Major José Pereira Pinto (vd 470). A este escreveu Dom Luiz de Vasconcelos:
 "Constando-me que no distrito deste Governo se tem estabelecido teares de pequenas fábricas, em que se tecem panos de algodão e se fazem outras muitas obras dele e de linho finíssimo para uso daqueles povos;
 procurará V. S. instruir-se com todo o disfarce o segredo possível nessa matéria, remetendo-me uma relação dos nomes dos fabricantes e do número de fábricas com algumas amostras dos tecidos e manufaturas, que ali se consomem, ou se extraem para fora, para resolver a este respeito o que for mais conforme às ordens de sua Majestade" (Carta de 20 de maio de 1786, ao Gov. José Pereira Pinto, Arquivo do Palácio, vol. VI).
 A pequena indústria da Ilha de Santa Catarina e vizinhanças não desapareceu, ainda que não pudesse ser ostensiva e estimular-se com exportações. Tratava-se de teares manuais, que só foram desaparecer tardiamente, quando superados pelos produtos menos obsoletos, importados de outras regiões. Mais tarde ainda a indústria de tecelagem de Santa Catarina terá grande desenvolvimento no Vale do Itajaí.


 
 
591. A renda de bilro, surgida na Idade Media no contexto da República de Veneza, ainda que se houvesse tornada obsoleta diante das novas técnicas industriais, e mesmo artesanais, resistiu mais tempo nos bolsões de menor desenvolvimento, como Bélgica e periferias da Europa portuguesa.
 No Brasil a renda de bilro foi produzida com relativa boa qualidade no Nordeste Brasileiro, havendo conseguido a preferência no mercado do Rio de Janeiro. Lá o  produto se adatava à região, porque produtora de algodão.
 No Sul do Brasil a renda de bilro permaneceu mais tempo entre as populações da região pesqueira da Ilha de Santa Catarina. Não podendo a mulher aplicar-se à pesca, e não aderindo à atividades agrícolas,  tinha na fabricação da renda uma alternativa. No continente fronteiriço, sobretudo onde a atividade agrícola mais cedo foi ganhando preferência, caiu imediatamente o hábito de fazer renda de bilro. Ela praticamente já não existia pela volta de 1950, senão em áreas pesqueiras ainda bem definidas, inclusive Laguna.
  Depois de 1950, quando começou a decair também a pesca artesanal, igualmente passou a diminuir a fabricação artesanal da renda de bilro nas regiões de beira mar.
 Outras atividades artesanais de melhor rendimento foram também tirando a oportunidade à renda de bilro, mesmo nas regiões de pesca. Ficou assim a renda de Bilro sendo um artesanato obsoleto, como já há muito tempo ficara sendo na terra dos seus inventores. Poderá manter-se sob formas sofisticadas, como acontece ainda na Bélgica.
  Curiosamente, no centro urbano, a firma de Karl Hoepke estabeleceu uma indústria moderna de rendas, contrastando com o obsoleto artesanato.

 
 

 
§ 5-o. Exportação, Importação, Comércio. 91sc0594.
 
 
 
 595. É curioso saber o que se exportava no curso da Capitania, e ainda qual a ordem de valor atingido. Neste particular fez Paulo José Miguel um estudo, com base nos valores colhidos então:
 Farinha - $71; Arroz - $36; Aguardente - $ 25; Café - $413; Alhos - $9,6; Cebolas - $9,2; Melado - 7$; Feijão - $6; Linho comum - $5,3; Peixe seco - $5; Peixe salgado - $4,1; Taboado - $2,4; Trigo - $1,79; Milho - $1,70; Açúcar - $1,2.
 
Menos de $1 - Fava, Cevada, Amendoim, Algodão, Tabaco, Linho, Cânhamo, Goma, Gravatá, Betas de imbé, Betas pequenas, Couros, Tanados.
 
