4. Filosofia da religião, como se apresenta na Enciclopédia Simpozio, é um texto da subunidade geral denominada Enciclopédia de Filosofia.
Pela sua forma é um texto hípermega.
Como texto híper, Filosofia da religião é um tratado. Nesta condição hiper, Filosofia da religião se distingue dos artigos atômicos, estes dispostos em ordem alfabética. Mas é a ordenação sistemática, portanto em tratado, de todos os artigos relacionados com o tema.
Hipermega se distingue de micro-, porquanto o texto apresenta também uma versão resumida, com que participa no texto Micro filosofia geral.
De outra parte, Filosofia da religião integra um conjunto maior de tratados, Mega Filosofia Geral (Mega Metafísica), porque do ponto de vista sistêmico obedece à ciência específica a que se reduz.
Aliás, são partes mais evidentes da mesma ciência metafísica: Filosofia do conhecimento (ou Teoria do Conhecimento), Filosofia do ser (Ontologia), Filosofia da Religião (Teodicéia).
A numeração divisionária do texto Filosofia da religião é de 3 dígitos, contando pois com o espaço de 000 até 999. Para a citação interna bastam os números desta divisão divionária.
Para a citação a partir do exterior do tratado, importa a numeração básica deste, e que é 7270, combinada com a numeração divisionária, intercalada pela letra y (equivalente de híper). Por exemplo 7270y001 leva ao índice analítico de Filosofia da Religião.
Concluindo a apresentação técnica do texto, ainda anotamos que este livro, denominado Filosofia da religião, foi o primeiro que escrevemos em nossa vida.
Como jovem estudante o redigimos a primeira vez no início da década de 1940. Depois o reformulamos várias vezes, sem nunca o publicar, até que em 2001, chegamos a dá-lo como concluído (vd 744) e adatado para ser parte, nesta Enciclopédia Simpozio, do conjunto Mega Filosofia Geral (ou Mega Metafísica), na posição em que outros colocam o que chamam Teodicéia.
6. Numa introdução à filosofia da religião importa chegar a defini-la claramente e dispor didaticamente as suas partes principais, com os respectivos capítulos a serem examinados.
Quer sobre a definição da filosofia da religião, quer sobre sobre sua divisão importam algumas digressões, que podem esclarescer obscuridades e ajudar o desenvolvimento sistemático do assunto.
7. Ainda sobre a definição de filosofia da religião. Trata a filosofia de todos os temas que reclamam um esclarecimento que dependem de ponderações puramente raciocinativas. Ela não inclui as questões de ordem científica, ou seja das ciências positivas, as quais são decididas por verificação experimental. Não obstante, a filosofia deve respeitar os fatos e estar então alinhada com as referidas ciências.
É um tema tipicamente filosófico discutir o sentido da realidade em geral, quando se ergue a questão da existência de Deus e do seu culto. Trata pois a filosofia da religião do sentido da realidade em geral, tendo por objeto específico a questão da existência de Deus e do seu culto.
A filosofia oferece conceitos em função dos quais é possível julgar a religião vigente, aquela acontecida através da história. A partir deste saber, desenvolvido criticamente, a religião poderá crescer, - da dignidade que já tem, - para níveis crescentemente mais elevados.
Muitos já abandonaram a forma culturalmente primarista das religiões vindas do passado, sem contudo deixarem de apreciar as questões que de maneira válida se erguem a respeito da realidade global.
Geralmente os indivíduos que promovem a religião se caracterizam como pessoas bem intencionadas e diligentes, e não como filósofos perscrutadores da verdade. Por isso ocorre um descompasso entre a religião cultural efetivamente praticada e a filosofia da religião. Os que sabem menos, costumam ser os guias religiosos das grandes massas piedosas, e costumam chamar de heréticos aos que sabem mais.
8. Religião sobrenatural. Quando uma religião se funda em revelações, que os visionários e similares dizem ditadas a eles por Deus, ela já não é tema direto da filosofia, porque suas provas dependem da constatação factual.
Mas, em princípio, a religião sobrenatural tem de estar coerente com os fundamentos filosóficos da mesma religião e deve provar o fato de sua revelação com rigor científico. Em outras palavras, a religião sobrenatural importa em uma argumentação epistemologicamente bem conduzida. Eis o que não parece claro na religião sobrenatural, até porque se apresenta com uma variedade verdadeiramente anárquica.
