ApresentaçăoCap. 2


ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)

© Copyright 1997 Evaldo Pauli


CAP. 2

O ESTOICISMO, ou A FILOSOFIA DO PÓRTICO. 2642y072.


- LEGADO FILOSÓFICO HELÊNICO-ROMANO -

 

 

73. Introdução geral. Pelo ano 300 a.C. nascia mais um rebento filosófico na cidade de Atenas, o estoicismo, sucessor da escola socrática menor dos cínicos e aproximações com o aristotelismo. Terá grande receptividade e representantes até os últimos anos do mundo antigo.

Internamente coerente, o estoicismo, remotamente socrático, se apresenta como tendo sido uma das filosofias mais representativas inovadas durante a primeira fase do período pós-socrático. Influirá também sobre as demais escolas, particularmente sobre os peripatéticos, - como já se adiantou, - e ainda sobre os neopitagóricos, neo-acadêmicos, neoplatônicos.

 

A ética do estoicismo se refletirá mesmo sobre o rigorismo da moral cristã, conforme se observa em Paulo Apóstolo. Ainda que as religiões tenham mais afinidades com o neopitagorismo e com neoplatonismo, por causas dos conceitos de purificação, revelação e racionalização teológica, elas tem analogias com o rigorismo ético do estoicismo.

A imagem estóica de um mundo racional, com a presença da lei divino-natural, facilitou aos cristãos o conceito de lei natural, ao mesmo tempo que estabelecida por Deus. Também aqui Paulo Apóstolo; nascido em Tarso, da Síria, é nitidamente um pensador estóico.

Advirta-se contudo que o rigorismo cristão já trazia este caráter através do judaísmo, que o herdara do velho Egito, como uma posição em contraste com a liberalidade babilônica.

 

74. Divisão. Já é clássica a divisão da história do estoicismo em:

- Pórtico antigo (vd 2642y078).

- Pórtico médio (vd 2642y087).

- Pórtico moderno (vd 2642y097).

 

75. No período helênico-romano, os fundadores e os principais representantes do estoicismo procedem das mais diversas cidades do Mediterrâneo.

 

No quadro do Pórtico antigo:

Zenão de Citium (336 - 264 a.C.) fundador, vinha de Chipre (vd 81);

Cleantes, (331-233 a.C.) primeiro sucessor, era de Assos (vd 87);

Crísipo, (280-205 a.C.) terceiro escolarca, - e a quem o sucesso do estoicismo quase tudo deve, - veio de Soles (Cilícia) (vd 92).

 

Ao pórtico antigo ainda pertencem:

Zenão de Tarsos (Síria), Diógenes o Babilônio (Seleucia), Antípatro de Tarsos, Arquedemo e outros dos mais diversas cidades, que Diógenes Laércio cita (Livro VIII).

 

No quadro do Pórtico médio (eclético), do 2-o e 1-o século a.C.:

Panécio (+ 110 a.C.) que veio de Rodes (vd 98),

Possidônio de Apamea (Síria) (+ 51 a.C.) (vd 103).

 

No quadro do Pórtico moderno (com figuras do império romano):

Sêneca (3-65 a.C.) (vd 109);

Epícteto (50-130 d.C.) (vd 116);

Marco Aurélio (121-180 d.C.) (vd 120).

 

76. Desapareceram as primeiras e principais obras dos estóicos. Para o estudo de suas doutrinas tem-se de recorrer a fragmentos e doxógrafias.

As cerca de 50 páginas desconexas de Diógenes Laércio (L. VII) sobre o estoicismo representam a principal fonte.

Aproveitam-se bem os restos de Filodemo de Herculano, especialmente de Galeno, Sexto Empírico, Plutarco (nas obras polêmicas), Cícero e Sêneca.

 

Os fragmentos foram compilados por H. V. Arnim (Stoicorum veterum fragmenta, vols. 1-3, Leipzig 1903-1905). Os de Panécio e Hecaton foram reunidos por N. Fowler (tesis - Bonn 1885). Os de Possidônio por J. Bake (Leyden 1810).

 


 
 

 


ART. 1o. O PÓRTICO ANTIGO:

ZENÃO, CLEANTES, CRÍSIPO.

2642y078.


 

 

79. Introdução. Cerca do ano 300 a.C. abria-se a escola do Pórtico em Atenas, cuja primeira geração de mestres se fez conhecer como sendo a do Pórtico Antigo, e que atuou por cerca de um século.

Tratava-se do Stoá poikilé (E J @ Ź B @ 4 6 \ 8 0 = Pórtico ornado). Nestas galeria, que dava entrada pomposa à cidade, as pinturas ornamentais eram de Polignoto, que atuou entre 478 e 447 a. C., do qual se conservaram algumas réplicas romanas.

Ali ocorriam ajuntamentos populares e os poetas aproveitavam dizer versos. Finalmente, foi no mesmo local que filósofos também apregoavam idéias, cujos conceitos um tanto cínicos, mas também um tanto peripatéticos originaram finalmente uma escola filosófica, - a dos estóicos.

 

§ 1. Zenão o estóico, fundador (c. 336-264).

2642y081.

 

 

82. Zenão (- Z < T < ) o Estóico, dito também Zenão de Citium, nasceu pelo ano de 336 a.C., em Citium, Chipre. Veio para Atenas em 314 a.C. Criou sua escola cerca do ano 300 a.C. E morreu em 264 a.C.

Esta notícia vem através de Diógenes Laércio, o qual oferece ainda outros detalhes:

"Zenão, filho de Manasses e de Demea, nasceu na Ilha de Chipre, em Cítio, pequena cidade grega habitada por uma colônia de fenícios. Conta Timóteo de Atenas, nas Vidas, que tinha o pescoço inclinado para um lado, e Apolônio de Tiro diz que era magro, enfermiço e moreno. Tinha as pernas grossas, estava mal conformado e era franzino" (D. Laércio, VII,1).

Frequentou as lições da escola socrática menor dos cínicos, notadamente de Crates de Tebas; dali veio sua inspiração moralista, um tanto socrática, e seu rigorismo, característica dos cínicos, de que Antístenes e Diógenes de Sínope eram os mestres recém-falecidos, dos quais agora Crates (século 3-o.) se fazia continuador.

Atendeu também por cerca de dez anos à uma outra escola socrática menor, a dos megáricos, a que pertencia Estilpon, bem como ainda à escola dos platônicos Xenócrates e Polemon (D. Laércio, VII, 1). Teria tomado deles a divisão estóica das ciências em Lógica, Física, Moral (VII, 39).

 

Inicialmente preferiu Zenão a escola dos cínicos, representados a esta altura por Crates de Tebas, porquanto Antístenes de Atenas, o fundador, e Diógenes de Sinope já eram mortos:

"Eis como se uniu a Crates: chegou com um carregamento de púrpura da Fenícia, quando naufragou no Pireu. Tinha então trinta anos, subiu para Atenas e se estabeleceu junto ao comércio de um livreiro, quando viu ler o livro segundo das Memórias de Xenofonte. Cheio de admiração, perguntou onde viviam os homens que ensinavam tais coisas.

Crates teve a ocorrência feliz de passar naquele momento, e o livreiro o mostrou, dizendo-lhe: segue-o, e desde aquele momento se tornou discípulo de Crates. Não obstante, como era dotado de notável aptidão para a filosofia, jamais caiu na imprudência dos cínicos" (D. Laércio, VII, 2).

Adiante: "Seguiu por algum tempo os ensinamentos de Crates, e compôs durante este tempo sua República... Acabou por abandonar a Crates e seguiu durante vinte anos aos filósofos, aos quais nos temos referido" (D. Laércio VII. 4).

 

83. Passou finalmente ao ensino sistemático, apresentando-o de maneira popular e, ao que parece, com simpatia do público.

"Ensinava passeando sob o pórtico poikile e também sob o Peisianáktio, por causa das pinturas com que Polignoto o havia enriquecido (! < 6 V B J T < * ¬ ¦ < J ± B @ 4 6 \ 8 0 F J @ " J ± 6 " Â B , 4 F 4 " < " 6 J \ å 6 " 8 @ L : X < ® • B Î * Ą J ­ H ( D " N ­ H A @ 8 L ( < f J @ L B @ 4 6 \ 8 ® ).

Queria construir um lugar de calma e de paz, porquanto mais de mil e quatrocentos cidadãos haviam sido degolados durante a dominação dos Trinta. Seus discípulos se reuniam sob este pórtico para escutá-lo, e por isso se lhes deu o nome de estóicos, que tem designado também os herdeiros de suas doutrinas. No princípio se lhes chamava zenóicos ou zenonianos, segundo consta das cartas de Epicuro.

Não era novo o qualificativo dos estóicos, pois fora dado com anterioridade aos poetas que se congregavam neste pórtico, como diz Eratóstenes, no livro oitavo da Comédia Antiga. Os discípulos de Zenão não fizeram outra coisa que lhe dar novo esplendor" (D. Laércio, VII, 5).

A sabedoria de Zenão e a correção de sua vida, valeram-lhe uma estátua em Atenas; o mesmo lhe fizeram os compatriotas em Chipre e seus compatrícios residentes em Sidon.

 

"Somente se alimentava de pequenos pães, e um pouco de vinho bom. Não tinha relações amorosas com os jovens senão em tempos muito espaçados, e uma vez ou duas se aproximou a uma mulher pública, para demonstrar que não era inimigo das mulheres" (D. Laércio, VII, 13).

"Morreu à idade de 98 anos, sem haver sentido jamais enfermidade, nem achaques. Diz contudo Perseo em Conversações morais, que morreu aos 72 anos e que havia chegado a Atenas com 22. Presidiu à sua escola 58 anos, segundo Apolônio.

Eis como morreu: ao sair da escola, caiu e se lhe rompeu um dedo; golpeando então a terra com a mão, pronunciou este verso de Niobe: ‘Eis-me aqui; porque me chamas?’ E suspirando, morreu" (D. Laércio, VII, 28).

 

 

84. As obras de Zenão se perderam, como aliás também dos seus imediatos sucessores. A partir dos seus títulos se obtêm os temas que trataram, os quais se apresentam como sendo humanos e éticos.

Diz a informação de Diógenes Laércio:

"Seguiu algum tempo os ensinamentos de Crates, e compôs durante este período sua República, o que o fazia dizer que a havia escrito sobre o rabo do cachorro [isto é, enquanto frequentava aos cínicos, termo derivado de 6 b T < = cão].

Independentemente desta obra, deixou os seguintes tratados: Sobre a vida conforme à natureza; Das inclinações, ou da natureza dos homens; Das paixões; Do dever; Da lei; Da educação dos gregos; Da vista; Do universo; Dos signos; Da doutrina de Pitágoras; Teoria universal; Da dicção; Problemas sobre Homero, cinco livros; Da inteligência dos Poetas.

A estes diversos tratados é preciso acrescentar os intitulados: Artes; Soluções; Refutações, dois livros, À propósito de Crates; Ética. Tais são as obras de Zenão" (D. Laércio, VII, 4).

 

 

85. Como filosofia, o estoicismo de Zenão de Citium foi criado a partir da escola socrática menor de Antístenes de Atenas (c. 440-360 a.C.), e que viera a ser conhecida também por escola cínica, por causa do seu local de apoio, o ginásio Cinosargo, termo derivado de 6 b T < (= cão), significando a informalidade. A ela pertenceu Diógenes o Cínico, e agora está representada sobretudo por Crates (vd).

Como se sabe, o acento do socratismo está na moral, e que se tornou rígida no estoicismo. Asseverou que o único verdadeiro bem é a virtude, da qual decorre a felicidade. O homem racional é indiferente à dor, à doença, à morte.

Nos fragmentos restantes da obra República, se sugere a abolição dos templos, tribunais, ginásios, casamentos, moeda e formalismos similares.

Destaca o estoicismo a racionalidade do ser humano. Todavia será Crísipo (vd 93) o verdadeiro sistematizador dos tópicos centrais do estoicismo de Zenão.

 

§ 1. Cleantes e Crísipo, do Pórtico antigo. 2642y087.

 

 

88. Dentre os principais primeiros estóicos, um foi contemporâneo ao fundador Zenão (c. 336-264), ao qual entretanto sobreviveu, a saber, Cleantes (331-232 a.C.), e o outro foi Crísipo (281-208 a.C.), um jovem quando falecia o referido fundador, havendo sido todavia o organizador definitivo da escola.

Além destes dois principais primeiros estóicos, dos quais geralmente se ocupam os historiadores, se conhecem alguns outros nomes, por exemplo Esfero do Bósforo (D. Laércio, VII, 177-178).

