Cap.8Índices 

ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

Versão em Português do original em Esperanto
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

CAP. 9
CULTO AOS SANTOS, VISÕES E CONTATO COM ESPÍRITOS.
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- Filosofia da Religião -
  

721. Eis uma peculiaridade da religião popular: Santos, espíritos, visões. Efetivamente, o culto aos santos, o contato com os espíritos dos mortos, bem como visões, constituem temas relacionados com a religião. 

Estes detalhes restam ainda para serem abordados nesta filosofia da religião, o que faremos cuidando de alguns aspectos de fundamento, neste sequência de dois artigos: 


 
 
ART. 1-o. O CULTO AOS SANTOS.
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723. Santos canônicos. Na imagem popular algumas figuras humanas crescem de importância no após a morte e passam a ser invocadas. 

As religiões institucionalizadas tendem a dar destaque oficial aos mortos, considerados em vida eminentemente virtuosos. Destacam também àqueles que eventualmente foram heróis ou mártires da crença em questão.

Costuma-se apontar também para a ocorrência de milagres atribuídos à intercessão do virtuoso e heróico morto. Como é sabido, a crença nos milagres creditados aos santos, têm sido sempre muito fácil. Em função a esta facilidade multiplicaram-se os taumaturgos, de que se fizeram bem conhecidos o antiquíssimo Orfeu e muito depois Santo Antônio de Pádua.

Já as antigas religiões praticavam o procedimento, pelo qual eram destacados alguns dos mortos, por sobre o espírito dos demais. Em alguns casos, se denominava, a este procedimento oficialidador, de divinização.

Retomaram os cristãos o culto aos mortos mais destacados, primeiramente em favor de seus mártires. O que inicialmente surgira com base popular, assumiu depois o caráter oficial, por via de uma declaração canônica.

 
724. Ainda que se fale do culto aos santos em geral, ocorre quase sempre uma preferência, por este, ou aquele santo. Esta preferência incide por vezes bastante especificamente sobre certa pessoa mais qualificada no panteão dos santos intercessores. No Egito antigo, bem como depois no mundo helênico e romano, o culto incidiu fortemente sobre a deusa Isis (ou Ise). Com o prevalecimento da religião cristã, passou a ter este lugar Maria, Mãe de Jesus.

Em decorrência passamos a uma divisão didática, para considerar:


 
 
I – DO CULTO AOS SANTOS EM GERAL.
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726. Certa vez, após os desabamentos provocados por uma grande tempestade, viu-se que a imagem de São Sebastião permanecia incólume em seu nicho incrustado numa parede quase toda arruinada, exceto naquele ponto. Os jornais estamparam a fotografia daquele cenário.

Disse um dos leitores:

Disse outro: Assim é sobre esta coisa de culto aos santos. Cada qual tem sua opinião, uns a favor, e praticam vastamente este culto, enquanto outros são contra. Seja por causa de uns, seja por causa de outros, importa levantar a questão.

 
727. As criaturas, que por hipótese participam de propriedades e poderes de Deus, assumem por isso mesmo condições para receberem um culto de admiração. Elas se habilitam por esta razão para serem suplicadas na prece dos que admitem a hipótese.

Em virtude da distância entre Deus e as criaturas, estabelecem-se também diferenças de linguagem:

Semelhantemente aos pais se respeita, aos heróis da pátria, aos mortos em geral se comemora, aos ilustres na política e eminentes no saber e nas artes se enaltece e se elogia.

Há sob estas palavras, a um tempo, a diversidade, que efetivamente ocorre, e a aproximação, que igualmente acontece, porque fundamentalmente se trata sempre de um culto, seja, um finalismo externo, em virtude do qual os seres se subordinam a algo superior a eles mesmos.

 
728. Na conceituação cristã dos santos ocorrem diversidades entre católicos e protestantes. Estes últimos, depois depois de surgidos em 1517, colocaram freio ao culto dos mesmos e que se houvera desenvolvido muito no curso da Idade Média. Por isso a igreja católica reafirmou sua doutrina no Concílio de Trento (sessão 25).

Certamente o alcance limitado das pessoas simples faz com que o culto aos santos seja simpático. Praticam-no com prejuízo da divindade. O irrompimento do protestantismo, qualquer seja a validade de suas doutrinas, contribuiu para a revisão do culto aos santos. 