Por causa da geral anarquia acontecida no campo das religiões, quer do ponto de vista filosófico, quer do ponto de vista da ciência, a religião aparenta ser algo sobretudo do atraso cultural dos simples. Entretanto, assim não é.
Efetivamente, a religião é própria sobretudo do sábio, porque ela encara a realidade geral, e sobre ela procura tomar uma posição.
9. Doutrinação e proselitismo religioso. O verdadeiro mestre propõe, mas não impõe. Os discípulos ouvem as razões pró e contra, com vistas a atingirem eles mesmos uma conclusão. Nesta interação consiste a correta maneira de exercer o ensino, seja na escola e na universidade, seja inclusive nos templos. Todavia não é o que sempre acontece.
Com frequência, a religião se torna tema somente de doutrinação e proselitismo. Já supõem a doutrinação e o proselitismo uma posição tomada, a qual eventualmente poderá ser verdadeira, mas também falsa.
O doutrinador, que faz proselitismo, não mais se propõe a rever sua posição; convencido de uma doutrina, a propaga, com vistas a obter prosélitos. Ele interpreta a si mesmo como apóstolo de uma verdade. Quando pesquisa apenas procura novas provas para esta sua verdade. Quando discute, não mais busca a verdade, mas quer apenas refutar seus adversários.
Doutrina (do latim docere = ensinar) pressupõe uma posição tomada, por parte de quem ensina.
O doutrinador, porém, visa linearmente convencer
aos ouvintes sobre uma doutrina feita. É apenas um veículo
de algo, que nem ele mesmo pode alterar, senão renunciando à
tarefa inicialmente proposta. Tal é praticamente a condição
da maioria dos pregadores das religiões tradicionais: pregam uma
doutrina feita, para qual não contribuem senão como veículo
da mesma, e não para seu desenvolvimento interno.
O proselitismo, do grego prosélitos (= aderente), consiste em conquistar aderentes de uma doutrina feita e
não em um trabalho de puro desenvolvimento dos conhecimentos sobre
a religião. O proselitismo não se ocupa diretamente do desenvolvimento
da pesquisa religiosa mas da propagação de doutrina feita,
ou seja, de uma ideologia.
A prática do proselitismo, de que falam os livros bíblicos do Novo Testamento (escritos em grego), era peculiar aos judeus, que saíam pelo mundo helênico-romano com visitas a pregar aos mesmos judeus e também aos pagãos para convertê-los ao judaísmo.
Prosélitos se dizia principalmente dos pagãos conversos ao judaísmo, e depois também ao cristianismo. Imitando o habito proselitista judeu, os primeiros cristãos também se entregaram ao proselitismo, e tiveram mais sorte com o seu neojudaísmo.
Os fariseus exigiam dos pagãos conversos até mesmo a circuncisão (corte do prepúcio do pênis); os cristãos não demoraram em dispensar este corte doloroso, tornando sua doutrina mais aceitável e adequada ao proselitismo. Por esta e outras razões ganharam os cristãos a corrida proselitista, deixando para trás aos fariseus.
Efetivamente os pesquisadores mais sérios têm sido aqueles que recuam diante das respostas fáceis, e preferem a atitude cautelosa de diante do mistério, quando perguntam pela realidade como um todo.
Os pesquisadores não são agnósticos no sentido comodista, mas ativos. Embora critiquem as respostas dos simplistas, não rejeitam indagar sempre.
O resultado dos pesquisadores da investigação
séria em religião é bastante negativo, mas não
negativista. É negativo, porque afasta da mente o homem falsas convicções
e todos os envolvimentos consequentes. Este é um resultado negativo
crítico, um espaço puro sem falsos fantasmas. Não
é um resultado negativista, porque a pesquisa continua, indagando
pelo o que há de mais misterioso – o sentido do todo como um todo.
É importante esquecer o Deus da imaginação,
que as fantasias colocam como um senhor feudal no meio de um vasto céu,
no qual voam anjos e há santos de todas as categoriasa, alguns com
coroas de reis, outros com mitras papais sobre as cabeças. Mas,
este Senhor, dito todo poderoso, é todavia menor que o próprio
céu...
Entretano, se Deus é infinito, não criou o céu para ir morar dentro dele. O inverso poderá ser dito, que o céu está dentro de Deus.