 

89. Cleantes (5 8 , V < 2 0 H ) de Assos (331-232 a.C.). Proveniente de Assos, Ásia Menor, onde já era atleta, chegou a Atenas com apenas quatro dragmas, acercando-se, embora tardiamente, de Zenão. Continuou pobre, sofrendo privações, dedicado a um tempo a trabalhos servis e a outros, ao mesmo tempo que se aplicava à filosofia e à prática da virtude.

"Diz-se que, faltando-lhe dinheiro para comprar papel, escrevia nas conchas das ostras e nas omoplatas de boi o que ouvia a Zenão dizer. Isto lhe granjeou a consideração, elegendo-o Zenão para que o sucedesse na escola, apesar de ter tido muitos outros discípulos ilustres" (D. Laércio, VII, 174).

Fora 19 anos discípulo de Zenão (VII, 176). Havendo este falecido em 264 a. C., sobreviveu-o cerca de 32 anos, que terá sido o tempo que dirigiu a escola, portanto, de 264 à 232 a.C.

Já doente, Cleantes deixou-se morrer após um jejum voluntário, com 80 anos.

 

Escreveu muitas obras, das quais resta o catálogo, a partir do qual se pode apreciar os temas de que se ocupou:

"Deixou obras excelentes, como segue:

Sobre o tempo; Sobre fisiologia [filosofia natural] de Zenão, 2 livros; Exegese [interpretação] da doutrina de Heráclito, 4; Da sensação; Da arte; Contra Demócrito; Contra Aristarco; Contra Hérilo; Sobre as inclinações, 2; Sobre os Deuses; Sobre os gigantes; Do matrimônio; Do poeta; Do dever, 3; Do conselho; Da gratidão; Exortação; Das virtudes; Da habilidade [engenho]; A cerca de Gorgipo; Da inveja; Do amor; Da liberdade; Da arte de amar; Da honra; Da glória; Do político; Da deliberação; Das leis; Do litígio; Da educação; Da razão, 3; Do finalidade; Do belo; Da conduta; Da ciência; Da realeza; Da amizade; Sobre o Banquete; Sobre o tema que as mesmas virtudes convém ao homem e à mulher; Sobre o tema que o sábio deve sofisticar [ensinar]; Sobre usos; dissertações, 2; Do prazer; Das coisas particulares; Sobre problemas; Da dialética; Dos tropos; Dos atributos. Tais são as suas obras" (D. Laércio, VII,174-175). E um Hino a Zeus.

Restam algumas informações doxográficas sobre suas doutrinas.

Teve como discípulo a Esfero do Bósforo, autor de vários livros, mas foi seu sucessor na escola o célebre Crísipo de Soles ou Tarsos.

 

90. Apresentou-se com certa independência frente a Zenão. O frio intelectualismo estóico do mestre foi completado com um pouco de religiosidade, como se observa no seu Hino a Zeus.

Estabeleceu uma classificação das ciências (vd 154) em 6 partes, - dialética, retórica, ética, política, física, teologia. Ampliou, portanto, uma classificação em três, criada por Zenão.

 

92. Crísipo (O D b F 4 B B @ H ) de Soles(281-208 a.C.). Filósofo de expressão grega, nascido entretanto no interior da Síria, em Soles, ou Tarso, região da Sílicia. importante embora, dele pouco se sabe.

Dizia-se, entretanto, de Crísipo: "Se não existisse Crísipo, tão pouco existiria o pórtico" (D. Laércio VII, 180). Sua importância, era pois reconhecida já na antiguidade.

"Crísipo de Soles, ou de Tarsos, era filho de Apolônio. Depois de haver-se exercitado no estádio, seguiu as lições de Zenão, ou melhor as de Cleantes como asseguram Diógenes e a maior parte dos autores" (D. Laércio, VII, 179).

 

 

Administrativamente capaz e dotado de espírito critico, não demorou em estabelecer escola própria, finalmente absorvendo em torno de si o pensamento estóico, até porque foi também altamente produtivo de textos.

"Era dotado de extraordinário engenho e de um espírito tal de penetração, que nada lhe escapava. Também se encontrava frequentemente em desacordo com Zenão e com Cleantes, ao qual dizia muitas vezes que não tinha necessidade de ser instruído nos princípios e que sabia encontrar por ;si mesmo as demonstrações. Contudo reprovava a si mesmo estas discrepâncias e se o ouvira exclamar algumas vezes: estou completamente feliz, exceto sobre o que acontece a Cleantes; sob este ponto de vista não sou feliz!" (D. Laércio, VII, 179).

 

Foi escolarca desde 232 a.C. até seu falecimento em 208 a.C.

Teria morrido aos 73 anos.

 

93. Teve Crísipo também limitações, sobretudo didáticas.

"Era pequeno e de compleição delicada, como se vê na estátua na Cerâmica, quase toda encoberta pela estátua equestre que lhe está junto. Carnêades, fazendo alusão a este fato, o havia apodado Crísipo [= oculto por um cavalo]" (D. Laércio, VII, 182).

"Nas reuniões dos bebedores ele permanecia tranquilo, movendo só as pernas, o que fez com que um escravo lhe pusesse o reparo: - Em Crísipo somente se embriagam as pernas’" (D. Laércio, VII, 183).

 

Apesar de sua capacidade, era pouca a sua habilidade para falar, e desorganizada a sua redação, com excesso de citações, falta de arte e estilo, vaidade, além de maus costumes, o que abriu oportunidade a que fosse, a par da admiração de que era objeto, alvo de muitas críticas.

"Alcançou tal reputação como dialético, que se dizia, se os deuses tivessem um dialético, este seria Crísipo. Porém, se era fecundo seu espírito, em troca sua dicção era defeituosa.

Ninguém o igualou em constância e assiduidade ao trabalho, como sobejamente o provam seus escritos, que ultrapassam a setecentos e cinco. Esta multidão de obras, porém, versa, com frequência, o mesmo assunto; escrevia tudo o que lhe vinha ao pensamento; corrigia-se sem cessar e tumultuava seus escritos com uma multidão de citações.

A propósito se conta, que havia inserido em uma de suas obras a Medea de Eurípedes, quase inteira. Alguém que teve em suas mãos o escrito, lhe perguntou que escrito era aquele, e ele lhe respondeu: - A Medea de Crísipo!

Querendo Apolônio de Atenas provar que os escritos de Epicuro, isto é, os originais e não os compostos de peças acrescidas, são mil vezes mais numerosos que os de Crísipo, diz exatamente em sua Coleção de doutrinas:

- Se se tomam das obras de Crísipo tudo o que não é seu, todas as citações que ele inseriu, não restarão senão folhas vazias!

 

A velha que vivia com Crísipo assegurava, conforme diz Díocles, que escrevia regularmente quinhentas linhas diárias" (D. Laércio, VII, 180-181).

 

93. Escreveu muitíssimo, restando todavia só alguns fragmentos. Hoje se encontram reordenadas por J. von Arnim, Stoichorum Veterum fragmenta, t.II (Chrysipapi fragmenta lógica et physica, Leipizig 1903-1924).

Além dos fragmentos ocorrem as informações doxográficas. Assim, por exemplo, se conhece a psicologia de Crísipo e Panécio através do peripatético e médico Cláudio Galeno (vd 65).

 

Importam em quatro páginas os títulos das textos redigidos por Crísipo, e arrolados por Diógenes Laércio (VII, 189-202). Por eles se sabe dos temas que mais o ocuparam. São em número considerável os ensaios sobre a lógica, o que coere com sua fama de dialético; enuncia o mesmo historiador ainda alguns dos sofismas do famoso dialético (vd ).

 

 

94. Doutrinariamente, fundamentou Crísipo sistematicamente as teses principais do estoicismo antigo, ao mesmo tempo que dialeticamente as defendeu contra as posições contrárias, conforme seu gosto pela disputa.

Deu curso à lógica (vd 151), bem como à subdivisão da lógica em retórica e dialética.

Defendeu a Providência, tema peculiar ao estoicismo, no contexto da divindade como "Logos do mundo".

Distinguindo entre causas principais e causas auxiliares, buscou conciliar a liberdade individual com o determinismo universal, defendido pelo estoicismo. Do íntimo do sujeito individual deve brotar a sintonia com o Logos universal, sendo este acordo uma responsabilidade pessoal. Eis uma autonomia de difícil coerência no estoicismo demais sistemas filosóficos de monismo metafísico.

 


 
 


ART. 2o. O PÓRTICO MÉDIO:

PANÉCIO E POSSIDÔNIO.

2642y096.


 

 

97. Introdução. No 2o- e 1o- séculos a.C., já ao tempo da expansão romana para o Oriente, o estoicismo passou por uma fase de grande vigor, ainda que parecesse um revigoramento passageiro. Não demorou a vinda do Pórtico moderno, dominantemente latino, em que se transformou (vd 2642y107).

Comparado ao Pórtico antigo, passou o médio a ser mais tolerante, eclético, com aproximações ao platonismo e aristotelismo. O fenômeno já vinha sendo preparado por Diógenes e Antipater, mestres de Panécio.

Também Boetos de Sidon, o estóico (2-o séc. a.C.) (distinto do homônimo peripatético, vd 62), condiscípulo de Panécio, afastou-se das anteriores doutrinas estóicas da identidade de Deus com o mundo e da conflagração (¦ 6 B b D T F 4 H ) periódica do mundo, aproveitando-se ainda da psicologia e teoria aristotélica do conhecimento.

 

O Pórtico médio veio ainda marcado pela universalidade nos estudos e gosto literário, tratamento de assuntos humanos e ordem social, - tudo ao gosto romano.

Finalmente o Pórtico médio foi o estoicismo que aportou em Roma, e ficou. De outra parte, o estoicismo assimilou agora o espírito prático dos romanos, em troca do acentuado idealismo das posturas do Pórtico antigo.

 

98. Panécio (A " < " \ J 4 @ H ) de Rodes (c. 185-110 a.C.). Nascido na Grande Ilha frente à Ásia Menor, cedo se ligou a Cipião Emílio na época em que se iniciava a expansão do Império Romano para o Oriente. Em 143 (ou 142) Panécio acompanhou a Cipião à Alexandria e à costa ocidental da África.

Depois Panécio de Rodes se estabeleceu em Roma. Coube-lhe difundir o estoicismo entre os romanos, divulgando-o com sucesso, dado o círculo aristocrático de amizades que conseguiu: - Cipião o Menor (o Africano), o sumo sacerdote Múcio Scevola, o amigo Lélio, Estilão, mestre de Varrão, Rutílio, Rufo e outros. Pouco depois se percebe a presença de Panécio em texto de Cícero Sobre os deveres (De officiis).

Por último Panécio fixou-se na Grécia, onde dirigiu a Escola de Atenas de 129 a 110 a. C., quando faleceu. Teve a fama de haver sido um dos representantes mais significativos do estoicismo médio.

 

Escreveu sobre o ócio, a tranquilidade da alma e a providência, temas próprios para o espírito romano, destacando-se os títulos:

Do dever (A , D Â 6 " 2 Z 6 @ < J @ H );

Da Providência (A , D Â B D ` < @ 4 " H );

um comentário ao Timeu de Platão.

Cícero se inspirou em Do dever de Panécio para escrever seu De officiis (vd 377).

 

Restaram apenas fragmentos e referências doxográficas, impressas em diferentes oportunidades: Fowler, - Panetii et Hecatornis librorum fragmenta collegit praefationibus illustravit Haroldus N. Fowler, 1885; R. Fhilipson, - Panaetiana, Reinischens Museum, 77 (1929), 337-60; M. van Straaten, Panetii Rhodii Fragmenta, 1952, com edição ampliada, 1962.

 

 

99. Abandonou a doutrina da ¦ 6 B b D T F 4 H (ou conflagração), que concebia o mundo como fogo que se constrói e se reconstrói, com eterno retorno. Em troca, adotou o ponto de vista aristotélico da matéria eterna.

Mas, contra Panécio, retomará Possidônio a doutrina da ekpyrosis (vd 104).

 

100. O ser humano tem um componente físico, a physis, e outro anímico, a psyché.

Na alma ocorrem duas forças opostas, - de um lado a vegetativa, sensitiva, e de outro a racional, - que se encontram em conflito.

 

101. Em ética, amenizou Panécio a rigidez idealizada do estoicismo antigo, em troca de um humanismo, o qual, ao lado da rigidez da razão teórica, admite a razão prática, que leva em conta o caráter cambiante dos fatos. Abandonou por conseguinte a apatia e a mortificação, em troca da alegria de viver.

O fim da existência está no aperfeiçoamento individual, pela aquisição da virtude, tendo por norma a natureza. Deve-se viver segundo as disposições que ela colocou em nós.

Aderiu às doutrinas políticas de Platão e Aristóteles, advertindo para as formas mistas de governo.

Manifestou-se contra os mitos e a adivinhação.