 
729. Funda-se o culto aos santos na tradição e em passagem bíblicas. Este fundamento ocorre em proporções não fáceis de determinar, até porque a Bíblia estava sob a influência de uma filosofia superficial, em que dominava o antropomorfismo.

A tradição cristã esteve inicialmente também sob a influência pagã do mundo helênico-romano, cuja diversidade de deuses e entidades intermediárias influenciaram certamente seus atos de culto. 

A devoção à Ise, divindade feminina egípcia, depois largamente difundida no mundo helênico-romano, ofereceu o padrão para o culto à Virgem Maria.

O culto aos santos (ou aos mortos) ponteia em diferentes passagens bíblicas (Gen. 18, 23; 20,7; Ex. 32,10; Atos 27,24; e 37; Rom. 15,30). 

Os anjos e defuntos oram pelos homens (Tob. 12,12; Zac. 1,12; 2Mac. 15,12).

Os anjos sabem de nossas necessidades e preces (Tob. 13; Lc. 15,7).

A doutrina da "comunhão dos santos" (ou da igreja como sociedade) ampara o princípio de que uns poderão ajudar aos outros, e assim pela prece de uns em favor dos demais. Os santos seriam todos os componentes da comunidade, quer vivos, quer mortos. Estes últimos, os mortos, poderiam ser invocados como poderiam interceder pelos que restam vivos.

Quanto a Jesus, seria o intercessor principal junto a Deus Pai, e depois dele Maria, por seu através, finalmente os demais santos. Esta doutrina contém um sabor neoplatônico, pela qual Deus seria excepcionalmente transcendental, ao ponto de necessitar intermediários, o Logos (ou o verbo) e sucessivamente outros.

 
730. Alegam-se dificuldades racionais contra o poder de intercessão dos santos junto de Deus. Para que estabelecer uma intermediação, se, se admite o acesso direto da oração a Deus? 

Sobretudo não parece que os santos possam interceder, sem que o próprio Deus crie neles a capacidade deste exercício, de sorte a exigir-se um triplo trabalho: ida ao santo, ida do santo a Deus, criação da capacitação destas duas idas. Assim também os anjos, se eles sabem das nossas necessidades, precisaram ser capacitados para isto, como também de serem capacitados de ouvir a nossa prece.

Finalmente Deus sabe melhor que os santos e os anjos, e melhor do que nós mesmos, o que efetivamente nos falta.

Não obstante o aspecto de incoerência em todo este processamento, poderia contudo Deus elegê-lo no seu sistema de economia. Esta possibilidade certamente alegra a todos os ingênuos, quando se ocupam do assunto. Mas a simples possibilidade nada prova sobre a economia efetivamente eleita por Deus.


 
 

II – CULTO Á MARIA, A SS. MÃE DE JESUS.
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733. Admira como cristãos destacam o culto à Maria, a Mãe Santíssima de Jesus. São numerosos os templos que levam seu nome. E em todos os demais conta com altares. 

Maria também está presente num grande número de visionários e visionárias, que a vêem com as características étnicas da gente de seus país. São assaz conhecidas as visões de N. Sra. de Lourdes e de N. Sra. de Fátima.

Recebe também títulos, conforme o aspecto sob o qual é mais invocada, - N. Sra. das Necessidades, N. Sra. do Perpétuo Socorro, N. Sra. da Saúde, N. Sra. dos Navegantes. 

Inclusive é invocada como N. Sra. do Parto; neste particular, parece ter tomado o lugar à Ise, invocada pelas mulheres na antiguidade egípcia e helênico-romana. 

Paradoxal é o título de Virgem e Mãe! Este título, peculiar da doutrina católica, e contestado por outros grupos religiosos, tem levado a discussões violentas. 

Um político sensato, lamentando o que acontecia, falou certa vez: Creio na Virgem Mãe. Entretanto preferível teria sido, que somente ela soubesse a respeito! Acreditava ele, que, se assim fosse, a devoção à Maria certamente seria mais pacífica!

 
734. A doutrina da mediação universal de Maria, por isso denominada também Medianeira de todas as graças, eis o que mais se lhe atribui. Esta doutrina não se encontra, - diz um eminente teólogo, - nas fontes escritas "nem implícita, nem explicitamente" (Hervé).

Em favor da mediação universal de Maria fizeram alguns progredir uma interpretação especial das palavras de Jesus à sua mãe, por ocasião das bodas de Caná.