 O consumo interno era mais que o dobro, que o exportado, destacando-se a farinha (3 vezes) e o feijão (1 vez).
 Sobre o exportado, o consumo interno se mostra representativo apenas para a farinha. Exportava-se 71$, e se mantinha para o consumo 172$.
 Quanto ao arroz, segundo produto no valor da exportação - $36, consumia-se 56$.
 Aguardente, o terceiro na exportação - $25, consumia-se - $33.

 
 
596. Importava-se pouco, por causa da baixa produtividade e que se manifestava na exportação. Além disto, nenhum barco então era catarinense, e que viesse aferir os fretes ao interesse da economia catarinense.
 Entre os fatores favoráveis à importação estava o dinheiro enviado pela Corte para manter a guarnição militar. Também o óleo da baleia (vd 587) pesava em favor da importação, mas era produzido pelo monopólio das armações, e que só indiretamente contribuía, pagando ao erário público e aos seus trabalhões, que em parte eram escravos.
 Geralmente se importava o que não constava na exportação. Estes produtos eram na maioria fabris, e que a empresa local não estava capacitada para produzir, ou então produzia de maneira obsoleta.
 Sobre as importações de após 1800 informa de novo Paulo José Miguel de Brito:
 "As importações consistem em todas as manufaturas de lã, de linho, de algodão, e de seda; chá, cera em velas, e açúcar refinado; ferragens, enxadas, machados, e outras obras de ferro, e até este em barra; toda a qualidade de obras de ouro, prata, cobre, e outros metais, drogas e especiarias, e finalmente escravatura; o que tudo vai desta Corte do Rio de Janeiro, e o resto com o Rio Grande para onde somente exporta farinha de mandioca, e aguardente, e donde apenas importa os gados, e o charque; é de notar que a importância dos fretes é a favor da praça desta Côrte, pois a ela pertencem todas as embarcações que transportam os gêneros, tanto de exportação, como de importação, porque hoje não há uma única, que pertence a proprietário de Santa Catarina" (Memória política da Capitania de SC, P. 2, art. 6).
 
 
 
597. Sobre a situação econômica geral da Capitania, ocupou-se Ayres Cazal, em sua Geografia brasílica, impressas em 1817. Dedicou cerca de 15 páginas a Santa Catarina; foram estas reimpressas na Revista do Instituto Histórico e Geográfico de SC, em 1918. Diz o seguinte:
 "A Capital da Província é a abastada Vila de Nossa Senhora do Desterro...
 As olarias fazem aqui um ramo de indústria, e comércio.
 Fabricam-se tecidos de linho, e d'algodão; e ainda de um com outro".
 
Sobre o Sul da Capitania:
 "Laguna... Vila medíocre... Seus habitantes cultivam mandioca, milho, arroz, feijão, favas, algum trigo e linho.
 Do seu porto, onde entram sumacas, sai farinha, arroz, milho, madeira, peixe salgado".
 Da Freguesia de Vila Nova, incluindo Imbituba e Garopaba, diz:
 "Seus habitantes, entre os quais há muitos macilentos, recolhem as mesmas produções que os da Laguna, e cultivam maior quantidade de linho, o que faz haver aqui maior número de tecedeiras do que em nenhuma outra povoação".
 Sobre o Norte da Capitania:
 "A vila de São Francisco é mediana, abastada de pescado, e dos víveres do país, com casaria geralmente chã. Seus habitantes, geralmente brancos, são descorados, e quase todos lavradores de mandioca, para a qual o terreno é muito apropriado.
 A colheita de milho, arroz, açúcar, café, e tabaco que nele pode ser considerável, é ainda de pouca monta.
 Não há quem não possua ao menos uma canoa. Fazem-se aqui embarcações de bom porte. Madeira, e corda d'imbé são os objetos mais importantes, que saem do seu bom porto depois da farinha".
 Chegado o fim do Brasil Colonial, a Capitania de Santa Catarina sai do mesmo com uma economia sofrida, mas não vencida.
 

 
 


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