 

103. Possidônio (A @ F , 4 * f < 4 @ H ) de Apamea, Síria (c. 135-50 a.C.), também do Pórtico médio. Foi discípulo de Panécio de Rodes em Atenas. Fundou escola em Rodes, onde Cícero o ouviu e Pompeu o conheceu. Por último se estabeleceu em Roma. Diógenes Laércio também o citou ligeiramente, como estóico (X, 4).

De sua obra restam apenas fragmentos e suas doutrinas se conhecem sobretudo através de Cícero (De natura deorum; De divinatione).

No campo das ciências experimentais, Possidônio de Apamea escreveu sobre história, geografia, astronomia. Neste particular foi mesmo bastante citado por outros autores.

Redigiu uma enciclopédia, de que nada restou. Também se citam Dos deuses; Dos meteoros; do oceano; das afecções; do dever.

 

104. Doutrinariamente, Possidônio de Apamea foi um espírito bastante universal, tanto pela temática generalizada, como pela abertura em relação ao aristotelismo e platoniano, como ainda pela sua visão humanista.

Inclinado Possidônio para o aristotelismo e o platonismo, como o fizera também seu mestre Panécio de Rodes. Todavia não acompanhou a este na rejeição da ekpyrosis, ou conflagração; manteve Possidônio a tese defendida pelo estoicismo antigo.

A evolução da realidade é contínua, embora este progresso cósmico se faça pelo duplo caminho, ora descendente, ora ascendente

 

Tendeu para o dualismo de Platão, cm a preexistência e imortalidade das almas separadas. É a alma uma espécie de raiz universal, e está em forte contraste com o corpo.

Defendeu os mitos e a adivinhação, - aqui mais uma vez contrariando à Panécio. Tudo é concebido num sentido cósmico e religioso à maneira de Heráclito. Os contrários se equilibram progressivamente e organizam a realidade, desde o mais simples material, até o divino.

 

 

 
 


ART. 3o. O PÓRTICO MODERNO,

ou DOMINANTEMENTE LATINO:

SÊNECA, EPICTETO, MARCO AURÉLIO.

2642y107.


 

 

108. Introdução. Desembarcado em Roma como Pórtico médio, devolveu-se imediatamente como um Pórtico moderno, no curso do Império. O pórtico moderno apresenta características também romanas, no sentido de dominantemente latinas, e chegou mesmo a ser a filosofia principal do tempo. Houve os que escreveram alternativamente em grego e em latim.

Os principais representantes da Stoá, em língua latina, não se sobressaíram pela profundeza de suas investigações, mas pela exposição eloquente e pessoal das doutrinas.

Em virtude da superficialidade derivavam por vezes para o ecletismo, arrimado tão só no bom senso.

 

Representantes do Pórtico moderno:

Lúcio Aneo Sêneca (3-65 d.C) (vd 109);

Mussônio Rufo de Volsinio (25-80) (vd 113);

Epicteto (c. 50 - c.138) (vd 116);

Marco Aurélio (121-180) (vd 120).

 

Quanto a Marco Túlio Cícero (106-43 a. C.) (vd 377), apesar de suas ligações com o estoicismo, foi mais um homem da Nova Academia, cujo probabilismo adotou.

 

109. Lucius Aneus Sêneca (3-65). Nascido de família latina, deslocada para Córdoba, Espanha, dali veio cedo para Roma, onde estudou com mestres estóicos.

Foi Sêneca educador, advogado, político.

Esteve 8 anos deportado na Ilha de Córsega, acusado de relações com uma irmã de Calígula. Pôde retornar em 49, por influência de Agripina, após casada com o imperador Cláudio.

Teve influência sobre Nero. Mas acusado de envolvimento na conspiração contra este Imperador, foi condenado à morte (Tácito, Annalia, XV, 60-64).

 

110. Obras. Um grande número se conservaram.

São mais caracterizadamente filosóficas, entre as que se conservaram:

De providentia;

De constantia Sapientis;

De ira;

De brevitate vitae;

De otio;

De vita Beata;

De tranquilitate animae, com caráter de diálogo, em que reaparece particularmente o estoicismo mais antigo;

De beneficiis;

De clementia, em que se observa a consuística de Hecaton e outros estóicos posteriores;

Quaestiones naturales, influenciada por Possidônio do pórtico médio, abordando geografia, astronomia, meteorologia;

Epistolae morales ad Lucilium de caráter eclético.

 

São de caráter literário, ainda que de fundo estóico, as tragédias, que levam a vantagem de haverem sido escritas na língua latina, embora o tema fosse o clássico dos gregos:

Hércules furens;

Troades (ou Hecuba);

Phoenissae (ou Thebais);

Medea;

Phaedra (ou Hippolytus);

Agamemnon;

Thyestes;

Hercules Octaeus

 

Conservam-se ainda 70 epigramas, sobre cuja autoria contudo se controverte, sendo todavia da época romana.

Quanto às obras perdidas, conservam-se os títulos, os quais são uma janela aberta sobre os temas versados por Sêneca:

Moralis philosophiae libri; De motu terrarum; De lapidum natura; De forma mundi; De situ Índiae; De situ et sacris Aegiptiorum; De officiis; De immatura morte; Exortationes; De superstitione; De matrimonio; De amicitia; De remediis fortuitorum ad Gallionem.

 

A obra filosófica de Sêneca foi organizada e publicada por F. Haase (Leipzig 1862-78). A nova edição Teubner, por uma comissão, iniciou em 1898. Seguiram-se edições bilingues em francês, inglês, espanhol e outras línguas.

 

111. Filósofo e literato, em muito superou aos demais latinos que o precederam em assuntos de filosofia. Com ele rivalizou Marco Túlio Cícero (106-43a. C.), o qual entretanto se encaminhou mais para o probabilismo da Academia, do que para o estoicismo, que todavia também o influenciou. Aliás Sêneca é o primeiro autor estóico, do qual restam muitas obras. Por ele se faz conhecer todo um contexto que lhe foi anterior.

Sêneca, ainda que sem abandonar o monismo estóico, destaca a posição da divindade, como princípio consciente do universo, ao mesmo tempo que providente.

Sem desfazer a validade teórica do saber, destoou Sêneca a necessidade de ir até o uso prático da sabedoria: "philosophia autem et contemplativa et activa" (Epistola, 95).

 

113. Mussônio Rufo (25-80). Nascido em Volsinios, Etruria, Itália. Aristocrata romano. Destacou-se como orador. Praticou o magistério e cultivou a filosofia dos estóicos.

Acusado de conspirar contra o Imperador Nero, este o desterrou, em 65. Sob Vitélio, ou somente sob Tito (79-81), pôde retornar a Roma.

 

Escreveu Memórias (! B @ : < , b : " J " ), anotadas por Lúcio.

Restam fragmentos de seus escritos no Florilégio de Stobeu. Lêem-se em edição moderna de O. Hense, Reliquiae (Teubner, Leipzig, 1905).

 

114. Ocupou-se Mussônio Rufo particularmente da ética estóica, havendo sido um moderado, como fora a tendência do Pórtico moderno.

Sua máximas se orientam para a vida do dia a dia. Conservou algo do cinismo e está próximo também do sentir de Sêneca. Há mesmo os que o comparam com Clemente de Alexandria.

Epicteto, que foi seu escravo, deu continuidade a diversos dos seus pensamentos.

 

116. Epicteto (+ B \ 6 J 0 J @ H ) (50-138). Nascido em Hierápolis, Frigia (Ásia Menor). Filho de uma escrava, foi por sua vez vendido como escravo, para Roma, onde passou a juventude. Foi-lhe dado estudar, em vista de sua inteligência, na escola de Mussônio Rufo.

Libertado pelo seu Senhor, passou Epicteto também a lecionar. Estabeleceu finalmente, aos 40 anos, escola própria.

Dado o decreto do Imperador Domiciano (88-89, ou 92-93), que expulsava de Roma os filósofos, foi estabelecer-se em outras bandas. Finalmente estabeleceu uma escola no outro lado do Adriático, em Nicópolis (Épiro, junto à Grécia), cerca do ano 138, já no final de sua vida.

 

117. O pensamento de Epicteto se conservou nas lições colhidas por Arriano, um chefe militar que se fizera seu discípulo.

As obras de Epicteto, redigidas em grego, compreendem:

Dissertações () 4 " J D \ $ " 4 ), 8 livros, dos quais restam 4, sobre moral;

Manual (+ ( P , 4 D \ * 4 @ < ), resumo da moral das Dissertações;

Homilias (‘? : 4 8 \ " 4 ), ou Conversações, que se perdeu;

Recordações (‘' B @ : < Z : " J " ), de Epicteto, que lembra Memorabilia de Sócrates de Xenofonte, sendo duvidoso que fosse escrito por Arriano.

 

118. Doutrinariamente Epicteto se propôs expor a moral que vem desde Sócrates até Crísipo, o estóico.

"Como a hora é parte do dia", o homem é parte do universo. A razão é idêntica a Deus, que tudo governa.

O homem é livre, pela sua independência interior frente aos afetos. Em função desta autarquia o homem conduz-se retamente, e alcança a felicidade.

Deus, como inteligência suprema, é também Providência.

Não há originalidade em Epicteto, o qual teve todavia muita habilidade para selecionar o melhor que havia no eticismo estóico (vd 182).

 

120. Marco Aurélio (121-180). Imperador Romano, de 161 a 180. Nascido em Roma, teve excelente formação humanística (Homero, Hesíodo, trágicos), artística (desenho, pintura), retórica e filosófica, com vistas sobretudo ao estoicismo.

Como Imperador, esteve em Atenas, onde se empenhou pelas escolas.

Escreveu, em grego, Pensamentos, em 12 livros. Este título, como se costuma denominar seu livro, é uma tradução livre do equivalente grego I Ź ¦ 4 H , " L J ` < (= A si próprio). Traduz-se melhor por Reflexões para si mesmo.

 

A obra de Marco Aurélio se aproxima do gênero literário do diário, como se fosse um diário filosófico, no qual as preocupações de maior profundidade são examinadas à luz de parâmetros mais gerais, e que são os da filosofia estóica.

 

121. O pensamento de Marco Aurélio se alinha com o de Sêneca e Epicteto. A racionalidade penetra pela realidade total. O todo é a divindade, em tudo presente.

Por isso a linguagem de Marco Aurélio assume as vezes o caráter religioso.

 

Escritas com alma de estóico talvez mais apurada do que a obra de Mussônio Rufo e Epicteto, embora não tenha a mesma penetração especulativa, as Reflexões são uma obra das mais representativas do estoicismo. Unindo o científico ao prático, como já acontecia às de Sêneca, as Reflexões de Marco Aurélio mantêm-se num plano bem acessível à compreensão.

 

123. Poeta estóico Quinto Horácio (65-8 a.C.). Como concepção, o estoicismo comanda ainda o pensamento e o sentir de muitos poetas romanos, como Horácio e Pérsio.

Inicialmente epicurista, o poeta Quinto Horácio passou ao estoicismo, o qual está coerente com o classicismo de sua arte.

A mesma influência estóica se faz sentir nos versos de Pérsio Flaco (34-62).

 

125. Heráclito o Estóico é um pensador situado nos últimos tempos do pórtico médio e começo do moderno, pelo tempo de Augusto. Seu Problemas homéricos (‘? : 0 D 4 6 Ź B D @ $ 8 Z : " J " ), de que restam fragmentos (Edição da Sociedade de Filologia de Bon, Leipzig, 1910).

Fez uma acomodação da mitologia com o estoicismo.

 

126. Lucius Anneus Cornutus foi autor estóico situado em meados do I séc. d. C.. Nasceu em Leptis, ou Testis, Líbia, na então África grega. Desterrado para uma Ilha, ao tempo de Nero, e liberado em 66.

Escreveu um Compêndio de teologia helenística (+ B 4 * D @ : ¬ J ä < 6 " J Ź J ¬ < ş 8 8 0 < 4 6 ° < 2 , @ 8 @ ( \ " < B " D " * , * @ : X < T < ) (Ed. de F. Osann, Gott. 1844; Edição Teubner de C. Lang, 1881).

Tratou da mitologia, à semelhança dos Problemas homéricos de Heráclito o Estóico. Usou a linguagem alegórica, por exemplo, chamando Zeus à alma do mundo. Este modelo de linguagem já vinha sendo tratada desde tempo pela exegese homérica, e passaria também ao uso judeu (Filon) e cristão (Orígenes).

 

127. Cleomedes (II séc. d.C.) é autor de Teoria dos movimentos circulares dos corpos celestes (5 L 6 8 ¬ 2 , T D \ " : , J , f D T < ), tratado de astronomia com base estóica, de acordo com Possidônio.

 

 

128. Ario Dídimo (fim do século I a.C.), mestre de Augusto. Foi estóico, com tendências ecléticas. De sua obra restam apenas fragmentos em Estobeo (Cf. Diels, - Doxogr. 445 ss).

 

 


 
 


ART. 4o. O ESTOICISMO COMO UM TODO DOUTRINÁRIO.

2642y131.


 

 

132. Introdução. O espírito de escola é bastante acentuado em alguns sistemas filosóficos.

O pitagorismo foi um primeiro exemplo disto. Algo similar acontece agora com o estoicismo.

Algumas teses são mais firmes, outras menos. Todavia todas contêm algo típico, e que as fazem ser estoicistas.

Em cada plano se pode falar em contribuição do estoicismo à filosofia.

Destacam-se as teses:

- A lógica dos estóicos. 2642y140.

- Contribuição dos estóicos para os estudos gnosiológicos. 2642y156.

- Interpretação hilemorfística panteísta da natureza. 2642y161.

- Psicologia do estoicismo. 2642y173.

- A ética dos estóicos. 2642y182.

 

133. O estoicismo retomou em gnosiologia o sensismo, em metafísica o materialismo, em ética a predileção socrática pelos temas morais em ligação histórica através do cinismo.

 

A ligação histórica com o moralismo socrático se processou através de Crates de Tebas, destacado mestre cínico, de quem Zenão o estóico se fez discípulo. Embora tenha frequentado também a Estilpon, Xenócrates e Polemon, influenciou-se o fundador do estoicismo através principalmente de Crates, o cínico.

Entretanto, não foi o estoicismo apenas um prolongamento do cinismo. Evoluiu sobre este, aproveitando mesmo materiais recebidos dos platônicos, como a divisão das ciências de Xenócrates, e materiais recebidos dos aristotélicos, como a detalhada exposição da lógica.

 

 

§ 1. A lógica dos estóicos. 2642y134.

 

 

135. O notável desenvolvimento que os estóicos deram à lógica, fundada por Aristóteles, se estendeu pelas suas diversas partes, - a lógica geral, sobre as operações mentais, como a lógica especial, envolvendo a classificação das ciências e seus métodos.

Ultrapassou a lógica do conhecimento praticada pelos estóicos os seus próprios limites, passando à gnosiologia ou seja à crítica do conhecimento. Outras vezes ainda incluiu a retórica e a gramática.

 

Apesar do juízo negativo de alguns primeiros historiadores modernos, o valor das investigações lógicas dos estóicos foi recebendo cada vez mais receptividade. Isto quer dizer que os estóicos haviam prosseguido na subtil ciência criada por Aristóteles; se nem sempre o adotaram, em alguns pontos o prosseguiram, completando-o.

O texto detalhado da lógica estóica transmitido por Diógenes Laércio nos revela importantes peculiaridades; mas não se sabe até onde Laércio conheceu a lógica de Aristóteles, visto que a ela só aludiu, sem expô-la. Mas parece que expôs mais detalhadamente a lógica estóica porque esta escola de fato muito se havia ocupado com ela.

Como já se adiantou, o empenho dos estóicos pela lógica vinha em função à moral; achavam mesmo que a lógica exercia notável importância ética. Concluiu Diógenes Laércio, ao encerrar sua exposição da lógica estóica:

"Tanta importância dão os estóicos à lógica, que se empenham acima de tudo em estabelecer que o sábio deve necessariamente ser dialético. Por meio da lógica, dizem, conhecemos todo o relativo à linha e à moral; é ela que nos ensina a determinar o valor exato dos nomes, sem ela, enfim, não se poderiam discutir as regras impostas às ações; porque a virtude supõe duas condições: o conhecimento das coisas e das palavras" (D. Laércio, VII, 83).

 

I - Contribuição dos estóicos para a lógica geral. 2642y137.

 

 

138. Retomando em alguns pontos a Aristóteles, contrariando-o em outros, prosseguiram os estóicos o adiantado estado em que o Estagirita deixou os estudos lógicos.

Como Aristóteles, a operações mentais vistas pelos estóicos no pensamento são três: juízo, conceito, raciocínio.

 

139. O conceito é o elemento de que se compõe o juízo. "Aqui o estoicismo concorda com Aristóteles, mas o completa com maior exatidão. O conceito Aristóteles o considera do ponto de vista da palavra. Agora se distingue a palavra como simples sinal, o conceito como o expressivo do conteúdo do pensamento e o objeto que ele significa" (Hirschberger, Hist. da Fil.. c. 3, 1 A b pag. 222).

Importa considerar que no período helênico houve um geral desenvolvimento dos estudos de gramática, e que se refletiram na lógica; inversamente os estudos da lógica terão influenciado à gramática.

Efetivamente, os estóicos dedicaram-se com cuidado à gramática que conservaram ainda no próprio contexto da lógica. Acresceram às três classes de palavras de Aristóteles ainda o artigo (– D 2 D @ < ). Sabe-se que Aristóteles tratou da palavra, em Da interpretação (Organon, livro II) definiu o som, o nome, o discurso e o verbo.

 

A doutrina estóica correspondente foi retransmitida por Diógenes Laércio em texto meticuloso:

"A palavra (8 X > 4 H ), segundo Diógenes, é a voz articulada: por exemplo o vocábulo dia.

Os elementos das palavras são as letras em número de vinte e quatro...

A voz difere da palavra, porque se clama voz a um som qualquer enquanto que a palavra se aplica somente a sons articulados.

A palavra difere também do discurso, porque este expressa sempre alguma coisa, enquanto que a palavra pode não ter sentido algum, por exemplo a palavra Blitiri.

Existe também diferença entre dizer e proferir: se profere um som; se diz uma coisa, quando esta pode ser expressada.

Diógenes, no tratado da Voz , e Crísipo distinguem cinco partes no discurso: nome, apelação, verbo, conjunção, e artigo.

Antípatro acrescenta o qualificativo, no tratado da Expressão e em coisas expressadas.

O nome comum, ou apelativo (B D @ F 0 ( @ D \ " ), segundo Diógenes, é uma parte do discurso (: X D @ H 8 ` ( @ L ) que expressa uma qualidade comum à vários seres: homem, cavalo (em gramática moderna equivale ao nome comum).

O nome (Ð < @ : " ) é uma parte do discurso (: X D @ H 8 ` ( @ L ) que expressa uma qualidade particular: Diógenes, Sócrates [em gramática moderna seria o nome próprio].

O verbo (Ö ­ : " ) é, de acordo com Diógenes, uma parte do discurso (: X D @ H 8 ` ( @ L ) que expressa um atributo não complexo; outros dizem: um elemento indeclinável do discurso, que expressa alguma coisa acrescenta à idéia de um ou de vários objetos, por exemplo: eu escrevo, eu falo.

A conjunção (F b < * , F : @ H ) é uma parte indeclinável do discurso que une diversas proposições.

O artigo (– D 2 D @ < ) é um elemento declinável que serve para determinar o gênero e o número dos nomes, tais as palavras: o, e duplo (tó, oi, ai, tá)" (D. Laércio, VII, 55-58).

 

140. No esforço de classificar os conceitos, os estóicos, tal como Aristóteles, fizeram duas sequências de considerações, ora sobre os categoremas (ou maneiras de predicar), ora sobre as categorias (ou classes efetivas de predicar).

Os resultados nestes dois planos ganharão finalmente consistência com o neoplatônico Porfírio o Fenício (c. 232 - c. 304), autor da Eisagogé (=Introdução ) às categorias de Aristóteles), em que aparece finalmente a assim denominada Árvore Porfiriana (vd 538).

Em Porfírio surge a lista clara de 5 categoremas – gênero, espécie, diferença específica, propriedade, acidentes, - e a lista das 10 categorias – substância, relação, qualidade, tempo, quantidade, lugar, posição, ação, paixão, haver.

Sobre este fundo pode-se examinar o que Aristóteles e os estóicos disseram de igual e de não claramente diferente.

 

141. O estudo dos categoremas pelos estóicos está informado dispersivamente nos textos de Diógenes Laércio:

 

"A definição [ou termo, limite] (Ô D @ H ), segundo Antípatro, no livro primeiro Das definições (A , D Â Ó D T < ), diz que ela é uma proposição analítica, que dá a idéia completa das coisas.

Crísipo, no tratado Das definições diz que é uma explicação (Æ * 4 @ L • B ` * @ F 4 H ).

A descrição (ß B @ ( D " N Z ) é um discurso, que, mediante uma pintura viva, nos coloca em meio do objeto; uma definição mais precisa pode ajudar a compreender o valor de outra definição.

O gênero é o conjunto de várias idéias estreitamente ligadas entre si; tal é o gênero animal que corresponde à todos os animais particulares.

A idéia (¦ < < ` 0 : " ) é representação da inteligência (N V < J " F : " * 4 " < @ \ " H ), que, sem ser um objeto real, nem uma qualidade, parece ser ume outra coisa. Assim, por meio da idéia, se representa um cavalo, ainda que não esteja presente.

A espécie (, Ç * @ H ) é o que se compreende sob o gênero (ß B Î J @ Ø ( X < @ L H ): o homem, por exemplo, está compreendido sob o animal. O gênero supremo é aquele que não tem outro acima.

O gênero é o máximo (( X < @ H * X ¦ F J Â B 8 , 4 ` < T < ) é aquele que, sendo ele um gênero, não têm outro acima; ou seja, a realidade, ou o real.

A espécie mais particular (, Æ * 4 6 f J " J @ < ), é aquela que não encerra a outra, por exemplo Sócrates.

Divisão (* 4 " \ D , F 4 H ) de um gênero é decompô-lo nas várias espécies que estão compreendidas nele: entre os animais, uns são racionais, outros estão desprovidos de razão" (D. Laércio, VII, 60-61).

 

142. As categorias de conceitos foram simplificadas para um menor número, pelos estóicos, em relação à lista de dez, formulada por Aristóteles.

Se para este as categorias se distinguiam em modos irredutíveis, para os estóicos, elas se dividem de maneira que as posteriores sejam contidas pelas anteriores.

São apenas quatro as categorias: a substância (J Î ß B @ 6 @ 6 , \ : , < @ < ), a qualidade (J Î B @ 4 ` < § P T < ), o modo de ser (J Î B ä H § P T < ), o modo de ser relativo a algo (J Î B D ` H J 4 B f H § P T < ).

 

143. O juízo, ou segunda operação mental, também é examinado pela lógica dos estóicos.

"Os juízos podem definir-se: o que é verdadeiro ou falso.

Crísipo o define assim em Definições dialéticas uma enunciação completa que expressa por si só um sentido perfeito, afirmativo ou negativo, como por exemplo: é de dia; Dion passeia.

O nome [grego] de juízo (• > \ T : " ) vem de que nele se julga, se a coisa é verdadeira ou falsa; porque aquele que diz - É de dia, - parece julgar que efetivamente é de dia. Se realmente é de dia, o juízo é verdadeiro, falso em caso contrário" (D. Laércio, VII, 65-66).

 

144. A divisão e classificação das proposições é também tratada pelos estóicos, em especial por Crísipo:

"Há diferença entre juízo, interrogação, questão, proposição interrogativa, proposição adjurativa, imperativa, hipotética, apelativa e falso juízo" (D. Laércio, VII, 66).

Define-se a seguir cada tipo indicado:

"Dá-se o juízo, quando enunciamos uma coisa, afirmando que é verdadeira ou falsa.

 

O interrogativo é uma enunciação completa, como o juízo, reclamando porém uma resposta; por exemplo – É de dia? Esta proposição não é verdadeira, nem falsa. Assim, - É de dia, - expressa um juízo. – É de dia? – expressa uma interrogação.

 

A questão é uma proposição a que não se pode responder precisamente por um sim ou por um não, como na interrogação, senão que ela reclama uma explicação, no gênero desta, - Ele habita em tal lugar.

Ocorre uma proposição imperativa, quando o enunciado encobre um mandato, - Vá-te às ribanceiras de Inaco.

Uma proposição é apelativa..., quando se nomeia a coisa a que se dirige, como – Ilustre filho de Atrea, rei dos homens, Agamenão.

 

É falso juízo uma proposição que, apesar de ter a aparência de um juízo, perde este caráter pela adição, e sob a influencia de qualquer partícula, por exemplo, - A habitação das virgens (B " D 2 , < f < ) é formosa, sem dúvida, como este vaqueiro se parece ao filho de Príamo.

A proposição dubitativa difere do juízo em que é sempre enunciada em forma de dúvida, - O enfado e a vida são por ventura uma mesma coisa?

As interrogações, as questões e as outras proposições análogas tem o caráter comum de não serem verdadeiras e nem falsas, enquanto que os juízos são necessariamente verdadeiros ou falsos" (D. Laércio, VII, 66-68).

 

Outras divisões são também apresentadas:

"Segundo Crísipo, Arquedemo, Atenodoro, Antípatro e Crinis, os juízos podem ser simples e não simples.

Os juízos simples encerram uma enunciação positiva sem nenhuma condição, como: É de dia;

Os juízos não simples são aqueles nos quais entra uma condicional: Se é de dia, ou que são compostos de várias proposições: Se é de dia, há claridade.

 

Os juízos simples se redividem em enunciativos, negativos, privativos, atributativos, definidos e indefinidos.

 

À classe oposta pertencem os juízos conjuntivos, adjuntivos, copulativos, disjuntivos, causais, aumentativos e diminutivos" (D. Laércio, VII, 68-69).

 

145. Prossegue o texto anteriormente citado, com subtis redivisões, de que cuidou a lógica dos estóicos:

"Eis o exemplo de um juízo enunciativo, - Não é de dia.

Uma das variedades desta forma é o juízo sobreenunciativo, que contém a negação da negação, como – Não é não de dia, - o que significa, É de dia.

 

O juízo negativo se compõe de uma partícula negativa e de um predicado, como em – ninguém está passeando.

O juízo privativo está composto de uma partícula privativa, e de uma proposição contendo o caráter de juízo, - Este homem é inumano.

O juízo atributivo consiste em um sujeito ou nominativo e em um predicado, - Ele passeia.

O indefinido é aquele em que entram uma, ou mais partículas indefinidas, - alguém passeia; aquele se move.

 

Entre os juízos não simples, o juízo conjuntivo [hipotético], conforme Crísipo em sua Dialética, e Diógenes, em Arte da dialética, é aquele em que entra a partícula conjuntiva se (condicional), indicando que o segundo membro é consequência do primeiro, - Se é de dia, há claridade.

Crinis, em sua Arte dialética, define assim ao juízo adjuntivo: Naquele no qual entram dois juízos distintos, unidos pela partícula conjuntiva Posto que, Suposto que, como – Posto que é de dia, há claridade. Neste exemplo a conjunção indica, que o segundo membro segue ao primeiro, e que este é verdadeiro.

O juízo copulativo é aquele no qual os diversos membros se unem mediante alguma conjunção copulativa, - É de dia e há claridade.

O Juízo disjuntivo é aquele em que os membros estão separados pela disjuntiva ou, - É de dia, ou é de noite. Neste juízo, uma das duas proposições é falsa.

O juízo causal leva a conjunção porque, ou outra análoga, - Porque é de dia, há claridade. O primeiro membro é causa do segundo.

O juízo aumentativo é construído com uma partícula argumentativa intercalada entre os dois membros, - É mais de dia que de noite.

O juízo diminutivo procede ao contrário do precedente, - É menos de noite, que de dia" (D. Laércio, VII, 69-73).

 

146. Sobre a verdade dos juízos. Continua ainda o texto:

"Com referência à verdade e a falsidade os juízos se opõem entre si, em virtude do que um é o negativo do outro, - É de dia e não é de dia.

O juízo conjuntivo [hipotético] é verdadeiro, quando o oposto ao último termo é contraditório ao primeiro, - Se é de dia, há claridade. Este mesmo juízo é falso, quando o oposto ao último termo não é contraditório do primeiro, - Se é de dia, Dion passeia. A proposição Dion não passeia não é contraditória em é de dia.

 

O juízo adjuntivo é verdadeiro quando partindo de uma proposição verdadeira, dá lugar a outra que segue logicamente da primeira: Posto que é de dia, o sol está sobre a terra; é falso quando parte de um juízo falso, ou quando a conclusão não é consequência de um princípio; por exemplo; se se diz durante o dia: Posto que é noite, Dion passeia.

 

O juízo causal é verdadeiro quando, partindo de uma proposição verdadeira, dá lugar a uma outra que é consequência daquela sem que por isso a primeira possa seguir-se da última; por exemplo: Por ser de dia, há claridade; de que seja de dia, se deduz que com efeito haja claridade; porém de que haja claridade não se deduz que é de dia.

O juízo causal é falso, quando o primeiro termo é falso, ou quando o segundo não é consequência do primeiro, ou então quando o primeiro é consequência do último; por exemplo: Porque é de noite, Dion passeia" (D. Laércio, VII, 69-).

 

147. Prossegue Diógenes Laércio expondo considerações sobre o juízo especioso, o que indica a aplicação sistemática dos estóicos à lógica formal.

Trataram ainda da transformação da proposição verdadeira em outra falso, e da conversão em geral (D. Laércio, VII).

 

 

148. O raciocínio, em particular o silogismo, foram especialmente tratados pelos estóicos, sendo sua algumas inovações terminológicas.

Os membros do silogismo aristotélico (Maior, menor, conclusão) são conservados:

"O raciocínio, diz Clinis, é composto de um ou vários lemas, de uma assunção e de uma conclusão:

Se é de dia, há claridade;

é assim que é de dia;

logo há claridade.

Lema: Se é de dia, há claridade.

Assunção: logo há claridade" (D. L., VII, 76).

 

149. "O tropo é um raciocínio reduzido à sua forma lógica: Se o primeiro é verdadeiro, também o será o segundo; é assim que o primeiro é verdadeiro, logo também o segundo.

O logotropo é composto de um raciocínio e um tropo: Se Platão vive, Platão respira; é assim que o primeiro é verdadeiro, logo também o segundo.

Tem por objetivo o logotropo evitar, em um raciocínio demasiado vasto, a repetição da assunção e da conclusão, substituindo as por formas abreviadas: o primeiro é verdadeiro, logo também o segundo" (D. L. VII, 76-77).

 

150. "Os raciocínios são concludentes e não concludentes... " (D. L. VII, 77-78).

 

151. Trataram os estóicos detalhadamente dos silogismos disjuntivos e hipotéticos, como se vê em uma página longa de Diógenes Laércio.

 

152. "Distinguem também os raciocínios insolúveis, aos quais dão diversos nomes: o coberto, o dissimulado, o sorites, o cornudo, em nenhum lugar" (D. Laércio, VII, 82).

 

II - Divisão estóica das ciências. 2642y154.

 

 

155. No contexto grego clássico, sobretudo dos estóicos a divisão da ciência (termo latino posterior) é o mesmo que divisão da filosofia.

Embora coubesse a Xenócrates (escolarca da Academia de 338 a 314) a primazia de ter dividido a filosofia em três partes, - física, moral e lógica, - era convicção dos antigos, que tal divisão procedia de Zenão o estóico, um pouco mais recente.

 

Não deixou, entretanto, de ter sentido tal atribuição, dado que as preocupações lógicas e epistemológicas se encontravam nos cuidados do Pórtico.

 

As informações de Diógenes Laércio sobre a divisão estóica da filosofia, ou; seja, da ciência, são dispersivas, porque embora bastante descritivas, não destacam o ponto de vista adotado:

"Os estóicos dividem a filosofia em três partes I D 4 : D ­ N " F Â < , § < " 4 J Î < 6 " J Ź N 4 8 @ F @ N \ " < 8 ` ( @ < ) : física (N L F ` < ), moral (˛ 2 4 6 ` < ) e lógica (8 @ ( 4 6 ` < ).

Foi Zenão o primeiro que fez esta classificação, em sua Lógica, e depois a têm reproduzido.

Crísipo no livro primeiro da Lógica e no primeiro também da Física.

Efelo na Introdução aos dogmas.

Eudromo nos Elementos de moral .

Por último Diógenes de Babilônia e Possidônio.

Apolodoro chamou a estas partes lugares (J ` B @ L H );

Crísipo e Eudromo o de espécies (, Ç * 0 );

Outros as chamam de gêneros (( Z < 0 ).

 

Comparam a filosofia a um animal, no qual a lógica é representada pelos ossos e os nervos; a física, pelas carnes; a moral, pela alma.

A comparam também a um ovo: a casca é a lógica; o que vem depois, a clara, é a moral; o centro, a gema, é a física.

Também a comparam a um campo fértil: o cercado que o rodeia é a lógica; os frutos, a moral; e a terra, ou as árvores, a física.

A comparam por último a uma cidade bem edificada e sabiamente governada.

 

Alguns deles sustentam que não há nenhuma prioridade entre as diversas partes, que são inseparáveis, e portanto as tratam simultaneamente. Outros dão o primeiro lugar à lógica, o segundo à física e o terceiro à moral.

Assim opinam Zenão, na Lógica Crísipo, Arquedemo e Eudromo

Panécio e Possidônio começam pela física, como atesta Fânias, amigo do segundo filósofo, no livro primeiro de Conversações de Possidônio.

 

Cleantes admite seis partes: dialética, retórica, moral, política, física, e teologia.

Outros dizem que estes nomes não expressam divisões da inteligência, como Zenão de Tarso" (D. Laércio, VII, 39-41).

 

156. O questionamento sobre a divisão das ciências percorre os tempos, tendo havido as mais variadas.

Nesta divisão adotada pelos estóicos, a física representa uma ciência teórica, a moral uma ciência prática, a lógica uma ciência meramente formal.

O que se pode questionar, é se há apenas uma ciência específica em cada plano, e ainda se esta maneira de dividir é efetivamente fundamental.

 

Recorda-se que a divisão aristotélica, esquecendo a lógica reduzida a uma propedêutica, classifica as ciências, diversamente, em práticas, poéticas e teóricas, e estas subdivididas em matemáticas, físicas e teológicas (metafísicas).

Os futuros escolásticos apelarão ainda a outro critério mas de inspiração aristotélica: o da abstração formal, processada em três graus, e que ocorre exatamente na 2-a parte da subdivisão de Aristóteles. Os modernos ainda insistiram na divisão em dois gêneros, - ciências empíricas e ciências racionais, ou estritamente filosóficas.

Como se vê, trata-se de uma questão em ebulição, e que preocupou notavelmente os estóicos, cuja contribuição não deixou de ser expressiva.

 

Outro questionamento é o da subdivisão interna de cada ciência. Isto na prática resulta no próprio desenvolvimento sistemático da mesma, sobre o que variadamente também informou Diógenes Laércio a respeito do que disseram os estóicos.

Mas, antes que se dêem com subdivisão, as partes podem ser efetivas outras ciências.

"Há quem subdivida a lógica em duas ciências distintas: retórica e dialética; outros acrescentam mais duas partes: o estudo da definição e os diversos critérios de conhecer a verdade" (D. Laércio, VII, 40).

Se esta distinção for válida, resta o nome da dialética, como equivalente à lógica. E então a retórica fica sendo uma outra ciência específica.

 

157. A divisão estóica das ciências em física, lógica e moral, embora fosse precedida por Xenócrates do círculo platônico, apresenta-se contudo como original pela sua inspiração interna; processa-se segundo um entravamento de inspiração cínica e socrática, pelo qual, na hierarquia, a ética ocupa o centro de gravidade; mais do que isto, a ética deve ser entendida em seu sentido eminentemente prático, porque o que importa é a observância dos princípios morais. A física é necessária de modo secundário para apoiar a ética; por fim, a lógica fundamenta a física e a ética.

 

A autonomia teórica que Aristóteles dava às ciências especulativas desaparece um tanto no eticismo dos estóicos. A organicidade intencionada que os estóicos davam às ciências vem destacada nas comparações de que se serviram para mostrar, que as partes se uniam como num todo, ora comparando-as, - conforme texto já apresentado, - ora com o animal, ora com o ovo, ora com o campo cultivado, ora com a cidade bem administrada.

Contudo, importa não exagerar nesta insistência da globalização das ciências, porque, sendo elas partes abstratatas de um todo concreto, necessariamente se interligam. As ciências sempre são partes abstratas sobre o mesmo todo e consequentemente obedecem a uma interdisciplinaridade.

 

 

§ 2. Contribuição dos estóicos para os estudos gnosiológicos.

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159. A gnosiologia dos estóicos é sensista e tende a ser nominalista. Esta posição já se encontra nos sofistas e nos cínicos. Mas, da maneira desenvolvida como os estóicos trataram a questão, veio provocar o desenvolvimento dos estudos gnosiológicos como tais, e que têm por objetivo determinar qual o efetivo conteúdo dos objetos pensados.

 

Embora distingam os estóicos entre sentidos e inteligência, em ambos os casos as representações são de origem e ordem material, apesar da diferente elaboração.

"A representação (N " < J " F \ " ) difere da imagem (N V < J " F : " ); a imagem é uma concepção da inteligência, como as que se produzem no sonho; a representação é uma impressão feita sobre a alma e por ela é preciso entender uma simples afecção, como disse Crísipo no décimo livro Sobre a alma; não se pode admitir que a impressão seja semelhante à marca de um selo, já que é impossível conceber que existam muitas impressões sobrepostas em um mesmo ponto. A verdadeira representação é aquela que, produzida por um objeto real, está gravada, estampada, impressa no espírito, de tal sorte que não pode ser produzida igualmente por um objeto não real" (D. Laércio, VII, 50-51).

A alma é, pois semelhante a uma tabula rasa, em que as representações (N " < J " F \ " 4 ) não preexistem, mas aparecem por efeito da impressão (J b B T F 4 H ).

 

Crísipo usava uma expressão menos material, e falava em modificação (¦ J , D @ \ T F 4 H ), mas que em nada alterava o fundo sensista de tal gnosiologia materialista.

Reduzido o conhecimento a uma impressão que o corpo imprime na alma, isto estabelece que só se leva em conta o conhecimento dos corpos e que só se conhece em termos sensíveis.

 

Distinguem os estóicos entre representação irracional, ou sensível, e representação racional, ou inteletiva:

"Entre as representações, umas são sensíveis (• 8 @ ( 4 6 " \ ) e outras não sensíveis (8 @ ( 4 6 " \ ). Sensíveis são aquelas que são fornecidas por um ou vários sentidos. Não sensíveis são as que emanam diretamente do pensamento, por exemplo, as que derivam de coisas imateriais, e dos objetos que trata a razão. As representações sensíveis são produzidas por um objeto real que se impõe à inteligência, tomando-lhe o assentimento. Não obstante ocorrem também representações aparentes, sombras, que se assemelham às produzidas por objetos reais" (D. Laércio, VII, 51).

160. Com referência à gênese e elaboração dos conhecimentos, observam os estóicos que há aqueles que ocorrem de maneira natural (N L F 4 6 ä H ) ou espontaneamente, sem intenção (• < , B 4 J , P Z J T H ) e aqueles que resultam por meio de elaboração científica e esforço (@ Æ ş : , 2 X D " H * 4 * " F 6 " 8 \ " H 6 " Â ¦ B 4 : , 8 , \ " H ).

Quer Windelband que esta distinção "recorde em certo sentido a lógica de Lotze" (H. da fil. antiga, nr 46 p. 34, nota 33).

 

161. Ocorrem nos estóicos sinais de justificação crítica do conhecimento. O critério da verdade é por eles discutido.

O realismo imediato que os estóicos adotam não é de todo ingênuo. Foram certamente as objeções dos céticos e dos probabilistas da Academia que os conduziram a semelhantes considerações.

A objeção do ceticismo era de que um critério requer por sua vez uma confirmação; este segundo critério outro, e assim indefinidamente.

Tal objeção colhe no caso do realismo imediato do tipo das filosofias cartesianas com pretensão de chegar, a partir do fenômeno do mundo real.

Mas a objeção não logra criar dificuldades ao realismo imediato, porque, - como já declaravam os estóicos, - era possível conceber um critério que o fosse também de si mesmo. Epicteto revela que a potência racional (* b < " : 4 H 8 @ ( 4 6 Z ) se caracteriza porque num só tempo conhece e julga a si mesma e a todas as mais (Dis. I, 1, 4).

 

162. O conhecimento alcançado como todas as garantias era chamado pelos estóicos representação compreensiva (N " < J " F \ " 6 " J " 8 0 B J 4 6 Z ) do objeto.

Importa aqui não perder de vista a concepção materializada que os estóicos tinham do conhecimento. A garantia que os estóicos invocavam para o conhecimento se prendia, pois, às condições dos sentidos. A representação sensorial (" Æ F 2 0 J 4 6 ¬ N " < J " F \ " ) se deve desenvolver em condições perfeitamente normais e sãs, para que possibilite a justa observação.

"Cabe ver nisto um dogmatismo ingênuo, mas não se deve perder de vista que os estóicos, graças precisamente à sua teoria da N " < J " F \ " 6 " J " 8 0 B J 4 6 Z (representação compreensiva) que elaboraram cada vez mais primorosamente sob a pressão de sua polêmica com a Academia, deram um grande impulso ao conhecimento das condições de uma percepção sensorial digna de confiança e da necessidade de uma observação exata e nítida" (Windelband, H. da fil. Antiga, nr 45 p. 349).

Ocorrendo a representação compreensiva, com todas as suas condições de normalidade, impõe-se ao sujeito o assentimento (F L ( 6 " J V 2 , F 4 H ); a imposição ocorre por necessidade direta (: , J ’ g Ç > , T H - sem resistência). "quanto aos sensoriais... se produzem sem resistência e com assentimento" (D. Laércio, VII, 51; cf. Também. Sexto Emp. VII, 245).

A imposição do objeto é, e frequentes vezes, invocada pelos estóicos, e lembra a evidência imediata:

"A verdadeira representação é aquela que produzida por um objeto real, está gravada, estampada, impressa no espírito de tal sorte que não possa ser produzida igualmente por um objeto não real" (D. Laércio, VII, 51).

 

A evidência se apresenta, portanto, impositiva, sem resistência, imediata, conforme sempre volta a insistir Diógenes Laércio.

"O critério da verdade é a representação cataléptica, isto é, a que procede de um objeto real; tal é ao menos o pensamento de Crísipo, Antípatro, e Apolodoro.

Boeto admite maior número de critérios: o entendimento os sentidos, as afecções e a ciência.

Outros dos antigos dão como critério de verdade a reta razão, como Possidônio no tratado do Critério" (D. Laércio, VII, 53).

 

 

§ 3. Interpretação hilemorfístico-panteísta da natureza.

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165. A física e metafísica dos estóicos é materialista, porque o seu monismo estendia à toda a realidade a matéria. O monismo não acontece apenas no plano físico, e sim metafísico.

De outra parte, toda a matéria é viva, não havendo ser morto. Ainda que a matéria não seja a forma, esta ocorre em toda a matéria.

Espírito e matéria são duas faces da mesma realidade; mas as funções do espírito não são as da matéria, e as da matéria não são as do espírito.

Estabelece-se, portanto, o estoicismo dentro de um esquema de ordem metafísica semelhante ao dos pré-socráticos particularmente dos jônicos, designadamente Heráclito, o qual tinha como elemento fundamental o fogo, que é agora é o fogo racional dos estóicos.

Mais uma vez se observa que o estoicismo é uma linha de continuidade do cinismo, visto que já este era materialista e derivava dos jônicos, enviando para frente o seu materialismo e monismo.

Dá-se agora apenas um novo feitio, mais lavrado e orgânico, em que a ética se coloca no alto, como o degrau mais elevado de uma escadaria de ciências, todas elas destinadas a prestar o acesso para a principal. Não há, pois, criação nova na física estóica, senão algumas alterações aplicadas ao materialismo jônico.

 

166. O materialismo estóico se apresenta como decorrência epistemológica do seu sensismo. A realidade atingível é apenas a sensível; dali resulta que só se conhece o corpóreo, o extenso, o ser material. Em outros termos: O ser é a matéria (à 8 0 ), a realidade é corporeidade, a extensão é a essência (@ Û F \ " ) do ser, a matéria é a substância (ß B @ 6 , \ : , < @ < ). E se ao lado da matéria (à 8 0 ) o estoicismo põe uma força (B < , Ø : " ), que atua como sob as mais variadas formas, como fogo, lei natural, razão, alma, Deus, ainda esta força tem estrutura de ordem material, extensiva, mecânica, e nunca exclusivamente espiritual.

O materialismo estóico vai ao ponto de apresentar como materiais não só as substâncias e acidentes de extensão, mas também as propriedades, estados, atividades, afecções, etc, como formas da matéria universal. Assim, o passear (B , D 4 B " J , Ã < ), como atividade de homem real, é algo corpóreo. Mas são incorpóreos coisas como espaço vazio e tempo e também o passear como simples predicado lógico.

 

167. É importante a distinção estóica do ser em dois princípios, um passivo e outro ativo (B V F P @ < e B @ 4 @ Ø < ).

O princípio ativo é também chamado fogo racional (B Ø D < @ , D ` < ). Ocorre ali uma autêntica semelhança com a teoria da dualidade intrínseca do ser estabelecida por Aristóteles, mas ainda como se prenunciava nos pré-socráticos precursores do hilemorfismo aristotélico.

 

O dualismo intrínseco do ser já fora prenunciado no ápeiron de Anaximandro, e no devir de Heráclito. Já viam estes pré-socráticos no universo um elemento informe e outro que lhe imprimia a forma. Os estóicos associaram estes princípios às propriedades dinâmicas do Logos de Heráclito e do Nous de Anaxágoras.

Põem, entretanto, os estóicos o fogo (B Ø D ) do lado do princípio dinâmico, ao passo que em Heráclito o fogo era o elemento informe (o devir), que recebia as formas sucessivas.

 

Distinguem os estóicos ainda entre o fogo comum (— J X P < @ < B Ø D ), que somente consome, e o fogo racional, ou artístico (B Ø D < @ , D ` < J , P < 4 6 ` < ), que coincide com a divindade, ou seja, com a forma em geral.

"Admitem dois princípios do universo: ativo e passivo. O último é a substância indeterminada, a matéria. O primeiro é a razão espalhada na matéria, a saber o mesmo Deus, ser presente em todo o lugar em meio da matéria e organizador de todas as coisas. Tal é a doutrina de Zenão de Citio, no Tratado da substância, de Cleantes, no Tratado dos átomos, de Crísipo no livro final Da física, de Arquedemo no Tratado dos elementos e de Possidônio no livro segundo da Física" (D. Laércio, VII, 134).

Outro texto: "Chamam de matéria prima (B D f J 0 < à 8 0 < ) a substância de que são feitas todas as coisas " (D. Laércio, VII,150).

 

168. O comportamente da forma, ou fogo racional (B Ø D < @ , D ` < ) é diferente, conforme a circunstância.

Nos astros se conserva em estado puro; por isso os astros têm inteligência. Esta interpretação vem de encontro à interpretação popular de que os astros são deuses e de que em cima está o céu dos beatos.

 

A forma se impõe à matéria informe de quatro maneiras fundamentais. Dali resultam os quatro elementos: água, fogo, ar e terra.

No caso dos quatro elementos, o fogo se entende como fogo ordinário (B Ø D – J X P < @ < ), portanto composto de matéria e forma, distinto do fogo puro (B Ø D J , P < 4 6 ` < ).

 

169. Em seu conjunto, nas coisas inorgânicas, seja na água e no fogo ordinário, no ar e na terra, ou em qualquer outra coisa, a imposição da forma se apresenta como consistência (§ > 4 H ) ou sopro natural (B < , Ø : " ¦ J 4 6 ` < ).

 

Nas plantas o fogo, como forma, se aplica como natureza (N b F 4 H ), entendida esta palavra no seu sentido estrito.

Nos viventes em geral (. ä " ) apresenta-se como alma (R L P ­ ):

"A alma é uma substância sensível, inspiração inerente à nossa natureza; portanto, a alma é um corpo, e persiste depois da morte; contudo é perecível; em contrapartida, a universal, da qual são partículas as dos animais, é imortal. A alma é um sopro ardente, à qual devemos a respiração e o movimento, segundo dizem Zenão de Cítio e Antípatro, em seus tratados Sobre a alma, assim como também Possidônio.

Cleantes sustenta que todas as almas persistem até a inflamação do mundo, contra a opinião de Crísipo, que admite este privilégio apenas para as almas dos sábios" (D. Laércio, VII, 157).

 

Em todas as variantes, a forma apresenta sempre caráter de determinação, fogo, respiração (B < , Ø : " ), tensão (J ` < @ H ), força, um quê de vida.

Plotino retomará a noção de fogo racional (B Ø D < @ , D ` < ) em sua concepção de Alma do mundo, a qual atua sobre todos os seres particulares, homens, animais, plantas e minerais, dando-lhes as formas que têm, portanto, dando à matéria suas determinações.

 

170. Pelo visto, não se restringe o estoicismo apenas à matéria informe, porque lhe sobrepõe um princípio maior, todavia imanente, que atua de maneira eficiente e racional, comparável pelas suas virtudes ao fogo, mas de ordem racional, motivo porque foi chamado fogo racional. (B Ø D < @ , D ` < ),

Designações equivalentes são força ou sopro (B < , Ø : " ), lei natural (< ` : @ H ), Providência (B D ` < @ 4 " , , Æ D : " D : X < 0 ), razão (8 ` ( @ H ), razão seminais (8 ` ( @ 4 F B , D : " J 4 6 V ).

No neoplatônico Filon de Alexandria (c. 25 a.C. – c. 50 d.C.) reaparecerão estes conceitos, colocados porém acima dele o Deus transcendente. Aliás, todo o neo-platonismo se aparenta com o Logos estóico, por causa dos intermediários que põe entre a matéria e Deus, cabendo aos intermediários atuar sobre a matéria, organizando-a.

 

171. É de uma peculiar originalidade a atribuição que os estóicos fazem ao fogo, ao declará-lo racional (< @ , D ` < ). Ainda que haja um equívoco na identificação do fogo como realidade, a concepção tende à profundidade, qual seja a de apontar para princípios mais gerais, em que um é considerado passivo e outro ativo (B V F P @ < e B @ 4 ` < ).