"Celebravam-se bodas em Caná da Galiléia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: 

Eles já não têm vinho. 

Respondeu-lhe Jesus:

Mulher, isso nos compete a nós? Minha hora ainda não chegou" (João, 1-5). 

Outra tradução diz:

- "Mulher que há entre mim e ti? Ainda não chegou a minha hora".

Colocadas estas palavras em combinação com mais outras ditas por Jesus ao pé da cruz, parecem aludir mais expressamente à meditação universal de Maria (Terrien, Vogt).

Importa acautelar-se com interpretações frágeis e sofisticadas, principalmente se não pertencerem a uma interpretação de longa tradição e universalmente difundida. O critério da tradição cristã válida, é a que existe universalmente no espaço horizontal e universalmente no espaço temporal. Uma crença local ou surgida na cabeça de alguns intérpretes não detém esta validade requerida pela tradição alegada como de fé.

A mãe de Jesus havia feito um pedido e ele como que a despediu: 

- "Mulher que há entre mim e ti? Ainda não chegou a minha hora".

O texto não é claro! Especula-se que Jesus, na vida pública, agia independentemente de sua mãe; sua vez de ajudar viria depois, quando a redenção já se tivesse dado; e se agora a vai atender na meditação feita, é só exceção, como que para revelar quão poderoso iria ser o poder da meditação que depois receberia para sempre. Especulação artificiosa?!

Há os que advertem, que a expressão "Mulher" se usava no tratamento das rainhas e senhoras de destaque, e que revela o afastamento entre Jesus e Maria na vida pública, quando pois a familiaridade desaparecia. 

A frase seguinte é um dizer hebraico, que pode significar certa displicência, mais ou menos favorável, conforme a circunstância.

Tem-se advertido especialmente sobre a última parte – "ainda não veio a minha hora," – porque é costume de João atribuir a certos termos um significado místico, e é o que parece suceder também aqui. "Hora", em seu Evangelho significa o momento supremo da redenção. E portanto, Jesus, ao responder a Maria, não quis absolutamente informá-la de que a "hora" ainda não chegada, fosse a hora dos milagres. De novo uma especulação artificiosa?!

Alega-se ainda que a hora viera, porque fez um milagre e continuou a fazer outros mais. Tratava-se, porém, da "hora" da redenção. E se Jesus diz não haver chegado a hora, parece dizer que um dia ela virá, e que então terá chegado também a hora de Maria interceder na qualidade de Medianeira a de todas as graças. 

Quando aquela hora teria realmente chegado, Maria e João se encontram sob a cruz do Redentor, Jesus falou: Mulher, eis ai teu filho, ao discípulo: Eis aí a tua mãe.

Estas palavras teriam dado agora o efetivo começo à função de Maria.

A inserção das palavras ditas a Maria e João lembram tratar-se de alguma coisa extraordinária, como só poderia ser no momento supremo da redenção donde se ter a impressão de que aquelas palavras pertencem aos últimos acabamentos da obra redentora. 

Se antes e depois se fazia referência às profecias, talvez aqui se fizesse igual referência, e então poderíamos pensar no proto-evangelho (Gênesis). Em que vem declarado que também a mulher, mãe do Redentor, pisará a cabeça da serpente do pecado. Mas todas estas considerações estão condicionadas à prévia aceitação das profecias referidas.

As razões indicadas talvez não tenham força conclusiva tomadas por partes. Mas a teriam talvez tomadas em conjunto, combinadas ainda com a tradição, ainda que também esta não seja clara? 

É difícil aceitar que se imponha à humanidade uma doutrina cujas fontes sejam precárias.


 
 

ART. 2-o. VISÕES E CONTATO COM ESPÍRITOS.
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738. Assunto secundário em religião, todavia envolvente. Visões e contatos com os espíritos separados, - qualquer seja a validade de tais crenças, - não representam assunto essencial em religião, mas têm envolvimentos fáceis com ela. 

Os visionários, - sejam os que dizem haver visto a Deus, ou os anjos, ou os espíritos separados dos mortos, - conseguem geralmente serem acreditados.

Todas as religiões tradicionais costuma estar comprometidas com este contexto.

De Jesus se diz ter ele tido visões, inclusive do Demônio e dos anjos:

"Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo Demônio. Jejuou quarenta dias e quarenta noites. Depois teve fome.

O tentador aproximou-se dele e lhe disse: Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães [...].

O Demônio transportou-o à cidade santa, colocou-o no ponto mais alto do templo, e disse-lhe: Se és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo [...].

O Demônio transportou-o uma vez mais, a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo, e a sua glória, e disse-lhe: dar-te-ei tudo isto, se, prostrando-te diante de mim, me adorares. Respondeu-lhe Jesus: Para trás Satanás, pois está escrito, - Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás. Em seguida o Demônio o deixou, e os anjos aproximaram-se dele para servi-lo" (Mateus, 4,1-11).

Os que acreditam em espíritos, com os quais pensam estabelecer contato, os classificam em bons e maus. Haveria anjos bons e maus. Finalmente os espíritos separados dos homens seriam também bons uns (os bem-aventurados ou santos), maus outros (os condenados ou réprobos).

Por esta via entra a questão religiosa, porque se usa acreditar que os bons servem a Deus, do qual seriam mensageiros e junto do qual intercederiam em favor dos vivos; inversamente se acredita que os maus resistem a Deus e conduzem os vivos ao mau caminho mediante a inspiração chamada tentação.

Resta pois, indagar sobre a autenticidade das visões e de que mais acrescentam sobre religião.


 
739. Visões, talvez anomalias. Os fenômenos extraordinários alegados pelos visionários e pelos que afirmam o contato com os mortos, poderão ser reduzidos a anomalias, e que a psicanálise procura analisar melhor. Ainda que as visões em princípio são possíveis, importa primeiramente garantir, que tenham resultado de uma anomalia. E quando se trata de narrativas distantes no tempo, importa garantir também a historicidade das mesmas.

As imagens e vozes do subconsciente são facilmente confundidas como sendo aparições e revelações dos mortos, e então efetivamente não houve aparições e revelações de outros espíritos. A complexidade com que estes fenômenos se dão, pode verdadeiramente surpreender. 

Considera-se, por exemplo, como as imagens do subconsciente interferem no movimento do corpo. Os movimentos conscientes se processam com imagem antecedente. Ora, se o subconsciente fornece imagens e estas eventualmente se ligam ao corpo, provocam movimentos, como aqueles que se observam em algumas pessoas quando dormem e sonham.

Em casos raros provocam o uso da palavra e podem acionar a mão para escrever e pintar. O sonambulismo é um elenco deste tipo de imagens motoras.

Indivíduos paranormais, epilépticos, doentes, ou ainda influenciados por drogas, tóxico, álcool, etc., estão sujeitos a situações de grande excepcionalidade. Podem então ser interpretados como tendo contato com os espíritos. 

Conforme as circunstâncias, poderão ser interpretados como profetas e mensageiros de Deus. Isto acontece sobretudo quando, o que dizem, eventualmente contém elementos válidos, e que eles mesmos posteriormente conseguem desenvolver como uma teologia racionalizada.

 
740. Equacionando o problema do contato dos vivos com os mortos. 

Haveria contato dos vivos com os mortos? O problema começa com a mesma colocação da questão, que assume aspectos diferentes, se o ponto de partida é o do dualismo (corpo e alma separáveis), ou se é do monismo (corpo e alma duas faces da mesma realidade). 

Não entender as questões de corpo e espírito sob o fundo da distinção entre monismo e dualismo resulta em superficialidade e mesmo em ingenuidade.

Importa advertir que a questão dos espíritos, é mais fácil de ser admitida, na pressuposição do dualismo, que separa notoriamente corpo e alma. 

Os que interpretam o corpo e a vida ao modo do monismo, os consideram faces da mesma realidade, e com isso resta praticamente descartada a questão dos espíritos dos mortos soltos por ai. Em consequência, tudo o que se conta destes espíritos reclama uma outra explicação.

 
741. Vida e espírito na doutrina dualista. A vida e o espírito separados como substância diferente da substância matéria supõe sempre o dualismo irredutível entre um e outro plano. Desta sorte corpo e espírito poderão separar-se realmente, porque em princípio é próprio do conceito de substância poder subsistir por si. Assim sendo, já se imagina que o espírito poderia conviver por algum tempo e depois retirar-se, tendo por efeito a morte do corpo, o qual fica sem seu motoro. 

Na hipótese do dualismo, o homem é uma composição de corpo e alma, como dois elementos irredutíveis, dos quais um penetra ao outro, mais ou menos como um espectro entra na máquina para fazê-la mover-se. A morte seria nada mais que a separação da alma, que deixaria de operar no corpo, por falta de condições para ali permanecer.

Segundo Platão, a alma se define como um ser capaz de mover-se por si, e em consequência moveria o corpo. 

Entretanto Platão nunca explicou como é que seria possível haver uma alma a mover-se por si. Nem explicou como seria possível uma alma espiritual mover um corpo material, porquanto são coisas sem se proporcionarem. 

Este último problema preocupou seriamente a Descartes. Para resolvê-lo dualistas posteriores apelaram ao ocasionalismo (vd 363) e à harmonia preestabelecida (vd 365).

Acredita-se também em espíritos sempre separados. Por exemplo, os anjos, de que falam as religiões persa, judaica, cristã, islâmica e outras. 

Bastante difundida é também a doutrina de que almas separadas e mesmo espíritos sempre separados (como o anjo mau denominado Diabo) podem excepcionalmente encarnar-se nos seres humanos, juntamente com a alma que já possuem; nesta oportunidade transmitiriam mensagens especiais e mesmo operariam fisicamente.

Algumas formas da teologia cristã interpretam a Jesus como tendo um alma criada junto à qual se estabeleceu o espírito da segunda pessoa divina; haveria, pois, em Jesus dois espíritos, - o da alma humana e o de Deus.

Nas religiões orientais, nas africanas e nas indígenas, se admitem incorporações similares dos espíritos nos corpos humanos.

Quaisquer sejam as formulações sobre as relações entre o corpo e o espírito, elas sempre dependem da pressuposição dualista não provada adequadamente, de que matéria e espírito sejam duas substâncias distintas.

Como provar este dualismo? 

O negativismo, que se apoderou das doutrinas dualistas, é peculiar à maioria das religiões antigas, que se transferiu inclusive para as filosofias pitagóricas e platônicas, tende a denegrir a matéria como sendo má e a ser eliminada. Mas este modo de definir a matéria como um dualismo irredutível apriorístico, porque efetivamente ninguém a conhece integralmente. 

Também Aristóteles, ordinariamente mais prudente nas afirmações, estabeleceu a irredutibilidade da matéria e da vida psíquica, separando-as como duas substâncias. 

Mas, se até agora ninguém conhece exatamente a matéria, não há como excluir dela a capacidade para as operações psíquicas. O estabelecimento de que a matéria é capaz apenas de operações mecânicas, é defini-la arbitrariamente.

Em consequência todas as filosofias do dualismo espiritualista e todas as religiões dependentes da tese, - que distingue alma e corpo como irredutíveis, - dependem de uma hipótese não de todo segura. 

Efetivamente, as chamadas provas da existência da alma, como distinta substancialmente do corpo, estão sob suspeita.

E assim também suas doutrinas sobre o contato com os espíritos separados, sobretudo em se tratando de almas separadas (desencarnadas), não alcançam validade absoluta (vd).

 
742. Vida e espírito na doutrina monista. Passemos a considerar também em particular a hipótese da matéria dotada de operações vivas e mesmo psíquicas. 

Excluído o dualismo radical de corpo e alma, de sorte a tudo ser vivo, esta hipótese facilita o processo da natureza, em que ora dos seres ditos mortos se passa para os vivos, e ora vice-versa, dos vivos para os ditos mortos. Neste monismo, não há seres efetivamente mortos, porque todos estão vivos desde que o mundo começou.

A exclusão do dualismo pode mesmo permitir uma hipótese extremista, em que o predomínio é do psiquismo. Propôs Bérgson que apenas existe vida e não matéria, de tal sorte que a matéria não seria mais do que um dos estágios da vida considerada em um momento de menor atividade.

Efetivamente, não sabemos o que seja a matéria, para definitivamente excluir uma outra hipótese, a de que a matéria, além de suas funções mecânicas, exerça funções vivas e mesmo psíquicas. Se por definição a matéria apenas puder exercer funções mecânicas, fica em princípio excluída sua possibilidade de ser geradora de atividades vivas e psíquicas. Mas esta exclusão pode estar sendo feita preconcebidamente, sem prova efetiva.

 
743. Conceituações divergentes de vida, alma, espírito. Suposto que haja uma só espécie de substância na natureza e que exerça as várias funções, inclusive as espirituais, teríamos mesmo que ajustar as tradicionais definições de vida, alma, espírito, porque ordinariamente se encontram postas em contexto dualista

Importa ir mesmo mais longe distinguindo mais fundamente entre um significado entitativo e outro gnosiológico.

Espírito, em significado substancial (ou entitativo, ou ontológico) significa uma realidade; o significado gnosiológico de espírito expressa uma operação de conhecimento (ou seja de psiquismo). Toda operação acompanhada de conhecimento seria psíquica.

O termo alma (no grego psiké) designaria, na interpretação dualista, o espírito humano no sentido de substância irredutível ao corpo. 

Mas o adjetivo espiritual se refere mais genericamente à operação psíquica. Nesta maneira de definir aos termos, seria compreensível falar em materialismo espiritualista, para estabelecer que se trataria da hipótese em virtude da qual a matéria também seria capaz de exercer funções psíquicas. O mesmo diria a expressão: materialismo panpsiquista. Quanto a panpsiquismo (sem matéria), seria a teoria segundo Bérgson.

Contudo, na interpretação monista, cabe também usar o termo alma. Neste caso, a reinterpretação não a entende como irredutível, mas como sendo aquela face de uma realidade, em que também participa a matéria, igualmente reinterpretada. 

Nesta hipótese abrangente cabe também, de forma reinterpretada, a evolução da natureza, sem que haja saltos, pois desde o início o sistema conta com os dois níveis da realidade. Toda a realidade é dotada de vida e psiquismo. A vida manifesta seria apenas o emergir do que já existe desde sempre. Progressivamente as organizações se tornariam psiquicamente cada vez mais manifestativas, até alcançarem os níveis de seres vivos adiantados como os animais superiores e o homem.

Trata-se de uma hipótese frágil, todavia apreciável pela abrangência com que consegue estabelecer caminhos explicativos para as variações da natureza. A vida seria eterna, apenas sem memória direta sobre o seu passado. E seria eterna, também para o futuro, porque os mesmos indivíduos não morrem nunca, apesar da aparência de sua morte. De tempos em tempos voltam a emergir para um novo ciclo superior. 

 
744. A morte no contexto do monismo da natureza. Como sugere a hipótese do monismo, a morte talvez não seja uma separação de corpo e alma. E sim apenas um desmonte de organizações altamente complexas, sem que a vida e o psiquismo em si mesmo desapareçam substancialmente. 

Neste caso não se trata de uma verdadeira morte, não haveria a morte total. A organização da vida nada mais seria que um vai e vem de oportunidades exercidas por um mesmo indivíduo, o qual vive sempre, ora mais vivo, ora menos vivo. Se restasse a memória desses sucessivos procedimentos, teríamos como saber diretamente por que estágios já passamos. Resta entretanto a memória indireta, a qual não é senão a ciência e a filosofia, quando algo dizem deste possível passado e possível futuro.

Na hipótese monista, somos o mesmo indivíduo desde o começo do mundo, e continuaremos a sê-lo para o futuro. Nunca nos encarnamos e nem nos desencarnamos, porque numa tal hipótese espírito e matéria são duas faces da mesma coisa. Apenas emergimos a afundamos, sem nunca morrer até o fundo.

Importa advertir que, - se se quiser usar o temo materialismo panpsiquista, - este não é idêntico ao materialismo puramente mecanicista. Para este último simplesmente não há espírito especificamente distinto da mecanicidade.

A rigor, o materialismo mecanicista nunca foi defendido por filósofo de qualidade. Nem é alegado por filósofos dualistas sérios. O materialista espiritualista não diz que tudo termina com a morte, porque o psiquismo está nas unidades desagregadas e não no todo em que elas antes se organizavam.

Diferentemente, para o dualismo em que a alma e o corpo são elementos separados, a alma se situa no todo do organismo e não necessariamente em cada partícula do corpo.

Quanto às crenças sobrenaturalistas, e mesmo às salvacionistas, elas não impossíveis em uma e outra interpretação da natureza ao modo dualista e monista, ainda que tenham de ajustar seus conceitos, para um e outro caso.

 
745. A comunicação dos espíritos no contexto do monismo da natureza.

Dentro da hipótese do monismo da natureza, a comunicação dos espíritos também se estabelece, mas de modo adequado à hipótese em questão e talvez até mais facilmente.