O Deus que mora no céu desde há muito
morreu para filosofia, ainda que na imaginação de alguns
pregadores populares, ele ainda continua assim, ligeiramente mais forte
que o Diabo. Este Deus em vez de ser infinitamente mais alto que a montanha
é apenas menor que uma colina.
O problema do Grande Ser, da realidade intensivamente infinita, do Deus Verdadeiro, da Razão Suficiente do mundo está sempre vivo para a inteligência raciocinante. Difícil será conceituá-lo. Importa, por conseguinte, esforçar-nos em assunto tão transcendente.
Mais uma vez nos colocamos nesta aventura astronômica de perguntar por Deus, sem preestabelecer preconceituosamente, - se Ele é algo independente do mundo, ou se Ele é o próprio mundo. Temos que nos situar no começo, rigorosamente antes de todas as respostas.
10. A atitude filosófica e científica em religião. Metodologicamente, tudo principia pela dúvida, em que o pensamento crítico pergunta por todas as alternativas, para depois estabelecer como tese, o que foi efetivamente provado. Neste sentido dizemos, que o estudo da religião é, em primeiro lugar, uma filosofia e uma ciência, não uma doutrinação e proselitismo com base em visões.
A filosofia e a ciência tratam simplesmente de saber, de conhecer, de compreender, de descobrir, de pesquisar, de indagar, de estudar. É o que faz a escola autêntica, ou seja a boa universidade.
Este estado de espectativa deverá ser a atitude mental de cada um, colocando-se metodologicamenge no começo, aguardando a verdade que por primeiro bate à porta.
Algumas religiões exaltam o trabalho do apóstolo e condenam aquele que muda a crença. Mas isto importa em ser primeiramente bem equacionado.
O cristianismo, por exemplo, conta com a promessa enfática de Jesus, de que aqueles, que deixam a sua família, por amor ao Reino de Deus, terão um grande galardão no céu. Isto poderá ser válido, mas somente depois que o cristianismo como um todo estiver provado e possa ser aceito para a pregação.
Também são religiões proselitistas o islamismo e budismo. Não importa que o sejam, desde que proponham por primeiro discutir vastamente a validade de suas bases.
O bramanismo é um caso excepcional de pouco proselitismo, razão porque se restringiu quase só à Índia. Mas, mesmo ali deverá cuidar primeiramente de seu fundamento doutrinário.
Depois de provados os fundamentos da doutrina a ser pregada como proselitismo, importa ainda um prévio cuidado para com o respeito à liberdade de consciência daquele ao qual se prega.
O proselitismo e o fanatismo são frequentes no homem simples, o qual pensa fazer caridade ao levar sua doutrina pessoal aos demais.
Diferentemente, o homem sábio tende a uma pesquisa, com vistas a tornar seu saber mais crítico. Ele melhor compreende que ninguém é bom ou mau em função ao que for capaz de saber, mas em função à intenção moral. O fanático supõe que os de outra fé serão mesmo condenados ao fogo eterno.
Nos tempos modernos diminui o fanatismo entre os próprios homens simples. É que o tecnicismo habitua as mentes a interpretarem todas as coisas como tendo causas efetivas e não causas mágicas. Nem ocorrem insuflamentos fanáticos nas proporções como ocorriam no passado, quando as religiões se viam como umas contra as outras. No futuro as religiões, através de chefias mais esclarecidas, passarão a se verem como sendo apenas diferentes, e não simplesmente como sendo contrárias, com atitudes agressivas.
A escola e a universidade se orientam no sentido da pesquisa pura, sem proselitismo, quer ser trate de história, quer de política, quer de sociologia. A educação cada vez mais se conscientiza da liberdade de pensamento como um direito do aluno, induzindo-o a pensar com a própria cabeça.
Proporcionalmente à população, decresce o número das instituições religiosas, que usam a escola como instrumento de indução para fazerem de seus alunos novos prosélitos. As empresas de comunicação (jornais, revistas, rádio, televisão), ficaram também em grande parte fora do controle dos grupos ideológicos, ainda que estes possam a eles ter acesso. Não obstante, nada obsta que escolas e meios de comunicação estejam em poder de organizações de ideologia definida, com a condição que sejam respeitadas as normas da liberdade de pensamento.