O ser não é apenas matéria estúpida, porque suas formas são determinações racionais, ou seja, são o fogo racional.

O mundo se apresenta pois com uma estrutura viva e lógica. Como ser vivo, o mundo emerge em formas crescentemente mais vivas. Como dotado de razão, o mundo é comandado por uma lei natural, denominada providência, porque o fogo racional atua com esta propriedade.

"O mundo é governado por uma inteligência e providência, como dizem Crísipo e Posidônio" (D. Laércio, VII, 138).

"O mundo considerado em seu conjunto é um animal, um ser animado e racional" (D. Laércio, VII, 138).

"Eles (Crísipo, Apolodoro e Posidônio) entendem por animal uma substância dotada de uma alma que possui a faculdade de sentir. O animado é superior ao inanimado; nada há superior ao mundo; portanto, o mundo é um animal" (D. L. VII, 143).

"Deus é um animal imortal (1 , Î < * z , Ç < " 4 • 2 V < " J @ < ), racional (8 @ ( 4 6 ` < ), perfeito , isto é, infinitamente inteligente e soberanamente ditoso, inacessível ao mal, governante do mundo e de tudo o que contém, por meio de sua providência" (D. Laércio, VII, 147).

 

"O Destino determina todas as coisas... O destino é o encadeamento das causas de todos os seres, ou a razão que governa o mundo.

Dizem que a adivinhação tem fundamento real, porque tem um plano providencial; exceto Panécio, que nega todo o fundamento razoável à adivinhação, declaram-se a seu favor, Zenão, Crísipo, Atenodoro, Posidônio" (D. Laércio, VII, 149).

 

172. Insistem os estóicos na auto-suficiência do princípio racional que informa a matéria, retendo-se pois, conscientemente no monismo e panteísmo, rejeitando claramente a transcendência de um Deus separado do mundo:

"Rematada loucura é pretender transportar-se para fora do cosmos para estudá-lo de fora, como se todo o interior dele já estivesse bastante conhecido" (Plínio, História natural II, 1).

Não importa a linguagem homérica, indicando a Deus como se fosse pessoal. A inspiração com que os estóicos utilizam estes nomes é panteísta. É o mesmo fogo racional que supervasa por cima de todas as categorias de ser; não se prende e dicotomiza em nenhuma delas, porque a todas cria com suas determinações. Por uma espécie de esforço e tensão (J ` < @ H ), realiza-se num devir que promove o mundo.

 

O processo do mundo estóico é comparável ao élan vital de moderno filósofo francês de nome Bergson em sua "evolução criadora".

A interpretação hilemorfístico-panteística do mundo ocorria também na Idade Média, quando o filósofo panteísta Amaury de Bènes (+ 1207) quis ver na forma, que determina a matéria prima, o próprio Deus a estender-se assim pelo mundo.

 

"A inteligência penetra todo o mundo, como a alma enche todo o nosso corpo; todavia há partes nas quais está mais, ou menos presente; em algumas reside só a título de simples propriedade, como nos ossos e nervos; em outros a título de inteligência, na parte superior. Dali segue, que o mundo, considerado em conjunto, é um ser animado e racional" (D. Laércio, VII, 138).

O fogo racional tem em si mesmo e por si mesmo o princípio do movimento de todas as suas variações. Apresenta-se pois, como Deus. Sendo um só o fogo, apesar da diversidade das manifestações e sendo ele suficiente em si mesmo, só restava declará-lo divino.

"São o mesmo [as palavras] Deus e inteligência (1 , ` < 6 " Â < @ Ø < ), e destino (6 " Â , Æ : " D : X < 0 < ), e Zeus (6 " Â ) \ " ); e muitas outras denominações.

Deus existe por si mesmo como existência absoluta.

No princípio Ele mudou em água todas as substâncias que enchiam os ares. E assim, como na geração os germes dos seres estão latentes, também Deus, razão seminal do mundo, permaneceu oculto na substância úmida suavizando a matéria, da qual tiraria mais tarde os outros seres. Com esta finalidade produziu a princípio os quatro elementos: água, fogo, ar e terra" (D. Laércio, VII, 136).

No início do texto se observa o aperfeiçoamento filosófico que o saber antigo promovia sobre a noção de Deus. Etimologicamente, Deus e Zeus procedem da mesma radica indo-européia significando luz. As denominações da divindade foram em todas as línguas passando por esta melhoria, não havendo nenhuma nascido perfeita.

 

173. Juntou-se ao monismo e panteísmo estóico a idéia de uma religião natural.

Atribuindo à natureza um caráter divino, inspiravam-se por isso os estóicos de modo a suscitarem em si o respeito pela lei universal e veneração pela divindade onipresente.

Interpretando alegoricamente as personagens do teogonia grega, assimilaram a teologia politeísta em voga.

Cleantes é autor de um Hino a Zeus que obedece à inspiração doutrinária estóica.

 

§ 4. Psicologia do estoicismo. 2642y174.

 

 

175. Não chegaram os estóicos a elaborar uma psicologia sistemática, mas em função à moral esclareceram diversos temas sobre a vida psíquica do homem. A alma é o que dá ao homem a possibilidade de mover-se a si mesmo e desempenhar uma série de funções.

Em sua natureza mesma, a alma é um sopro ígneo, ou sopro inflamado (B < , Ø : " ¦ < 2 , D : ` < ). Representa a alma uma das muitas manifestações do fogo racional (B Ø D < @ , D ` < ) que determina a matéria, no caso o corpo humano. Em decorrência da metafísica materialista do estoicismo também a alma é a seu modo material. Por isso Panécio, Epicteto e Marco Aurélio não admitiam a imortalidade individual. Mas Zenão, Cleantes e Crísipo consideram mortal a parte mais grosseira, imortal a outra.

Eis um texto, mas, que, por ser de Diógenes Laércio, nem sempre é uma exposição subtil:

"A natureza é um fogo engenhoso ordenado a produção, isto é, uma espécie de hábito ígneo que procede com arte. A alma é uma substância sensível, inspiração inerente à nossa natureza; portanto, em troca a alma universal, da qual são partículas as dos animais, é imperecível.

A alma é um sopro ardente, a que devemos a respiração e o movimento segundo Zenão de Cítio e Antípatro em seus tratados da Alma, e Possidônio.

Sustenta Cleantes que todas as almas persistirão até o incêndio do mundo, contra a opinião de Crísipo, que só concede este privilégio às almas dos sábios" (D. Laércio, VII).

 

176. Atribuíram os estóicos à alma a função de reitora, ou princípio diretor (ş ( , : @ < 4 6 ` < ), das forças subalternas (ß B , D 0 D , J 4 6 " Â * L < V : , 4 H ).

Afirmaram, pois, claramente a unidade de consciência. "Desta sorte fundamentem a unidade de personalidade e do eu, como nunca se devia feito antes" (A. Schmekel, Die Helenroem. Phil. P. 216).

 

177. Os estóicos "distinguem na alma oito partes: os cincos sentidos, a faculdades geradora, a de expressão e a do raciocínio" (D. Laércio. VII, 157).

Com referência à visão, sustentam, Crisipo no livro segundo da Física, e também Apolodoro, que nós percebemos por meio de um cone de ar luminoso, que se estende desde o olho ao objeto.

A audição tem lugar quando, por causa de um choque, se produz no ar colocado entre aquele que fala e aquele que escuta, um movimento análogo às ondas circulares que se vêem estender-se em uma cisterna, quando nela se joga uma pedra.

O sonho é o resultado de um debilitamento da faculdade sensitiva na parte superior da alma" (D. Laércio, VII, 158).

 

178. Os afetos foram tema psicológico amplamente explorado pelos estóicos, dada sua repercussão ética.

Distinguem o afeto, ou o instinto, ou a paixão resultam do erro, que perturba a harmonia da alma. Por isso, a paixão é uma propensão desregrada, contrária à natureza. Pôr a motivação no erro significa dar importância à situação.

"O erro, dizem (os estóicos), produz uma alteração na inteligência, da qual resulta uma multidão de movimentos apaixonados que perturbam a harmonia da alma. A paixão, segundo Zenão, é um movimento irracional contrário à natureza da alma, ou uma propensão desregrada" (D. Laércio, VII, 111).

Percebe-se logo como há de comparecer aqui o princípio ético: não se deve provocar as paixões, mas naturalmente controlá-las.

 

179. Vão os estóicos às minúcias, num tema que ainda hoje continua difícil para a classificação. Classificam eles as paixões, descrevendo-as em sua especificidade:

"Hecatão e Zenão reduzem à quatro classes as paixões principais: tristeza, temor, desejo, voluptuosidade.

A tristeza é contração irracional da alma e compreende outras várias paixões particulares a consideração, a inveja, a rivalidade, os ciúmes, a aflição, a angústia, a inquietude, a dor e o abatimento.

A consideração é a tristeza que se experimenta, à vista de uma desgraça que não se julga merecida.

A inveja tristeza do bem alheio.

A rivalidade é a tristeza que se experimenta, ao ver outro na posse do bem que se deseja.

Os ciúmes são tristeza que nasce porque as vantagens que se desfrutam são participadas por outros.

A aflição é tristeza grave..." e assim prossegue Diógenes Laércio mostrando as definições das paixões (D. Laércio, VII, 111).

 

180. Os afetos nobres são também descritos e classificados pelos estóicos.

"Entre os princípios afetivos, três se consideram bons: a alegria, a circunspecção e a vontade.

A alegria é oposta a voluptuosidade; é um impulso racional da alma.

A circunspecção é oposta ao temor, uma desconfiança fundada na razão; assim, o sábio não teme, porém é circunspecto.

A vontade é oposta ao desejo enquanto que aquela está regulada pela razão.

Do mesmo modo as paixões primárias encerram muitas outras, também as três afecções mencionadas contém tendências secundárias. À vontade se reduzem a benevolência, a quietitude, a cortezia, a amizade; à circunspecção; a modéstia e a pureza; à alegria: o contentamento, o regozijo, o bom humor" (D. Laércio, VII, 118).

Tomado a todos estes afetos como nobres, servem de objetivo prescrito pela ética dos estóicos.

 

 

§ 5. A ética dos estóicos. 2642y181.

 

 

182. O desenvolvimento sistemático da ética estóica envolvia as seguintes partes, como vem dito no começo da exposição que dela fez Diógenes Laércio:

"Dividem assim a filosofia moral: das inclinações, dos bens e dos males, das paixões, da virtude, do fim do homem, do primeiro mérito, dos deveres, das exortações, arte de dissuadir.

Tal é ao menos a divisão adotada por Crísipo, Arquedemo, Zenão de Tarso, Apolodoro, Diógenes, Antípatro, e Possidônio; os mais antigos, Zenão de Cítio e Cleantes, trataram mais simplesmente estes assuntos, e se aplicaram com preferência a dividir a lógica e a física" (D. Laércio, VII,84

 

183. Para expor a ética dos estóicos se faz conveniente desde logo advertir para a afinidade da mesma com a ética Sócrates e com a do cinismo (ou da escola socrática menor de Antístenes e Diógenes de Sínope).

Dão os estóicos impulso à mentalidade eticista de Sócrates, visto que, como este, punham acima de tudo a ética. Conservada esta mentalidade pela escola socrática menor dos cínicos, chegou através desta aos estóicos. São pois os estóicos sucessores da ética dos cínicos, porque fizeram exatamente da ética o centro de gravidade de sua filosofia. Foi o lado ético que deu ao estoicismo o prestígio que tão largamente, e por tão dilatado tempo, desfrutou na antiguidade helênico-romana.

Abandonou entretanto o estoicismo, como já o fizera Aristóteles, a unidade socrática do saber e da virtude, que ainda se conservava em Platão e nos cínicos de Antístines. Para o estoicismo não basta conhecer o bem, para, necessariamente praticá-lo.

 

Evadiu-se o estoicismo também da extravagância cínica que opunha natureza e civilização. A razão conduz o homem, e tende por vezes mesmo a contrariar a natureza individual.

Embora não pareça alcançar o alto nível da de Aristóteles, a ética dos estóicos supera, porém, em harmonia, a de Sócrates, Platão e Antístenes.

 

184. Se na parte especulativa o monismo estoicista advertia para a identidade humana com o Logos, estabelecia agora em moral que o dever ético consiste em aceitar conscientemente este fato, aceitação esta que chamou virtude.

 

O animal inclina-se espontaneamente pela conservação da natureza.

Já o homem o faz conscientemente. Inteirando-se de que é arrastado na corrente inexorável da evolução do Logos; deve então conformar-se conscientemente com este fato, aceitando as ocorrências da vida como situação natural; o que vem assim espontaneamente é bom, porque faz parte da natural evolução do Logos; o contrário é mau.

 

Vale o preceito "sequere naturam", no melhor e mais perfeito dos sentidos. O preceito tem o elevado sentido da ação que se enquadra dentro da realidade total.

 

185. Tem a moral estóica a mesma orientação fundamental de todas as éticas tradicionais baseadas no ser:

- o que está conforme com a natureza do ser é bom;

- inversamente, o que não está conforme é mau.

 

Opõe-se a ética estóica à futura moral autônoma dos kantianos e que se baseia numa afirmação pura da boa vontade.

O parentesco da moral estóica com a aristotélica é evidente. A ética baseada no ser ou na natureza prosseguirá com Boécio, os escolásticos medievais e muitos modernos.

 

O que entretanto diferencia a moral estóica, frente às demais concepções éticas do mesmo gênero e fundadas no ser, é a maneira diversa de conceber a natureza, que tende como sendo monista e sensista. Em decorrência abre-se o caminho para o determinismo e a felicidade no quadro mesmo da natureza atual.

 

 

186. A ética estóica da conformidade é amplamente ilustrada pela exposição de Diógenes Laércio:

 

"Sustentam os estóicos que a primeira tendência do animal tem por objeto sua própria conservação, interessando-se desde o princípio por si mesmos.

Diz efetivamente Crísipo, no livro primeiro dos Fins, que o primeiro desejo de todo o animal é viver e sentir viver; que não era possível que a natureza o tornasse indiferente a si mesmo e estranho a todo o sentimento pessoal; que ele deveu portanto depositar nele o amor de si mesmo e que, por este motivo, evita o que o prejudica e busca o apropriado à sua natureza.

Quanto à opinião adotada por alguns filósofos, de que o primeiro movimento dos animais os leva ao prazer, os estóicos a combatem como errônea; o prazer, dizem, é só um sentimento acessório, - se é tanto que encontre prazer quando a natureza chega ao seu fim, buscando ela mesma e espontaneamente o que convém à sua constituição, porque os animais se alegram fatalmente em qualquer condição, da mesma maneira que crescem as plantas; sob certos aspectos a natureza não estabeleceu diferença alguma entre os animais e as plantas: ela governa a estes sem o auxílio de suas inclinações e sentimentos; também nós somos plantas sob alguns aspectos. Se o animal tem más inclinações que concorrem a dirigi-lo ao seu fim próprio, nele estas inclinações estão governadas pela própria natureza.

 

Quanto aos seres inteligentes, aos quais a natureza com mais generosidade têm dotado com a razão, para eles o viver segundo a razão, é viver segundo a natureza, porque a razão neles é o artista encarregado de dirigir as inclinações.

Por este motivo disse Zenão, no tratado da Natureza humana, que se deve propor como fim o viver conforme à natureza, o que equivale a dizer, segundo as leis da virtude; porque a virtude é o fim, ao qual nos impele a natureza.

Da mesma forma se expressam Cleantes, no tratado do Prazer, Possidônio e Hecaton, em seus tratados dos Fins.

Diz mais Crísipo, no livro primeiro dos Fins, que não existe diferença entre viver conforme à virtude e viver conforme à experiência do governo da natureza; porque nossa natureza é em nós uma parte da natureza universal.

O fim do homem é, portanto, regular a sua conduta sobre a natureza, a saber, sobre sua própria natureza e sobre a natureza universal; deve abster-se de tudo aquilo que proíbe a lei comum, que não é outra coisa que a reta razão espalhada em todo o mundo, a saber, o mesmo Zeus, chefe e governante de todos os seres.

Acrescentam que a virtude, manancial de felicidade, aquela que faz deslizar docemente a vida, consiste em estabelecer em todas as ações uma harmonia perfeita entre a vontade própria e a do governante do universo" (D. Laércio, VII, 85-88).

 

É expressiva a declaração de Marco Aurélio:

"Tudo se me acomoda a mim que a ti se te acomoda, ó Cosmos; nada me advém a mim nem demasiado tarde, nem demasiado cedo" (VI, 23).

 

E esta de Epíteto:

"Tenho como melhor o que Deus quer, do que aquilo que eu quero; a ele hei de entregar-me como servo e seguidor; a uma irei com ele, no pensar e no desejar" (Diss. IV, 5).

 

 

187. Na moral estóica não só ocorre o bem ou ação reta (J X 8 , 4 @ < 6 " 2 ­ 6 @ < ) e a ação contrária (A " D Ź J Î 6 " 2 ­ 6 @ < ), mas ainda a ações indiferentes ou intermédias (9 X F " 4 B D V > , 4 H ).

 

"Dividem tudo quanto existe em: bens, males, coisas indiferentes (J ä < * z Ð < J T < N " F Â J Ź : Ą < • ( " J Ź , È < " 4 , J Ź * Ą 6 " J Ź J Ź * z @ Û * X J , D " ).

Os bens são as virtudes; prudência, justiça, valor, temperança, etc.

Os males são os vícios: imprudência, injustiça, etc.

No número das coisas indiferentes colocam tudo o que não é, nem útil, nem nocivo; de uma parte, a vida, a saúde, o prazer, a beleza, a força, a riqueza, a reputação, a nobreza; de outra, a morte, a enfermidade, a dor, a fealdade, a debilidade, a pobreza, uma vida sem glória, um nascimento obscuro e todas as coisas deste gênero" (D. Laércio, VII, 101-102).

 

"Panécio diz que certos prazeres são conformes à natureza, outros contrários à natureza". (Sexto, Adv. math., XI, 73).

 

Se atendermos à futura opinião tomista, não há ações formalmente indiferentes ou se age bem, ou mal. Quanto ao ser em geral, todo o ser é bom.

 

188. Distinguem os estóicos subtilmente entre ação reta (6 " J ` D 2 T : " ) e ação legal, ou seja, o dever (6 " 2 ­ 6 @ < ).

 

É a ação reta própria do homem perfeito, porque a realiza tendo a intenção formal de enquadrar-se dentro de um fim; só ele a pode cumprir assim, porque aceita o esquema inexorável que o Logos traçou. A ação reta (6 " J ` D 2 T : " ) é uma espécie, no gênero do dever (6 " 2 ­ 6 @ < ) a saber, o dever com conhecimento do fim (J X 8 , 4 @ < 6 " 2 ­ 6 @ < ).

 

Tomado somente em si mesmo, o dever (6 " 2 ­ 6 @ < ) pode representar qualquer obrigação cumprida, mesmo que este cumprimento seja apenas legal; por isso, pode ser comum a sábios e ignorantes. Para Kant a obrigação legal cumprida não tem só por si valor moral.

 

Em Filon ocorre a mesma divisão.

 

Nos estóicos a culpa (ť : V D J 0 : " ) é a ação contraria não só à ação reta (6 " J ` D 2 T : " ) mas também ao dever simplesmente (6 " 2 ­ 6 @ < ):

 

"Toda tarefa que em um ser racional ocorre contrariamente à conveniência (A " D V J ` 6 " 2 ­ 6 @ < ) é culpa (ť : V D J 0 : " ); porém, a tarefa conveniente (6 " 2 ­ 6 @ < ) aperfeiçoada torna-se ação reta (6 " J ` D 2 T : " )" (Estob Ecl., II, 86, 10 w.).

 

 

189. A felicidade (eudaimonía) comparece como concomitante do fim que regula nossas ações, mas não é o fim em si mesmo:

"Quanto à opinião adotada por alguns filósofos, de que o primeiro movimento dos animais os leva ao prazer, os estóicos a combatem como errônea; o prazer, dizem, é só um sentimento acessório, que ocorre quando a natureza chega a seu fim" (D. Laércio, VII, 85).

 

A felicidade assume, então, o aspecto de recompensa. Efetivamente, o ato apenas enquanto perfeição alcançada pela potência, não é fim; é forma constitutiva. Mas, enquanto o ato apetece à potência, é fim... Neste sentido, pois, o ato é fim... Certamente, entendido o prazer como afecção subsequente, não é ele o fim principal da ação.

 

O ideal que leva à felicidade é a serenidade e imperturbabilidade, a que deram os gregos o nome de ataraxia. O termo foi usado a primeira vez pelo atomista Demócrito (Frag. 191). Este conceito será destacado pela ética dos estóicos, dos epicureus e céticos (Sexto Empírico, Hipotiposes Pirroneanas, I, 25).

 

 

190. O estoicismo enaltece o sábio e a virtude da sabedoria, porque é boa a ação quando conscientemente executada segundo o esquema total da natureza, e é sábio quem conhece tal situação e a vive. Portanto, o sábio possui todas as virtudes e age retamente.

"O homem virtuoso é piedoso, porque sabe o que se deve aos deuses, e a verdadeira piedade consiste em saber como aqueles devem ser honrados. Oferece sacrifícios aos deuses.. É santo, porque evita toda a falta contra a divindade. Também é amado pelos deuses por causa da piedade e a justiça que ;emprega no serviço daqueles. O sábio é o único verdadeiro sacerdote, porque penetra no que concerne aos sacrifícios, à ereção dos templos, purificações e tudo o que é relativo ao culto divino" (D. Laércio, VII, 119).

 

A noção de sábio, no pórtico, conserva ainda a inspiração socrática de que basta saber para praticar. Mas não herdou, entretanto, a rigidez com que se encontra em Sócrates. No estoicismo consiste a sabedoria antes na virtude da conformidade, que brota da tomada de consciência pela qual descobre a ação inexorável do Logos; a este não adiantaria opor-se. O sábio conhece isto, conforma-se e por isso procede sempre retamente, imperturbavelmente, racionalmente.

 

Por concomitância é feliz, belo, rico, livre. Alinhava-se aqui toda uma série de adjetivações com que o pórtico exaltava o sábio e a sabedoria.

 

 

191. O conceito de liberdade tem no estoicismo apenas o sentido de espontaneidade. O logos comanda fatalmente todos os acontecimentos numa inevitável evolução em que se integra a pessoa humana.

 

O sábio é livre apenas porque se associa na espontaneidade deste movimento cósmico, visto que não se prende ao impossível, ao que não pode ser, ao que não poder ser, ao que dificulta.

 

 

192. Continua a desenvolver-se nos estóicos a noção de lei natural. Prenunciada nas forças antropológicas de amor e ódio, luta e concórdia, de Empédocles e Heráclito, desenvolvida depois por Platão e Aristóteles, a lei natural deriva naturalmente da concepção estóica de um logos natural a dirigir o universo.

 

Por isso afirmava Antígone: "não vale isto para hoje ou só para amanhã, mas vive sempre, sem ninguém lhe saber a procedência" (1373 b 12, citado por Hisrschberger).

 

Recebia, pois, o direito positivo uma fonte que não era só a vontade do governante. O estoicismo divulgado pelo império romano, foi aos poucos alterando as concepções jurídicas, como se vê nos juristas Gaio, Ulpiano, Marciano. O direito veio estimular os princípios de igualdade natural e a elevação das condições sociais. Derivados do mesmo elemento material e partícipes do mesmo logos, "todos somos irmãos... e temos igualmente Deus como pai" (Epict. – Diss., I, 13).

 

A mulher conquista direitos que não tinha de começo. Melhora a situação do escravo. Nero o protegeu contra a desumanidade. Adriano aplicou penas aos que o matam. Antônio Pio concedeu-lhes o direito de refúgio no altar dos deuses. Depois chegará o escravo a testamentar metade dos bens (II séc.) e demandar contra o senhor (séc. 4-o.).

 

193. Pelas mesmas razões da igualdade dos indivíduos, seguiu-se a igualdade das nações. Propenderam, portanto, os estóicos ao cosmopolitismo, porque somos todos participantes do mesmo logos.

 

De igual modo, em virtude do logos coordenador, os homens se juntam em sociedade natural e não meramente contratual.

 

 

195. A virtude. Tem os estóicos se preocupado especialmente com a natureza da virtude e sua classificação. Nos textos que restam, o tema é uma constante. E assim também nas referências doxográficas.

 

"A virtude, dizem os estóicos é uma disposição constante e sempre harmônica.

Deve-se buscá-la por ela mesma, sem ser determinado pelo temor, pela esperança ou por algum outro motivo exterior.

Nela está a felicidade, porque é ela que produz na alma a harmonia, de uma vida sempre de acordo com ela mesma" (D. Laércio, VII, 89).

 

196. Frisam a ocorrência de virtudes cardeais e subalternas:

 

"Entre as virtudes, umas são primárias, as outras derivadas; virtudes primárias são: prudência, valor, justiça, temperança. São subordinadas a estas, como espécies particulares: a grandeza de alma, a firmeza de caráter, a paciência, a penetração, a sagacidade" (D. Laércio, VII, 92).

 

A seguir se definem as virtudes individualmente. Tudo isto mostra que já iam, então, adiantadas as investigações em torno do assunto.

 

 
 


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