Importa não fazer da matéria um espantalho para o espírito.

A ilusão a respeito da matéria já principia no momento em que se é dominado pela imagem ingênua de um mundo visto apenas como um amontoado de átomos distanciados por espaços vazios.

Efetivamente as partículas poderão ser apenas áreas em que se manifestam os objetos. O que verdadeiramente poderá estar acontecendo seriam campos materiais contínuos. 

O espaços entre as partículas não é vazio, porquanto nele também se manifestam as forças fundamentais da natureza, de que a atração ou gravidade é um dos mais evidentes. O que não acontece nestes espaços vazios é o fenômeno das partículas, mas poderá haver outras realidades, diferentes das partículas. Em sendo assim, a comunicação, seja a corpórea, seja a vivente e psíquica, também se situam sob esta outra base que não a das partículas.

A comunicação entre o corpo e a vida se entende com mais facilidade no contexto monista, porquanto, neste caso, a matéria e o espírito pertencem à mesma realidade substancial, sem aquela irredutibilidade radicalizante do dualismo. Havendo somente unidades em que matéria e espírito são realidades não irredutivelmente distanciadas, a comunicação da matéria estabelece também a comunicação espiritual.

A interpretação monista da natureza clareia também porque todo o conhecimento superior começa na experiência sensível. 

Não parece claro, que haja um conhecimento autônomo, - independente da experiência sensível, - como quer o racionalismo radical do platonismo, do agostiniano, do cartesianismo, ou mesmo do fideísmo e do misticismo. 

Como se sabe, o conhecimento intelectual do ser, - no sistema de Aristóteles e de Tomás de Aquino, depois até no de Kant, - principia pela presença do fenômenos sensível.

 
747. Concluindo e encerrando nossa exposição sobre filosofia da religião, retornamos à uma observação inicial, em que dizíamos haver iniciado este tratado ao tempo de nossa juventude, e que foi nosso primeiro livro (vd 4). 

Depois de muitas vezes retocado, estamos satisfeitos de havermos chegado, depois de 6 décadas, ao seu final. 

Pronto, o livro está agora ali, como nossa oração, Àquele que achamos ser o verdadeiro Deus. 

Afinal, porque tanto tempo? É que não há religião verdadeira sem uma boa filosofia na cabeça. Ora, para isso importa tempo.

Neste assunto de filosofia da religião, - dada a sua alta complexidade, - a experiência recomenda uma certa tolerância prática na condução dos temas mais candentes

Muito do que discutimos e apresentamos, o foi dentro de pressupostos hipotéticos, mesmo quando não o tenhamos declarado expressamente. Quem admitir os pressupostos, terá aquelas conclusões como coerentes. A logística das conclusões será evidentemente outra, se houver alteração em alguns dos pressupostos.

Quando ficamos cautelarmente em hipóteses, apenas as explorando em suas consequências, sabemos pelo menos aonde elas podem conduzir. E assim, com hipóteses principia a ciência.

Temos sempre insistido em definir a religião como uma visão de conjunto sobre o todo, e portanto como algo importante.

Mas se o todo é constituído de muitas partes, - em que nem as partes são bem conhecidas, - não podemos garantir uma conceituação geral segura, mas condicionada às hipóteses utilizadas. Se nas partes muito ainda há de mistério, no todo o mistério ainda será maior.

A prudência científica e filosófica em assuntos de religião já vem de Protágoras, o maior dos sofistas gregos da antiguidade, conhecido também pela sua sabedoria: 

"Dos deuses não estou em condição de saber, - nem se existem, - nem se não existem, - nem quais são.

Efetivamente muitas coisas impedem sabê-lo: não só a obscuridade do problema, mas a brevidade da vida humana".

Não é preciso fazer sectarismo doutrinário, com o saber que se possa adquirir em filosofia da religião.

A liberdade de opinião é um direito fundamental da pessoa humana.

Por falta da tolerância religiosa foram praticadas muitas mortes.

Devem os humanos poder dialogar sobre todas as coisas, como irmãos. Devem sabê-lo fazer, principalmente quando se trata das coisas do Altíssimo, - mais alto que todas as estrelas, mais vasto que todas as distâncias do universo, mais sábio que todo o saber humano.

Evaldo Pauli.


Cap.8Índices