Cabendo à escola e à universidade a função de educar e ensinar, devem também questionar a religião, capacitando aos alunos a que pensem criticamente com os próprios recursos. Isto já acontece em grande escala, e é responsável pela mudança da mentalidade religiosa do homem moderno.
Nada predefinindo como doutrina, a universidade tem, entre outras finalidades, também o desenvolvimento do estudo global da religião.
Superado o antigo proselitismo, deverá chegar uma grande época, em que todos sejam capazes de entrar no mesmo templo, sem se preocupar com o que pensa aquele que está a seu lado. Ninguém mais será chamado infiel a Deus, nem lhe será dito ser condenado, por não ter a mesma fé dos pretensos guias das almas alheias. Então até a multiplicidade de convicções passará a ser interessante para o aprofundamento da pesquisa sobre a verdade global.
11. Divisão geral da filosofia da religião. De primeiro intúito, apresenta-se claro dividir, entre o que é, e o que dali decorre. Eis, pois, a divisão da filosofia da religião em duas partes gerais:
A). A redivisão da 1-a parte da filosofia da religião, referente aos seus fundamentos, reclama três capítulos preliminares, logo seguidos dos dois principais. Dali resulta o seguinte elenco temático de cinco títulos propostos a serem examinados seriamente:
Destacam-se, entre estes capítulos, os dois, que se referem à existência e à natureza de Deus.- pensamento lógico e pensamento pré-lógico em religião (cap. 1-o.) (vd 7270y013);
- exame histórico-crítico das religiões (cap. 2-o.) (vd 7270y049);
- história das diferentes filosofias da religião (cap. 3-o.) (vd 7270y196);
- a questão da existência de Deus (cap. 4-o) (vd 7270y445);
- a natureza do verdadeiro Deus (cap. 5-o) (vd 7270y493).
a) Supõe a religião a existência de Deus (cap. 4-o), questão que é preciso examinar exaustivamente
As provas válidas seriam cinco, na opinião de Tomás de Aquino (1225-1274), que as selecionou.
Elas dependem de princípios (ou axiomas), condicionados a uma sutil ontologia, de difícil aceitação. O exame dos argumentos de existência de Deus importam primeiramente em uma ontologia do divino, que consiste em estabelecer a possibilidade mesma da ontologia e dos princípios, sendo que estes funcionam como premissas das provas da existência de Deus.
b) Importa atingir ao máximo o que é a natureza de Deus, para não ficarmos com um falso Deus. Eis um capítulo dos mais difíceis.
A prova da existência de Deus não incorre necessariamente em sua distinção do mundo. Importa portanto dirimir a difícil polêmica entre monismo metafísico (materialista ou panteísta) e dualismo metafísico teísta.
Se se decidir em favor do dualismo teísta, estarão preenchidas as condições essenciais para uma religião como culto da criatura ao criador.
Tem condição de fundamentos da religião,
sem serem a própria religião, os conceitos de Divindade e
de criatura. Não há religião sem este binômino
porque religião (essencialmente) é culto de um para outro.
Colocado estes dois termos essenciais, de variada maneira se pode conceituá-los. Deus, como causa da natureza e das suas leis naturais é muito diferente de Deus assumindo o lugar das mesmas leis naturais, como entendem os sobrenaturalistas e sobretudo os animistas ou mágicos.
De outra parte, a criatura também é conceituável de muitas maneiras. Com essa variação conceitual inicial, se dá mais uma vez oportunidade à variação das religiões, conforme ao ponto de partida adotado, consciente, ou inconscientemente.
Em destaque se encontra a divisão, no plano da natureza, entre os dualistas e os monistas.
Como se sabe, os dualistas conceituam o corpo e a alma como duas substâncias irredutíveis e capazes de se separar. Em consequência podem traçar uma história separada para o espírito, e a religião passa a ter um encaminhamento muito variado.
Os monistas interpretam o corporal e o espiritual como dois aspectos de uma só realidade fundamental, de sorte que todos os seres são vivos desde sempre, mesmo quando não parecem dar manifestações de vida. De acordo com esta interpretação, todos somos vivos, desde que o mundo existe, embora não tenhamos memória do passado. Deste passado somente temos a memória indireta, que resulta do saber científico, dizendo-nos que o mundo já existia há bilhões de anos.
B) A redivisão da 2-a parte da
filosofia da religião, penetrando já no tema essencial
da filosofia da religião, apresenta ao exame sucessivo: